Qual o preço da consistência?

Por João Cardoso, Brand strategist no erb’s creative studio

Eu diria saúde mental. Ou falta dela.

Nos últimos tempos, tenho participado em vários eventos (que diva, eu) e um dos temas em que se tem tocado bastante é o da saúde mental. Dizem que está na moda, mas parece-me que não é só isso. E, portanto, trabalhando eu na área criativa (pelo menos assim creio), é a união desses temas que trago para a mesa imaginária onde estamos hoje sentados, juntos (eu e o leitor, ou a leitora): saúde mental e criatividade.

Se acha que sou um especialista na matéria, desengane-se. Não sou (mas conheço alguns)!

Como não sou especialista e conto com uma quantidade de sanidade mental que caberia num copo de shot, vou-me munir de teorias de outros artistas que percebem mais disto do que eu.

Comecemos com o jogo do “eu nunca” que certamente conhece dos seus tempos de bon vivant.

Eu nunca ouvi alguém dizer:

“Tens de ser consistente!!”

Eu nunca ouvi alguém dizer:

“Tens de publicar 19 vezes por semana para ter sucesso!”

Eu nunca ouvi alguém dizer:

“Preciso desse rótulo / vídeo / campanha / post feito ASAP, já, ontem, agora! Está pronto?”

Quem nunca?

Parece que todos bebemos.

Então, repito: qual é o preço da consistência?

Quanto tem a nossa saúde mental de pagar pela urgência do mundo que criámos?

Deixe-me partilhar algo consigo. A criatividade tem um processo, esse processo tem um ritmo e o ritmo é diferente em cada um de nós. Certamente tem familiaridade com a frase “as melhores ideias surgem no banho”, mas alguma vez se questionou sobre porque é que acontece? Os especialistas dizem que é porque temos a mente livre de tensões e então, teoricamente, acedemos mais facilmente a dados que noutro registo seriam inacessíveis.

É sabido que, na maior parte das vezes, um momento de tensão faz-nos bloquear. Augusto Cury, psiquiatra, professor e autor, chama a este bloqueio, o “circuito fechado”. Segundo o autor, é potenciado por memórias traumáticas, angustiantes e outras coisas, que nos colocam numa posição de tensão. O facto de neste momento sentirmos emoções mais fortes faz com que não consigamos explorar o processo de pensamento com clareza.

Se nos nossos locais de trabalho formos pressionados exageradamente com urgências e afirmações de poder, sentimo-nos encurralados e, portanto, temos de fazer uma escolha (lutar ou fugir). O chato é que essa escolha está muitas vezes predefinida pela hierarquia (aquela coisa que, segundo os antigos, diz que o chefe manda e a gente faz).

Se isto lhe acontecer com alguma recorrência, vai começar a ter menos momentos livres na sua mente e a criar mais memórias traumáticas. Alguma vez deu por si a reviver os problemas do dia antes de dormir? É provável que sim. Nesse momento, também é pouco provável que tenha encontrado uma solução milagrosa para os resolver, porque eventualmente a sua mente estava encurralada no “circuito fechado”.

Se quiser, pode querer passar a vista pelas obras de Donald Norman, um “professor emérito de ciência cognitiva” (esta tirei da Wikipédia). Norman foi um dos primeiros autores a investigar as emoções sob a perspectiva do design. Diz-nos, entre outras coisas, que um bom brainstorming ou um pensamento criativo fora da caixa requerem um estado mental positivo e relaxado.

Como é que isto afecta a criatividade? Se nos sentirmos relaxados e descontraídos, o processo criativo será mais produtivo visto que este estado positivo nos deixa mais curiosos e receptivos a novas ideias. Se acontecer o contrário, o Norman diz que podemos adquirir a visão daqueles senhores que andam de mota muito depressa (ou, visão em túnel, se preferir). Este segundo estado é útil se estiver a fugir de uma alcateia ou de um eventual rebanho de bovinos bastante chateados, mas se estiver a tentar absorver informações novas e criar novos caminhos mentais, é capaz de ser prejudicial.

É normal sentir pressão e ansiedade com os prazos a apertar? É.

Vai acontecer sempre? Até vai.

O grande problema não está no final do processo, está no início. Uma má gestão de prazos e expectativas vai fazer com que os criativos entrem, na fase criativa, com sintomas de hipertensão. Como por esta altura já deve saber, este processo aplicado de forma contínua pode arruinar o projecto. Caso não aconteça, deixe a mente descansada, porque é certo que vai dar cabo da pessoa com a qual está a trabalhar.

Deixe-me dar-lhe dois dados rápidos para acabar. Dave Trott diz-nos, no livro “1 + 1=3”, que quanto mais informações distintas tivermos, mais pontos teremos para ligar e, portanto, o potencial criativo aumenta consideravelmente. Estudos dizem-nos que somos até 31% mais inteligentes se estivermos num estado mental positivo. Não será contraproducente estarmos a inundar os criativos com tamanha pressão? O mundo não vai acabar amanhã (acho eu).

Esta forma de trabalho é o chamado método da laranja, em que a laranja é o criativo. Quando não tem mais sumo, mete-se a casca no caixote do desemprego e pega-se noutra para acabar de encher o copo.

Em ambientes tóxicos, que geram portefólios fracos e pressão de fazer, está-se no caminho certo para desenvolver uma das patologias mais famosas do século. Se tiver real interesse no tema, o psiquiatra José Luís Pio Abreu escreveu um manual completo acerca de “como se tornar um doente mental.”

Ansiedade, depressão e burnout são os temas do século por algum motivo. Não me parece que seja uma simples moda.

Cuide-se! O nosso mundo pode não acabar amanhã, mas penso que devemos tirar o melhor partido da viagem.

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