“Queremos ser reconhecidos como uma marca portuguesa capaz de dialogar com os segmentos internacionais de luxo, arte e design contemporâneo”, Carlos Mello, diretor criativo da MainGUILTY

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Sandra M. Pinto
12/06/2026
10:03
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Sandra M. Pinto
12/06/2026
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Há encontros que mudam o rumo de uma marca, não por acaso, mas porque condensam visão, timing e ambição num mesmo momento. A presença da MainGUILTY no universo da Fórmula 1®, em Silverstone, é um desses casos: um passo que coloca o design português num palco global onde a exigência e a excelência são regra.

Por Sandra M. Pinto

Nesta entrevista, Carlos Mello, fundador e diretor criativo da MainGUILTY, partilha a história por detrás desta conquista inédita, o significado de representar Portugal num contexto desta dimensão e a forma como esta experiência se cruza com a evolução da marca. Entre arte, design e performance, revela-se um percurso feito de identidade, ousadia e afirmação internacional.

O que representa para a MainGUILTY ser a primeira marca portuguesa a integrar um evento oficial de Fórmula 1® no circuito de Silverstone Circuit?
A primeira marca portuguesa a integrar um evento oficial de Fórmula 1”… ainda paramos para perceber se é mesmo real. E é mesmo! Sentimos muito orgulho, mas também uma enorme responsabilidade. Porque quando chegamos a contextos desta dimensão, queremos mostrar que em Portugal também se criam marcas, ideias e projetos à altura dos melhores do mundo.
Desde o início que sempre tivemos a ambição de internacionalizar a MainGUILTY e colocá-la nos maiores palcos do mundo. Mas, ao mesmo tempo, existe sempre aquele pensamento muito nosso de “será que estamos mesmo preparados para isto?”. Acho que isso faz parte da nossa forma de estar também. Por isso, estar hoje ligados aos universos de Silverstone e Fórmula 1 tem um significado muito grande para nós. Não só pela marca, mas pelo que representa para Portugal e para aquilo que sabemos fazer tão bem enquanto país.
Existe algo muito especial em perceber que peças criadas no nosso atelier, em Paços de Ferreira, na Capital do Móvel, uma terra com uma ligação tão forte ao mobiliário e ao saber-fazer português, vão estar presentes num dos palcos mais icónicos de automobilismo do mundo. No fundo, essa sempre foi a nossa visão: a fusão da escultura e do mobiliário e levá-la além-fronteiras, sem perder identidade.
E queremos que isto seja apenas o começo. Para nós, mas também para todas as que outras marcas portuguesas que ousam e que sintam que podem sonhar mais alto e conquistar o seu espaço lá fora.

De que forma surgiu o convite para marcar presença no espaço de experiência premium “The Vale”?
Na vida, tudo tem um motivo. E neste caso, tudo começou de uma forma muito natural. A MainGUILTY faz parte do Anavi Group, e no ano passado o grupo apoiou André Vieira, um jovem piloto de LMP4 de Braga durante a temporada, que envolvia, claro, presença em competições internacionais. Na altura era apenas isso, apoiar o talento nacional e acreditar no percurso dele. Mas também foi aqui que tudo começou, em Silverstone. Em menos de um ano tivemos a oportunidade de conhecer a curadora responsável pelo espaço de arte do Escapade Hotel, mesmo dentro do circuito, e, numa conversa completamente espontânea, falámos sobre visão, marcas, criatividade e cultura. Houve uma ligação imediata. Daquelas conversas que parecem acontecer no momento certo, sem grande explicação. Pouco tempo depois surgiu o convite para fazermos parte do “The Vale”, um espaço completamente novo dentro do circuito de Silverstone, pensado para elevar toda a experiência do VIP Lounge durante o fim de semana de Fórmula 1. Um espaço irreverente que junta gastronomia de chefs Michelin, o melhor da hospitalidade, arte e cultura. Tudo no coração do paddock e do pódio.
No fundo, esta nossa entrada reabram-nos uma coisa muito importante: no final do dia, são sempre pessoas que se conectam com pessoas. Muitas vezes pensamos demasiado antes de dar um passo, quando às vezes basta uma conversa, uma ideia partilhada ou alguém acreditar na mesma visão que nós. O “não” já está garantido. Por isso, até lá… porque não?

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Como é que o universo da Fórmula 1 influenciou o processo criativo da coleção apresentada em Silverstone?
A coleção que vamos apresentar em Silverstone nasceu de uma forma muito natural entre nós, a curadora do espaço e um estúdio de interiores de Londres. Foram sendo escolhidas peças da MainGUILTY que faziam sentido dentro da energia do “The Vale” e de tudo aquilo que se vive num fim de semana de Fórmula 1. Silverstone tem uma energia muito própria… sente-se velocidade, detalhe, pressão, adrenalina. E isso influenciou inevitavelmente algumas decisões criativas. Afinal, este é um dos percursos mais emblemáticos e históricos desta competição.

Que desafios implica traduzir conceitos como velocidade e performance automóvel para peças de design de mobiliário?
É engraçado porque nós até somos ligeiramente céticos quando usam o termo “mobiliário” para falar da MainGUILTY. Sentimos mesmo que as nossas peças vão além. São peças com identidade, com conceito, com história. Gostamos de criar coisas que mexem com as pessoas e às quais ninguém fica indiferente. A ligação a Silverstone e à Fórmula 1 aparece muito aí. Não apenas na velocidade ou na estética, mas nessa vontade constante de desafiar os limites.
Na Fórmula 1 tudo é levado ao extremo, desde a performance, a precisão, a aerodinâmica e o detalhe. E isso acaba por inspirar muito a forma como olhamos para o processo criativo. Mas, acima de tudo, há um princípio que nos liga profundamente a esse universo: o trabalho de equipa. Na Fórmula 1 nada acontece sozinho. Todos estão a trabalhar para o mesmo objetivo. E connosco acontece exatamente o mesmo. Há muita gente envolvida no processo de criar uma peça MainGUILTY, desde a ideia inicial até à produção final, e cada pessoa acaba por trazer o seu saber, a sua técnica e a sua sensibilidade. No fundo, acho que tanto na Fórmula 1 como na MainGUILTY existe essa obsessão pelo detalhe e essa vontade de criar algo com impacto.

O que distingue esta coleção de 20 peças face ao trabalho habitual da MainGUILTY?
A maioria das peças selecionadas para o espaço “The Vale”, em Silverstone, já faziam parte das coleções da MainGUILTY, tais como a peça Anthea. Mas acabámos por reinterpretar algumas delas e fazer adaptações muito específicas ao ambiente, à energia do espaço e à experiência que queríamos criar em Silverstone. Ou seja, esta seleção viveu exatamente do equilíbrio entre aquilo que já faz parte da identidade da MainGUILTY e aquilo que o contexto de Silverstone e Fórmula 1 nos desafiou a explorar.
Ao mesmo tempo, também fez muito sentido envolver outras marcas e parceiros portugueses neste processo. Um bom exemplo disso é a colaboração com a Aldeco, entre outros parceiros que ajudaram a dar ainda mais força e dimensão ao projeto.
E acho que isso tornou tudo ainda mais especial. Porque isto nunca foi apenas sobre a MainGUILTY. Foi sobre juntar diferentes pessoas, marcas, saberes e capacidades para construir algo maior em conjunto.

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De que forma esta presença internacional contribui para o posicionamento da marca no segmento do design de luxo e arte funcional?
Sem dúvida que esta presença acaba por robustecer posicionamento da MainGUILTY e, ao mesmo tempo, mostramos que uma marca portuguesa pode ocupar espaço nos segmentos mais altos do design e da arte funcional sem perder identidade nem autenticidade. Desde o início que queremos colocar a marca nos maiores palcos e estar presentes em contextos onde existe exigência, visão e espaço para conceitos diferenciadores. Hoje já estamos presentes com showroom no Dubai e na Arábia Saudita, que são mercados extremamente ligados ao universo do luxo e onde a marca tem vindo a crescer de forma muito natural. Mas, a nossa visão de luxo vai muito além do preço e da estética. Para nós, luxo é conseguir criar peças que tenham impacto nas pessoas. Peças que façam parar, pensar e sentir alguma coisa. Existe muito um lado artístico e até filosófico na forma como vemos o design.

Como equacionam o equilíbrio entre a produção artesanal em Portugal e a exigência de um palco global como a Fórmula 1?
Na minha opinião, hoje em dia é exatamente isso que os grandes mercados procuram: exclusividade, autenticidade e peças com alma. Vivemos numa altura em que tudo é rápido, massificado e igual. E nós estamos em contraciclo. Valorizamos o tempo, o processo manual, o saber-fazer artesanal e todas aquelas técnicas que infelizmente se vão perdendo ao longo dos anos. E sentimos mesmo que temos uma responsabilidade nisso. Não só em criar peças, mas também em ajudar a preservar esse conhecimento e dar palco aos artesãos e às técnicas portuguesas.
Por isso, curiosamente, nunca vimos o artesanal como uma limitação para estar em grandes palcos internacionais. Pelo contrário. Achamos que é precisamente isso que nos diferencia. Levar uma peça feita em atelier, criada por mãos humanas, com imperfeições naturais e detalhes únicos, para um contexto como a Fórmula 1 acaba por criar um contraste muito interessante. Porque no meio de tanta tecnologia, velocidade e perfeição, existe também espaço para aquilo que é humano e genuíno.
E nós assumimos muito isso na MainGUILTY. A imperfeição faz parte do processo. Faz parte da identidade da marca. Porque no final do dia, somos pessoas a criar obras para pessoas.

Qual é a importância de integrar tecnologia e certificação, como o Human Origin Certificate™, no valor percebido das peças?
Apesar de todo o lado artesanal e humano da MainGUILTY, nós também acreditamos que a tecnologia faz parte do presente e do futuro, quer queiramos quer não. Então a questão para nós foi: porque não usar a tecnologia para valorizar ainda mais aquilo que é feito à mão? E foi exatamente daí que nasceu o Human Origin Certificate™, um projeto que estamos a desenvolver em conjunto com a academia e com a prática jurídica.
É quase como se fosse uma antítese. Usar a precisão e a capacidade da tecnologia para autenticar aquilo que tem de mais humano: a imperfeição, o gesto manual, o trabalho artesanal.
No fundo, não queremos que a tecnologia substitua o humano. Queremos precisamente o contrário: que ajude a proteger, validar e valorizar aquilo que só o humano consegue criar. E acho que isso diz muito sobre a nossa visão da marca. Conseguir juntar dois mundos que normalmente parecem opostos, a tecnologia e o artesanato e fazê-los coexistir de uma forma natural.

Que impacto esperam que esta ativação em Silverstone tenha na expansão internacional da marca?
Acima de tudo, acreditamos que a presença da MainGUILTY em Silverstone reforça aquilo que temos vindo a construir desde o início da marca e possibilita-nos também chegar a novos mercados e mostrar que uma marca portuguesa pode estar nos maiores palcos mundiais sem perder a sua identidade. E é curioso pensar que a MainGUILTY nasceu num período tão incerto e caótico como a pandemia e que, passados quase cinco anos, estamos agora a apresentar o nosso trabalho numa plataforma tão internacional e reconhecida como esta. Às vezes até nós próprios temos dificuldade em perceber a velocidade com que tudo aconteceu.

A presença da MainGUILTY no universo da Fórmula 1 pode ser vista como um ponto de viragem na afirmação do design português além-fronteiras?
Acredito que sim. Portugal sempre foi muito reconhecido pela capacidade de produzir com qualidade, inclusivamente para grandes marcas, mas, e até há muito pouco tempo, sem a nossa própria etiqueta. O que se traduz num rótulo que não revela todo o nosso potencial e conhecimento, ficando as marcas associadas apenas ao “saber produzir”.
Mas, nos últimos anos isso começou a mudar. As marcas portuguesas começaram a apostar no design, na identidade e na criação de valor através da criatividade. E é aqui que temos de continuar a apostar enquanto indústria e país: deixar de ser apenas um bom produtor e passar também a afirmar-nos como um país capaz de criar marcas fortes, criativas, diferenciadoras e com visão global. 
A presença da MainGUILTY num contexto como a Fórmula 1, e em Silverstone, acaba por representar esse passo em frente. Mostrar que o design português consegue ter visibilidade e alcance em nome próprio. Temos profissionais incríveis na área criativa, designers, artesãos, artistas e empresas com uma capacidade enorme. Falta muitas vezes acreditar mais no valor que conseguimos gerar. Porque no final do dia, investir em design não é só uma questão estética. É uma forma de criar valor, diferenciação e novas oportunidades para as empresas e para o país. E sinceramente, acho que Portugal ainda está muito no início daquilo que pode conquistar nessa área.

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Que papel desempenha esta ativação na estratégia global de marketing e posicionamento da MainGUILTY enquanto marca de design de luxo?
A ligação ao universo do motorsport faz parte da visão da MainGUILTY a longo prazo. Tal como referido, foi através dessa aposta que surgiu esta oportunidade para, em julho, estaremos em Silverstone. E este é o início de um caminho que queremos continuar a construi pois acreditamos que existe uma ligação muito natural entre o universo da MainGUILTY e o ambiente destas grandes competições. A MainGUILTY é uma marca de nicho, direcionada para um público que procura exclusividade, identidade e peças com significado. E a Fórmula 1 reúne exatamente esse tipo de universo: detalhe, performance, excelência, experiência e exclusividade.
Numa visão macro, queremos que a MainGUILTY seja reconhecida como uma marca portuguesa capaz de dialogar com os segmentos internacionais de luxo, arte e design contemporâneo.

De que forma uma presença num evento global como a Fórmula 1® contribui para reforçar a notoriedade e o valor da marca junto de novos mercados e públicos?
Tem sido uma verdadeira surpresa o impacto e o feedback positivo que temos recebido desde que anunciámos a presença da MainGUILTY em Silverstone. Sentimos principalmente um reforço ao nível da notoriedade e da afirmação da marca junto dos nossos parceiros e diferentes stakeholders que seja nos mercados onde estamos a consolidar a presença, como Médio Oriente, mas também nos Estados Unidos e em alguns mercados europeus onde a marca começa agora a crescer de forma mais consistente.
Sendo a MainGUILTY uma marca ainda relativamente jovem, existe sempre aquele período em que os mercados internacionais observam, analisam e tentam perceber a consistência do projeto. E estarmos associados a um projeto tão global e exigente acaba por robustecer a nossa marca.

Até que ponto esta parceria em Silverstone funciona também como uma ferramenta de storytelling e construção de marca a longo prazo?
Mais do que uma ferramenta de storytelling, esta presença conta a nossa história e a força de vontade da MainGUILTY. O storytelling não se inventa. Constrói-se com momentos, conquistas, experiências, pessoas e até falhas pelo caminho. E a nossa presença em Silverstone passa exatamente essa mensagem. A ideia de evolução constante. De uma marca portuguesa que começou em plena pandemia e que já está a escrever a sua própria história em palcos internacionais. No fundo, tudo faz parte da construção da marca. As vitórias, os desafios, as pessoas que aparecem pelo caminho e os momentos que acabam por marcar a nossa história.
E, claro, estamos a falar de um circuito histórico dentro da Fórmula 1, um palco icónico onde passaram e continuam a passar alguns dos maiores nomes do desporto, como Hamilton, Russell e tantos outros. Existe toda uma cultura, uma energia e uma herança muito própria naquele lugar, e para nós fazer parte disso acaba por ter também um valor emocional e simbólico muito forte, robustecendo o nosso percurso e a nossa história.




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