Que identidade entra pelos ecrãs das nossas crianças? As crianças precisam de conteúdos onde se reconheçam.

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16/05/2026
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Opinião de Ricardo Galrito, diretor criativo e criador de conteúdos e projetos para crianças e família

As crianças sempre procuraram histórias. Procuram sempre. Procuram personagens que as façam sentir, músicas que possam cantar e dançar, mundos onde possam entrar e emoções que consigam viver, mesmo antes de as saberem explicar.

O tempo passa, as gerações mudam, mas isto não muda.

Já era assim quando nós éramos crianças. Queríamos brincar, imaginar, pertencer, imitar, perguntar, descobrir. Queríamos encontrar qualquer coisa que falasse connosco. Que nos pertencesse e à qual nós também pertencêssemos.

O que mudou foi o lugar onde grande parte dessas descobertas acontece.

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Hoje, uma parte importante da infância passa pelos ecrãs. Pelos vídeos curtos, pelas plataformas, pelos jogos, pelas recomendações automáticas dos algoritmos e por conteúdos que aparecem uns a seguir aos outros, muitas vezes sem escolha consciente da criança ou dos adultos à sua volta.
E por isso talvez a pergunta já não seja apenas quanto tempo passam as crianças à frente de um ecrã.

A pergunta agora é outra: que mundo é que entra por esse ecrã?
Como pai, isto inquieta-me. Como pedagogo, faz-me pensar. Como profissional que cria conteúdos e projetos para crianças, obriga-me a olhar para este tema com especial atenção.
A escola ensina, a casa educa e os ecrãs aculturam.
Não no sentido de substituírem tudo o resto, mas porque também transportam palavras, sotaques, humor, referências, valores, gestos e formas de olhar para o mundo. Uma criança aprende muito através daquele retângulo mágico e luminoso, bem antes de perceber que está a aprender.
Aprende expressões e vocábulos. Aprende ritmos. Define o que é divertido e o que é chato. Aprende o que merece atenção. Aprende formas de brincar, de responder, de desejar, de imaginar e até de se projetar no mundo que a rodeia.

E é por isso que os conteúdos infantis não devem ser tratados como uma área menor.
É tentadora a sensação de que basta que sejam coloridos, simpáticos e suficientemente animados para prender uma criança durante alguns minutos. Mas criar para crianças é mais exigente do que isso. Exige criatividade, claro. Mas também exige escuta, preocupação pedagógica e social, responsabilidade e respeito pelo desenvolvimento das crianças.

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Uma criança não é um consumidor pequeno. É uma pessoa em construção.
E é aqui que Portugal precisa de pensar melhor o seu lugar.

As crianças portuguesas consomem muitos conteúdos estrangeiros. Muitos vêm de fora, particularmente do Brasil, ou chegam através de plataformas globais com uma capacidade de produção e distribuição que Portugal dificilmente consegue acompanhar em escala.

Não há mal nenhum nisso. Há conteúdos internacionais muito bons. As crianças devem conhecer outras vozes, outras culturas e outras formas de ver o mundo. Isso também as enriquece.

O problema não está em verem conteúdos de fora.

O problema está em encontrarem tão poucos conteúdos portugueses consistentes e reconhecíveis onde se possam rever e reconhecer uma identidade cultural que também lhes pertence.
Conteúdos que falem como elas, ou como os seus pais, os seus avós, os seus professores e os seus colegas. Conteúdos que tragam as nossas escolas, os nossos bairros, os nossos lugares, a nossa música, o nosso humor e a nossa forma de viver.
Não por uma ideia fechada de identidade. Nada disso. Não faria sentido num país e num mundo cada vez mais multicultural. Mas porque uma criança também precisa de se reconhecer.
Precisa de sentir que o seu lugar existe no mundo e que também existe nas histórias que vê. Que a sua forma de falar também pode ter lugar. Que os seus lugares também podem ser cenário. Que as suas referências também podem entrar numa canção, numa personagem, num livro, numa série, num
espetáculo ou numa brincadeira.

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É que, quando não se reconhece, alguma coisa se perde.
Não se perde de um dia para o outro, nem de forma dramática. Mas vai-se perdendo presença, continuidade e memória comum. Vai-se perdendo a possibilidade de uma geração crescer com personagens, músicas, histórias e tradições que também sejam suas.
Portugal tem talento. Tem artistas, escritores, músicos, educadores, professores, produtores, instituições e marcas capazes de trabalhar este território. Mas falta, muitas vezes, continuidade. Que bom que era ligar melhor quem cria, quem educa, quem comunica, quem financia, quem distribui e quem chega às crianças.  Um bom conteúdo infantil não precisa de parecer uma aula. Aliás, quase nunca resulta quando parece. A criança não entra numa história porque alguém lhe quer ensinar uma coisa. Entra porque aquela história a chama. Porque aquela personagem lhe diz qualquer coisa. Porque aquela música fica.

E, assim, a mensagem chega naturalmente. Chega melhor porque não aparece de dedo levantado.
As crianças não precisam apenas de mais vídeos, bonecos ou músicas. Precisam de conteúdos com presença. De narrativas que não desapareçam no scroll. De referências e universos que deem vontade de repetir, cantar, levar para casa, partilhar na escola e guardar na memória.
Porque os conteúdos que damos às crianças não ficam apenas no tempo em que elas os veem. Ficam.
Ficam na linguagem, na brincadeira, na memória, nos comportamentos, na forma como se imaginam e começam a perceber o mundo.

Uma criança que cresce sem se reconhecer naquilo que consome não encontra ali o lugar onde começa a descobrir quem é.




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