A revista Caras está de regresso às bancas e inaugurou um novo ciclo editorial assente numa lógica de exclusividade, intemporalidade e valor acrescentado. Sob a direção de Pedro Amante, a publicação abandona o formato semanal para apostar em edições temáticas e colecionáveis, posicionando-se como um produto premium no panorama editorial português. A decisão de reduzir a periodicidade resulta da quebra nas vendas das revistas semanais mas também de uma redefinição estratégica clara.
“Trata-se de uma decisão estratégica e que está diretamente relacionada com o decréscimo que se tem verificado nas vendas das revistas semanais, mas acima de tudo com o que pretendemos que seja a nova linha editorial da Caras. Queremos que seja uma revista para colecionar, de consumo intemporal, feita com rigor. Apostamos num posicionamento mais premium e não seria possível fazê-lo com uma periodicidade semanal, que são revistas de consumo mais rápido. A Caras passa a ter menos edições, mas mais substância”, explica Pedro Amante à Marketeer.
Mais do que um simples “regresso” da revista, este movimento traduz também uma reinvenção, com o novo projeto editorial a romper com o registo tradicional da revista, centrado na atualidade social, para assumir uma abordagem mais próxima do universo lifestyle. “Basta olhar para a capa e folhear as primeiras páginas para se perceber que é uma revista totalmente nova”, refere o diretor, apontando também para um grafismo “totalmente reformulado, mais atual e mais limpo” e que as fotografias “‘respiram’ melhor”.

“E o mesmo acontece em relação ao conteúdo, porque deixa de ser uma revista de atualidade social e passa a ser uma revista com uma abordagem mais lifestyle, com temáticas específicas em cada edição. A revista que já está nas bancas tem como tema Viagens e todo o conteúdo gira em redor desse universo, mas não esquecemos as pessoas e teremos sempre várias entrevistas. É aí que fazemos a ligação com o que foi a Caras. Porém, como o posicionamento mudou, também as pessoas que nos acompanham em cada edição serão escolhidas de forma mais criteriosa”, afirma.
Num ecossistema mediático dominado pela velocidade e pelas redes sociais, a nova Caras decidiu assumir um posicionamento quase contracorrente, apostando em menos imediatismo e mais permanência, num “afastamento do registo mais imediato e noticioso” que Pedro Amante considera “fundamental”.
“Há cada vez menos espaço para esse tipo de narrativa, precisamente porque esses conteúdos de consumo rápido estão nas redes sociais e nos sites. As celebridades instantâneas usam as suas redes sociais para divulgarem as suas próprias ‘notícias’ e há muito que se tornaram concorrência direta das revistas e dos próprios sites. O conceito do exclusivo deixou praticamente de existir e tornou-se prática corrente as revistas irem buscar conteúdos às redes sociais das celebridades”, explica o responsável.
Mas apesar desta hegemonia do digital, Pedro Amante entende que há espaço – e até necessidade – para revistas premium em papel. “Acredito que existe cada vez mais espaço em Portugal para revistas premium em papel e penso mesmo que no futuro, com a proliferação no digital dos conteúdos ‘low cost’ e de consumo rápido, só existirá espaço para revistas premium em papel. Só haverá espaço para revistas que possam ser colecionadas e revisitadas”, aponta.
Perante este cenário, Pedro Amante entende que o papel e o digital não competem diretamente, cumprindo funções distintas, sendo que “o que o papel oferece não pode estar no digital”, pois “ninguém vai comprar algo que esteja acessível de forma gratuita”.

A ambição passa assim por transformar a Caras num “objeto de coleção”, com a revista a apostar em textos intemporais e numa forte componente visual, sustentada por decisões concretas ao nível da produção. “Há uma grande preocupação na qualidade dos textos e das fotografias”, explica o responsável, acrescentando que a isso se somam também melhorias físicas como um tipo de papel mais denso, uma capa mais rija, lombada colada e uma impressão de elevada qualidade.
O objetivo é posicionar a Caras como uma revista “de referência” e como “uma publicação premium, para leitores exigentes e que procuram o melhor do lifestyle”. Com um modelo trimestral e uma abordagem híbrida entre várias áreas – viagens, luxo, decoração e sociedade -, a nova Caras ainda tem de perceber quem será a sua concorrência, pois “não existem revistas trimestrais com este perfil”, reconhece o diretor. Ainda assim, a ambição é clara: “Queremos que a Caras seja a melhor”, afirma.
O relançamento surge também no âmbito do regresso do título ao universo do grupo Impresa (dono da SIC e Expresso), tendo em conta que o mesmo vinha a ser publicado pela Trust in News, entretanto declarada insolvente. Este movimento é descrito como um “regresso a casa”, mas também como um passo importante para recuperar credibilidade após a ausência das bancas.














