“Queremos que a marca seja comunicada com referências concretas à história, às pessoas e aos lugares”, Jorge Barroso, diretor da Casa do Barroso

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Sandra M. Pinto
17/06/2026
10:19
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Sandra M. Pinto
17/06/2026
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Num setor onde a diferenciação passa cada vez mais pela autenticidade e pela ligação ao território, a Casa do Barroso tem vindo a afirmar-se como um projeto que vai além do vinho. Com raízes familiares profundas e uma aposta clara na valorização da sub-região de Basto, a marca constrói uma identidade própria dentro do universo dos Vinhos Verdes, cruzando tradição, inovação e uma forte componente de storytelling.

Por Sandra M. Pinto

À frente deste projeto está Jorge Barroso, diretor da Casa do Barroso, que, uma década após a primeira vindima, reflete sobre o percurso da marca, os desafios de afirmar um território menos explorado e a ambição de consolidar a Casa do Barroso como uma referência de qualidade e autenticidade, tanto no mercado nacional como internacional.

Dez anos depois da primeira vindima, a Casa do Barroso é hoje mais uma marca de vinho ou um projeto de território?
É, acima de tudo, um projeto de território. O objetivo inicial passou pela recuperação da Casa do Barroso, propriedade histórica datada de 1730,

procurando preservar e respeitar a herança familiar no lugar de Cunhas, na antiga freguesia de Vilar das Cunhas. Atualmente, uma das seis unidades da casa encontra-se em funcionamento como turismo rural. Paralelamente a esse esforço, foi também realizada a recuperação das vinhas em diferentes territórios do concelho de Cabeceiras de Basto. Com a nossa presença em vários pontos do concelho, afirmamo-nos sobretudo como um projeto de identificação, valorização e disseminação do melhor que este território tem para oferecer.

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De que forma é que um projeto familiar consegue afirmar-se num mercado cada vez mais competitivo?
Passa, sobretudo, por uma grande dose de trabalho, entrega, resiliência, paixão e, acima de tudo, verdade. Grande parte do trabalho é realizada pela própria família Barroso, seja durante as vindimas, na gestão da Casa do Barroso ou na participação em eventos. Esse envolvimento direto confere autenticidade ao projeto e permite transmitir uma herança familiar carregada de emoção e significado. Não se trata apenas de um produto comercial produzido em massa e sem rostos associados. É uma marca profundamente familiar, com uma identidade forte e genuína. Essa autenticidade permite-nos captar o interesse do mercado, não só pela qualidade dos vinhos que produzimos, mas também pela história e pelos valores que lhes estão associados.

O que diferencia hoje a Casa do Barroso no universo dos Vinhos Verdes?
A Casa do Barroso procurou, desde cedo, afirmar-se através de uma aposta clara na qualidade, desenvolvendo um projeto assente na honestidade e na capacidade de transmitir fielmente as características do território onde está inserido. Uma das opções estratégicas mais marcantes foi a aposta na casta Alvarinho, uma variedade nobre tradicionalmente associada à sub-região de Monção e Melgaço. Ao longo dos últimos dez anos, decidimos demonstrar o potencial desta casta na sub-região de Basto, situada no extremo oriental da Região dos Vinhos Verdes, um território onde o Alvarinho não era habitualmente protagonista.
Essa visão permitiu-nos explorar novas expressões da casta e afirmar uma identidade própria, assumindo um posicionamento diferenciador no panorama dos Vinhos Verdes. Hoje, a Casa do Barroso destaca-se precisamente pela conjugação entre a valorização de uma casta de excelência e a expressão autêntica de um território singular.

A Sub-região de Basto ainda é pouco explorada. Isso representa uma desvantagem ou uma oportunidade de posicionamento?
Na realidade, representa ambas as vertentes. Por um lado, existe uma desvantagem associada à distância dos principais centros de decisão e de influência. Desenvolver um conceito novo e diferenciador num território mais periférico implica um esforço acrescido para o dar a conhecer e para o afirmar a nível nacional. A disseminação da marca e da sua proposta de valor exige, por isso, um trabalho contínuo de proximidade com o mercado e de promoção do território. Por outro lado, essa realidade encerra também uma grande oportunidade. O facto de a sub-região de Basto ainda não estar tão valorizada permite-nos assumir um posicionamento distintivo e contribuir ativamente para a sua afirmação. A par de outros produtores, procuramos ser embaixadores deste território, ajudando a demonstrar o seu potencial e a reforçar o reconhecimento da sub-região de Basto como produtora de vinhos de excelência no contexto da Região dos Vinhos Verdes.
Esta oportunidade de valorização territorial acaba por ser um dos elementos mais diferenciadores e motivadores do nosso projeto.

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Como é que a marca constrói a identidade do Alvarinho de Basto no mercado?
Tem sido um processo contínuo, iniciado em 2016, e que implicou superar diversos desafios. Em primeiro lugar, persistem algumas ideias preconcebidas em torno dos Vinhos Verdes, muitas vezes associados a vinhos mais leves, com gás e de posicionamento mais acessível. Procurar afirmar uma proposta diferenciadora dentro da própria Região dos Vinhos Verdes exigiu, por isso, um trabalho consistente de comunicação e valorização da qualidade.
O desafio foi ainda maior por termos apostado na casta Alvarinho, uma das mais nobres de Portugal, num território que não é tradicionalmente identificado com a sua produção, pelo que, nos primeiros anos, houve algum ceticismo relativamente ao potencial desta casta na sub-região de Basto.
Perante esse contexto, a nossa estratégia passou por uma afirmação gradual e sustentada, assente na qualidade dos vinhos produzidos e na demonstração das características únicas que o território de Basto pode conferir ao Alvarinho. Foi um trabalho de persistência, vindima após vindima, sempre focado na excelência.
Hoje, passados dez anos, sentimos que esse esforço tem dado frutos. Cada vez mais consumidores, profissionais do setor e apreciadores de vinho reconhecem que é possível produzir Alvarinhos de grande qualidade na sub-região de Basto, contribuindo para a afirmação de uma identidade própria e diferenciadora dentro da Região dos Vinhos Verdes.

Até que ponto o território pode ser um ativo estratégico na construção de uma marca de vinho?
O território é um ativo estratégico fundamental, porque o vinho é, antes de mais, um produto, mas que precisa de ter sempre uma identidade muito forte associada ao lugar e às pessoas que o produziram. No nosso caso, a associação ao território de Cabeceiras de Basto e à Sub-região de Basto é essencial para construir uma narrativa coerente e diferenciadora, algo que é também visível nos nossos rótulos e na nossa identidade de marca. Existe um vínculo indissociável ao território que viu nascer este projeto e que ajuda a contar a sua própria história, reforçando não apenas a autenticidade do vinho, mas também o significado do projeto que lhe dá origem.

O lançamento do primeiro espumante representa um novo ciclo na estratégia da Casa do Barroso?
Não é um novo ciclo. Representa acima de tudo o desenvolvimento do projeto e uma nova etapa na sua afirmação.

Este espumante é uma diversificação de portefólio ou uma afirmação de posicionamento?
O espumante é, acima de tudo, uma diversificação de portfólio, que significa também o retorno, entre aspas, à casta Alvarinho. De facto, tínhamos apostado exclusivamente na casta Alvarinho até ao lançamento do vinho rosé, que foi produzido com a casta Padeiro, uma variedade tinta histórica da região. Essa foi a única exceção no nosso portefólio em que não utilizámos Alvarinho. Assim, depois do rosé, o lançamento do espumante representa um novo momento de exploração da casta Alvarinho, reforçando essa base identitária, mas agora através de uma nova expressão do vinho.

Como equilibram tradição e inovação na evolução da marca?
Temos de manter, sobretudo, muita paixão e respeito pela herança que nos foi deixada. Isso foi visível, desde logo, no trabalho de reabilitação da Casa do Barroso, no lugar de Cunhas, onde procurámos respeitar a traça original do edifício, conciliando-a com a modernidade, o conforto e as exigências atuais. A marca evolui no mesmo sentido: respeitando sempre aquilo que é tradicional e que nos trouxe até aqui, sem esquecer de onde viemos, mas sem ficar agarrada ao passado. É necessário evoluir continuamente, procurando as melhores soluções para os nossos produtos e para a nossa marca.

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Qual foi o impacto da parceria com o enólogo Márcio Lopes na construção da identidade da Casa do Barroso?
A parceria com o Márcio Lopes foi decisiva para a afirmação da identidade da Casa do Barroso enquanto produtor de vinhos. Ele teve um papel fundamental na definição de todo o portefólio da casa e no seu desenvolvimento ao longo destes anos. Trata-se de uma colaboração que tem sido essencial para que a Casa do Barroso tenha atingido o patamar em que se encontra hoje, após 10 anos de projeto.

O reconhecimento da crítica internacional altera a forma como posicionam a marca no mercado?
O reconhecimento da crítica é relativamente recente, surgiu apenas em abril, pelo que, por agora, ainda não sentimos um grande impacto dessa distinção. No entanto, sabemos que esse reconhecimento terá sempre algum efeito e teremos de esperar para perceber em que sentido poderá influenciar ou até ditar eventuais ajustes na forma como posicionamos a marca.

Como se gere o crescimento da notoriedade sem perder autenticidade?
O mais importante é a procura de equilíbrio: não perder a noção do caminho que nos trouxe até aqui nem da forma como temos vindo a trabalhar. É esse percurso que deve ser preservado para garantir consistência no crescimento, assegurando que não se dão passos em falso nem se compromete a autenticidade do projeto

Qual é hoje o principal objetivo da Casa do Barroso: crescer em escala, valor ou consolidação?
Diria que existe uma hierarquia clara entre esses três objetivos. O foco principal é a consolidação da Casa do Barroso. Esse é o objetivo primordial neste momento do projeto. Depois, procuramos crescer em valor, reforçando a nossa proposta e a perceção de qualidade associada à marca. Por fim, surge o crescimento em escala, que será sempre condicionado pela natureza do projeto. Trabalhando com castas como o Alvarinho, em que a produção não pode ser massificada, teremos inevitavelmente de continuar a privilegiar a qualidade em detrimento da quantidade.

Que papel têm o storytelling e a comunicação na estratégia da marca?
Tem um papel importantíssimo. Procuramos sempre que marca seja comunicada com referências concretas à história, às pessoas e aos lugares. A ideia é reforçar que somos parte integrante do território e que é esse território que é transposto para a garrafa e para o produto: o vinho. Nesse contexto, importa também destacar o papel do Afonso Barroso, meu filho e representante da terceira geração envolvida neste projeto. Licenciado em Marketing, tem sido muito importante nos últimos tempos na definição da nossa comunicação digital, contribuindo para reforçar e aprofundar a capacidade de storytelling da marca.

Como imagina a Casa do Barroso enquanto marca nos próximos 10 anos?
O grande objetivo é crescer no mercado de exportação. Esse será o foco nos próximos 10 anos, reforçando simultaneamente um papel de referência na sub-região de Basto e contribuindo para afirmar cada vez mais este território como capaz de produzir vinhos de enorme qualidade. Esse é o principal desafio: ajudar a valorizar a sub-região de Basto no contexto da Região dos Vinhos Verdes e contribuir para a sua afirmação enquanto origem de vinhos de excelência. Ao mesmo tempo, há também a ambição de ajudar a mudar a perceção que ainda existe dentro da própria Região dos Vinhos Verdes, muitas vezes marcada por uma leitura menos valorizada ou por uma visão menos justa em relação à qualidade dos seus vinhos quando comparados com outras regiões do país. Atualmente, em muitos casos, são outras regiões do país que valorizam mais os Vinhos Verdes do que os próprios habitantes da região, e gostaríamos de continuar a contribuir ativamente para inverter essa perceção.






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