A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta de apoio para se tornar um verdadeiro intermediário de confiança nas decisões de consumo em Portugal. Um novo estudo revela que quase metade dos consumidores portugueses já utiliza IA generativa no dia a dia, alterando de forma estrutural a forma como pesquisam, comparam e escolhem marcas, produtos e serviços.
De acordo com o relatório “O Consumidor Impulsionado pela IA: Manual de sobrevivência para marcas”, desenvolvido pela LLYC em parceria com a Appinio e que se baseia em 700 entrevistas, 45% dos consumidores em Portugal recorrem habitualmente a ferramentas de IA generativa. O ChatGPT assume uma posição dominante neste novo ecossistema, sendo usado regularmente por 45,1% dos inquiridos e dominando o top of mind com 60,7% das menções espontâneas.
A mudança é particularmente visível entre os mais jovens, tendo em conta que quase dois terços (65,9%) dos portugueses entre os 18 e os 24 anos já utilizam a IA nas suas rotinas. Para esta geração, conversar com um assistente de IA é tão natural quanto pesquisar no Google — ou, em muitos casos, mais natural ainda.
Outro dos dados mais reveladores do estudo mostra que 23,6% dos consumidores portugueses iniciam hoje a sua jornada de pesquisa diretamente em assistentes de IA, ultrapassando de forma destacada canais tradicionais como fóruns online (15%) ou recomendações de influenciadores digitais (9,6%).
Este fenómeno representa uma rutura com o modelo clássico do marketing digital pois, se durante anos as marcas competiram por cliques e tráfego, agora enfrentam o desafio de serem citadas e recomendadas por sistemas algorítmicos que respondem diretamente ao utilizador, sem os redirecionar para sites de origem.
Este fenómeno, conhecido como “efeito crocodilo”, traduz-se em mais impressões e menos cliques: as respostas são dadas dentro das interfaces conversacionais, tornando o SEO tradicional insuficiente. O novo desafio para as marcas já não é apenas aparecer nos resultados, mas ser a fonte que a IA escolhe citar.
“A IA tornou-se o novo front-office das marcas. Não informa apenas: filtra, sintetiza e, em muitos casos, decide. Se uma marca não está bem representada nos modelos de linguagem, simplesmente deixa de existir no momento em que o consumidor delega a decisão”, aponta Cristina Girão, diretora de área de marketing solutions da LLYC, citada em comunicado.
Perante este novo cenário, o estudo defende a necessidade de uma mudança estratégica por parte das marcas, sendo que já não basta otimizar conteúdos para motores de busca tradicionais, sendo também essencial garantir que os modelos de linguagem compreendem, reconhecem e recomendam as marcas de forma correta e consistente.
Surge assim o conceito de LLMO — Large Language Model Optimization — que mais do que otimizar para motores de busca, trata-se de treinar a forma como os modelos de linguagem entendem, descrevem e recomendam as marcas. “Conteúdo estruturado, reputação digital, presença em fontes fiáveis e coerência semântica tornam-se fatores críticos para garantir elegibilidade algorítmica — isto é, ser considerado uma opção válida quando a IA recomenda produtos, serviços ou marcas”, refere-se em nota de imprensa.
Outro dos dados mais disruptivos passa também pela queda da confiança nos influenciadores, com este grupo a apresentar em Portugal um índice de confiança negativo de -67,4%, enquanto a credibilidade se desloca para especialistas, validação técnica e sistemas algorítmicos.

A IA, rápida, contextual e percebida como imparcial, surge assim como um novo “atalho de confiança”, embora o consumidor português mantenha uma postura crítica, com 60,2% dos utilizadores habituais do ChatGPT a afirmarem confirmar a informação com outras fontes, posicionando a IA como um agente de validação cada vez mais relevante, mas ainda complementar.
Ao contrário de outros mercados, onde a adoção da IA está fortemente associada a tarefas técnicas (como programação), em Portugal o principal uso da tecnologia ocorre na área da saúde e bem-estar, com 38,7% dos consumidores a utilizarem IA neste contexto, com mais de um terço (32,1%) dos consumidores a recorrer quotidianamente à IA para esclarecer dúvidas de saúde, interpretar sintomas ou procurar informação médica.
Educação e formação (36,1%), tecnologia e eletrónica (34%), cultura e entretenimento (32,9%), alimentação e grande consumo (31,7%) e viagens e turismo (29,9%) surgem também entre os setores com maior utilização da IA pelos portugueses, denotando um padrão que “revela um consumidor português pragmático, que recorre à IA sobretudo para ganhar eficiência, esclarecer dúvidas e tomar decisões mais informadas, em vez de a utilizar apenas para entretenimento ou experimentação”.












