Por Guirá Kakoo, head of Experience na Maleo Offices
Durante anos, habituámo-nos a uma ideia muito específica de “ir trabalhar”: atravessar uma porta de vidro, sentar numa cadeira cinzenta sob luzes fluorescentes e cumprir horas numa lógica quase fabril. Funcionou durante muito tempo, é verdade. Mas, algures pelo caminho, o escritório tradicional deixou de servir.
Atualmente, sinto que a falha deste modelo não está nos números, mas na ligação. Quando olhamos para escritórios vazios ou equipas desmotivadas, o que vemos é o reflexo de um divórcio entre o espaço e a vida. Já não aceitamos ser apenas “recursos” num ambiente estéril, queremos ser pessoas num ambiente que nos inspire.
O grande equívoco dos modelos convencionais foi acreditar que, se estivéssemos todos sentados em filas uniformes, seríamos mais eficientes. Mas a criatividade não nasce por decreto, e o bem-estar não floresce em ambientes rígidos.
Quando o escritório passa a ser um lugar que evitamos, um sítio onde sentimos que “perdemos tempo” em comparação com o conforto de casa, então perde a sua razão de ser. O espaço físico deve potenciar o nosso melhor, não ser um obstáculo à nossa energia.
É neste cenário de mudança que surge o conceito de “resimmercial” (a fusão entre residential e commercial). E, para mim, isto é muito mais do que uma tendência de decoração com sofás bonitos e luz quente. O resimmercial é a resposta à nossa necessidade de autenticidade. É trazer para o mundo profissional o conforto, a flexibilidade e o aconchego que encontramos nos nossos refúgios pessoais. Não se trata apenas de estética, trata-se de criar espaços onde queremos estar, e não apenas onde temos de estar.
A ciência explica, mas a nossa intuição já o sabia. O nosso desempenho está ligado à forma como nos sentimos. Quando trocamos o ambiente clínico por um espaço mais humano e acolhedor, algo muda na dinâmica da equipa. A colaboração torna-se natural, é mais fácil partilhar ideias num ambiente que convida à conversa do que numa sala de reuniões fria; o stress diminui, um ambiente que respira vida (e onde existem plantas, texturas e luz natural) acalma o sistema nervoso; e existe um maior sentido de pertença, sentimo-nos valorizados quando a empresa investe num espaço que cuida do nosso conforto.
Adotar este modelo é, acima de tudo, um ato de confiança. É dizer aos colaboradores que valorizamos a vossa experiência e queremos que este lugar seja um facilitador da vossa criatividade, não uma prisão para o vosso tempo.
As empresas que já perceberam a necessidade desta dinâmica não estão apenas a comprar mobiliário novo. Estão a redesenhar a sua própria identidade. Estão a transformar “metros quadrados” em lugares de encontro, cultura e vida.
Muitas organizações ainda perdem tempo a perguntar “como é que convencemos as equipas a regressar ao escritório?” A meu ver, a pergunta certa é: “Que tipo de ambiente é que faria de nós uma equipa mais feliz e realizada hoje?”
O modelo tradicional esgotou-se. Insistir nele é como tentar usar um mapa antigo para navegar numa cidade nova. O futuro do trabalho é humano, flexível e, acima de tudo, acolhedor. E é esse calor, o espírito do resimmercial, que ditará a diferença entre um simples escritório e um centro vibrante de talento.














