A celebrar este ano o seu centenário, a Recordati Portugal tem na inovação farmacêutica uma das suas principais bandeiras. Hoje, a empresa, que integra o grupo internacional Recordati, contribui para o desenvolvimento de avanços científicos em áreas como as doenças cardiovasculares, urologia, gastrenterologia, saúde mental, doenças raras e consumer health, que têm um impacto altamente positivo na vida dos doentes.
Encarando o futuro, a empresa mantém o compromisso de continuar a trazer para o mercado nacional terapêuticas que respondam a necessidades médicas relevantes e ainda insuficientemente satisfeitas. «Acreditamos que será precisamente na combinação da medicina de precisão, da gestão integrada da prevenção da doença, das doenças mais comuns tratadas em contexto de primary care e das doenças raras, que poderemos gerar maior impacto nos próximos anos», afirma Nelson Ferreira Pires, director-geral da Recordati Portugal.
Em entrevista à Marketeer, o responsável lamenta, no entanto, as dificuldades de acesso a medicamentos inovadores em Portugal, bem como as lacunas do actual modelo de avaliação e financiamento.
A Recordati Portugal celebra este ano o seu 100.º aniversário. Como é que esse know-how centenário se reflecte naquilo que é, hoje, a abordagem da empresa à Investigação & Desenvolvimento (I&D)?
Celebrar 100 anos representa muito mais do que assinalar uma data histórica. É o reflexo de uma cultura de longo prazo assente na ciência, na capacidade de adaptação e na procura constante de soluções para necessidades clínicas ainda não satisfeitas. Ao longo de um século, a Recordati evoluiu de uma empresa focada em doenças prevalentes (primary care), como a hipertensão ou a Hiperplasia Benigna da Próstata (HBP), para um grupo multinacional e global com uma forte presença em áreas altamente especializadas, como a prevenção do risco vascular, tratamento do cancro da próstata, mas também das doenças raras.
Para nós, a inovação não se resume à descoberta de uma nova molécula. Inovar é criar valor real para os doentes, para os profissionais de saúde e para os sistemas de saúde. Isso pode significar desenvolver novas terapêuticas, melhorar a utilização de medicamentos já existentes, aprofundar o conhecimento científico sobre determinadas patologias ou contribuir para um acesso mais rápido e equitativo às melhores opções terapêuticas.
Que vantagens é que a integração numa multinacional, como o Grupo Recordati, aporta a este nível?
Permite-nos combinar proximidade local com uma visão global, ou seja, sermos “Glocal”. Beneficiamos de uma rede internacional de investigação, desenvolvimento, produção e acesso a conhecimento científico altamente especializado. Esta dimensão global facilita a identificação de oportunidades terapêuticas, o acesso a tecnologias de ponta e a capacidade de investir em áreas de elevada complexidade científica, como as doenças raras.
Ao mesmo tempo, permite-nos adaptar essas soluções à realidade do mercado português e às necessidades específicas dos doentes nacionais.
Ao longo destes 100 anos, quais as principais inovações lançadas pela empresa no mercado nacional?
A contribuição da operação portuguesa tem sido particularmente relevante na introdução e disponibilização de terapêuticas inovadoras em áreas como as doenças cardiovasculares, urologia, gastrenterologia, saúde mental e, mais recentemente, doenças raras. Seja através de um portefólio corporativo, como de acordos e licenças exclusivas de outras multinacionais para o mercado português.
A nossa estratégia passa por trazer inovação da casa-mãe e, em paralelo, procurar oportunidades locais que nos permitam manter o foco na inovação, sempre para benefício do doente e do equilíbrio do sistema de saúde. Além disso, apoiamos projectos de investigação nacionais com mais de dois milhões de euros anuais, que vão contribuir para reforçar a dinâmica da investigação “made in Portugal”.
Quais as áreas terapêuticas que absorvem maior investimento ao nível da inovação? E quais aquelas em que acreditam que podem ter maior impacto nos próximos anos?
As doenças raras continuam a ser uma das principais áreas de investimento estratégico do Grupo Recordati. Desde 2007, com a aquisição da empresa Orphan Europe, a Recordati tem reforçado significativamente a sua presença neste segmento.
Paralelamente, mantemos uma forte aposta nas doenças cardiovasculares, inclusive com o lançamento recente de um medicamento totalmente inovador na prevenção secundária do risco residual cardiovascular, ou seja, o risco para quem já teve um evento como um enfarte. O benefício para estes doentes tem uma evidência clínica fortíssima, que demonstra uma redução de cerca de 25% do risco de eventos cardiovasculares futuros. Mas, infelizmente, é inacessível à maior parte dos doentes, pois é apenas reembolsado em 37%, o que implica que os doentes tenham de pagar mais de 100 euros por mês. Infelizmente, é o modelo de comparticipação que temos, em que, apesar de termos em Portugal o preço mais baixo da Europa, o doente paga mais em comparação com todos os países europeus – onde, em média, se paga menos de 20 euros mensais ou mesmo 0 euros, dado o benefício clínico evidente.
Outras áreas de enorme relevância clínica e de saúde pública são a urologia, gastrenterologia e consumer health.
Acreditamos que será precisamente na combinação da medicina de precisão, da gestão integrada da prevenção da doença, das doenças mais comuns tratadas em contexto de primary care e das doenças raras que poderemos gerar maior impacto nos próximos anos.
Que medicamentos inovadores estão na calha para serem lançados nos próximos anos?
O pipeline da Recordati continua bastante dinâmico, tanto nas doenças raras como em áreas especializadas de elevada necessidade clínica. Contudo, a concretização dos calendários de lançamento depende sempre de aprovações regulatórias e de decisões de financiamento e comparticipação. Infelizmente, Portugal, com a sua política de preços muito baixos, começa a ser pouco atractivo para lançar inovação terapêutica.
No entanto, continuamos a trabalhar para trazer inovação nas nossas áreas core, como a cardiovascular ou consumer health, por exemplo.
Apesar de preferirmos não antecipar detalhes específicos sobre produtos ainda em avaliação, podemos garantir que continuaremos focados em trazer para Portugal terapêuticas que respondam a necessidades médicas relevantes e ainda insuficientemente satisfeitas.
As empresas farmacêuticas são responsáveis por mais de 90% dos ensaios clínicos no País. Tendo em conta esse facto, porque não existe uma indústria mais dinâmica em termos de I&D?
Portugal reúne condições muito competitivas ao nível da qualidade dos profissionais de saúde, dos centros hospitalares e da investigação académica. No entanto, persistem desafios que limitam o seu potencial.
Entre os principais obstáculos, destacam-se os preços muito baixos do mercado português quando avalia a inovação terapêutica – que influenciam os preços nos grandes mercados europeus –, a burocracia administrativa, os tempos de aprovação, a fragmentação de procedimentos entre instituições e a necessidade de reforçar carreiras dedicadas à investigação clínica.
Estes factores afectam a competitividade do País na captação de investimento internacional para I&D. Reconhecendo, ainda assim, que existe uma entidade (AICIB) criada entre público e privado, que tem feito um excelente trabalho para dinamizar este sector da I&D, que pode proporcionar aos doentes inovação terapêutica precocemente, custo zero para o Estado, remuneração para as instituições de saúde, experiência e conhecimento para os profissionais de saúde. Vale a pena investir neste sector.
Quanto tempo pode demorar um medicamento inovador a chegar aos doentes portugueses após aprovação? E como compara com outros mercados europeus?
O tempo pode variar significativamente em função da complexidade da avaliação e do processo de negociação associado ao financiamento. O normal seria o tempo que a lei prevê, de 210 dias.
Embora tenham existido melhorias nos últimos anos no mercado nacional, continua a verificar-se que alguns medicamentos inovadores chegam aos doentes portugueses mais tarde do que em mercados europeus de referência. Em muitos casos, a diferença não resulta da aprovação regulatória europeia, mas sim dos processos nacionais subsequentes de avaliação e financiamento. Por norma, os doentes alemães, por exemplo, têm acesso a inovação terapêutica mais de 500 dias antes dos doentes portugueses.
Continuam a existir áreas onde Portugal apresenta um acesso mais tardio ou inexistente, comparativamente a alguns países europeus. Segundo o estudo Patients W.A.I.T. Indicator, em Portugal existem apenas 53% dos medicamentos aprovados pela EMA – European Medicines Agency, o regulador europeu. O principal desafio não está na qualidade da avaliação científica, mas sobretudo na previsibilidade e rapidez dos processos de decisão.
Que alterações é que a Recordati defende ao actual modelo de avaliação e financiamento da inovação?
Defendemos um sistema mais previsível, mais célere e mais orientado para os resultados em saúde. A participação dos doentes no processo de avaliação. A objectividade na escolha do comparador.
Entre as áreas prioritárias, destacaria a simplificação administrativa, o cumprimento consistente dos prazos de decisão, uma maior utilização de modelos de acesso baseados em valor (incluindo qualidade de vida, que o Estado português não aceita como critério) e um reforço dos mecanismos que permitam conciliar sustentabilidade financeira com acesso atempado à inovação.
Estas medidas beneficiariam simultaneamente os doentes, o sistema de saúde e a capacidade de Portugal atrair investimento em investigação clínica. Em suma, estamos alinhados com as posições da Apifarma.
A inteligência artificial pode contribuir para reduzir custos e acelerar a chegada de novas terapêuticas ao mercado?
Sem dúvida. A utilização de IA poderá reduzir tempos de desenvolvimento, melhorar a selecção de candidatos para ensaios clínicos, optimizar a análise de grandes volumes de dados e identificar mais rapidamente evidência relevante para a tomada de decisão.
Contudo, é importante sublinhar que a IA não elimina a necessidade de validação científica rigorosa, dos ensaios clínicos ou da supervisão regulatória.
Este artigo faz parte do Caderno Especial “Saúde” da edição de Agosto (n.º 361) da Marketeer.












