Qual o futuro do turismo?

Entre balanços do ano que passou e perspectivas relativamente a 2015, os participantes no último pequeno-almoço debate da revista Marketeer de 2014 dedicado ao universo do turismo, que decorreu no Hotel Dom Pedro Palace, em Lisboa, analisaram a situação do sector, as mudanças em curso e os desafios que se colocam aos players.

Texto por Sandra M. Pinto

Fotos por Paulo Alexandrino

Cada vez mais em destaque, o turismo surge na economia nacional como um dos sectores com maior potencial de crescimento. A visibilidade que Portugal tem vindo a alcançar nos últimos meses junto do mercado internacional reflecte-se no crescente número de turistas que diariamente chegam ao território nacional. Nos 12 meses de 2014 registaram-se recordes em vários indicadores de actividade, com aumentos acima dos 10%, facto que o Governo atribui, maioritariamente, ao sector privado: «Um crescimento de 10% face a um ano de recordes de 2013 só é possível porque houve muita gente a fazer muita coisa muito bem feita», refere a propósito Adolfo Mesquita Nunes, secretário de Estado do Turismo.

Aquando do encerramento da 4.ª Conferência de Balanços, organizada pelo Banco de Portugal e com lugar na cidade do Funchal, o presidente do Turismo de Portugal, João Cotrim de Figueiredo, referiu, por sua vez, que «Portugal está a ganhar quota de mercado no sector turístico como nunca ganhou», apontando que «o saldo da balança turística no País deverá atingir sete mil milhões de euros, o que representa cerca de 4% do PIB». Em termos de dormidas, registou-se um crescimento de 10,8% (32 milhões de dormidas), tendo as receitas aumentado 10,9% até Agosto, cifrando- se em 6,9 mil milhões de euros. Tendo como ponto de partida estes resultados, os participantes em mais um pequeno-almoço promovido pela Marketeer começaram por fazer o balanço de 2014, identificando depois quais os principais desafios que se colocam ao sector e as perspectivas face a 2015, ano identificado por todos como de mudança. Neste pequeno-almoço, que teve lugar no Hotel Dom Pedro Palace, em Lisboa, estiveram presentes: Pedro Ribeiro (director de Marketing e Comercial do grupo Dom Pedro Hotels), Nuno Ferreira Pires (administrador do grupo Pestana), Rogério Cardoso (director de Marketing da ES Viagens), Gonçalo Rebelo de Almeida (director de Marketing e Vendas do grupo Vila Galé), Isabel Barata (administradora do grupo SATA), Álvaro Covões (director da Everything is New), Diamantino Pereira (director da Agência Abreu) e Eduardo Cabrita (director- -geral da MSC Cruzeiros em Portugal).

Com a finalidade de se alcançar um debate mais aprofundado por parte de todos, foi decidido que nenhuma das intervenções seria atribuída directamente no texto.

O balanço de 2014 e perspectivas para 2015

Com a economia portuguesa a passar de alguns anos a esta parte por uma época conturbada, o turismo surge como um sector de sucesso. Os números revelam subidas significativas nas diferentes áreas, com a referência a um sem-número de recordes alcançados a dar origem a um balanço positivo por parte do Governo. Mas o que dizem os players? Qual o balanço que os diferentes intervenientes no sector fazem do ano de 2014?

A positividade do ano de 2014 foi referida por todos os intervenientes, contrapondo a situação actual à série de anos de queda, desde 2009, sendo que 2013 deu o primeiro sinal de inversão da situação. Apesar do sucesso de 2014, houve quem fizesse referência ao facto de este não ter sido de todo o melhor ano de sempre do sector, «mantendo como referência de verdadeiro sucesso os anos de 2007/2008». Ao nível dos números, os 10% de crescimento do sector identificados pelas entidades oficiais foram igualmente referenciados por alguns participantes. Foi igualmente feita a ressalva de que alguns players, nomeadamente ao nível da hotelaria, conseguiram excelentes resultados a sul, com particular incidência no Algarve, facto que não se repetiu, por exemplo, em Lisboa, com referência a menos 20% de resultados alcançados se comparados com 2008.

Ao nível das agências foi referido que os últimos dois anos foram de grande sucesso, «quando se marcam férias com cinco ou seis meses de antecedência as pessoas procuram entidades honestas e com uma boa reputação no mercado, pois obviamente todos têm receio de deixar um depósito de 30 ou 40% e de repente a entidade desaparecer». A credibilidade e a confiança desempenham um papel de extrema importância, sendo cada vez mais valorizado pelo consumidor, o que, «no final, se tem vindo a repercutir nos bons resultados alcançados nos últimos dois anos». Simultaneamente houve um investimento forte por parte deste sector, «com a abertura de novas lojas em locais geograficamente estratégicos», além do incremento de operações no estrangeiro, «com destaque para o Brasil e América Latina». Já o universo dos cruzeiros termina com um balanço positivo do ano 2015, referindo o interveniente no debate «um forte crescimento, muito perto dos 15%». Em suma, 2014 foi um ano positivo com a inversão da curva de quebra, mas ainda há muito caminho para percorrer e muito trabalho a fazer para se chegar aos níveis dos bons anos de 2007/2008.

Relativamente a 2015, é importante separar a previsão que poderá estar mais ou menos certa da expectativa que todos os players sentem relativamente aos próximos 12 meses, tendo havido quem referisse que relativamente a esta última «é aguardado novamente um ano positivo», com a ressalva de não se «acreditar num crescimento muito maior do que o verificado em 2014». Algumas empresas seguiram uma estratégia de crescimento de preços e de receita e não tanto de volume, baseada «particularmente nos resultados obtidos nas épocas altas», vindo os «resultados da selecção dos clientes e do canal de distribuição ». Trabalhar o preço médio foi também um objectivo para 2015, «o que deverá acontecer onde existem já elevadas taxas de ocupação, nomeadamente no Algarve durante os meses de Verão», captando simultaneamente alguns fluxos para a época mais baixa, de forma a conseguir uma optimização, nomeadamente das unidades hoteleiras. Acredita-se que 2015, também no universo das agências, vai ser um ano de crescimento, particularmente em Portugal, «com a manutenção dos números relativamente às operações, por exemplo, no Brasil». Nos cruzeiros, o objectivo para 2015 é continuar a crescer, «cimentando posições através de novos investimentos».

Os maiores desafios que o sector enfrenta

O desafio maior que se coloca ao sector é claramente o combate à sazonalidade, «não só no Algarve, mas também na Madeira e nas próprias cidades, como Lisboa e Porto». Todos concordam em como a sazonalidade não é um problema de uma só região, mas uma questão que se estende a outras zonas do território nacional, inclusive a capital, «que não tem sabido captar a realização de grandes eventos, de forma a contrabalançar esta falta de procura com eventos que tragam turistas». A sazonalidade não está relacionada apenas com o destino, mas também com a procura, pois «há épocas em que as pessoas não querem pura e simplesmente viajar», dando ênfase ao facto de que a procura turística no mundo ser sazonal. Foi defendido que Portugal tem de criar produto para combater esta situação, ainda que «no lazer seja difícil, mas existem segmentos que, se forem devidamente trabalhados, podem trazer procura», o que faz parte das obrigações das entidades oficiais de promoção do País. Uma das opiniões que teve a concordância de todos foi a de que «a sazonalidade não se combate, temos é de aprender a viver com ela». Como achega a este tema foi ainda relembrado que «nos últimos anos foi feito um grande esforço de adaptação por parte dos hotéis portugueses a essa sazonalidade », o que levou alguém a defender que o que deve ser adaptado «é a oferta». «Hoje as receitas chegam em força de três ou quatro meses no ano, algo que não acontecia antigamente », tudo isto conseguido através da implementação de um conjunto de reajustes à realidade imposta pela sazonalidade.

A entrada em força no mercado nacional das companhias low cost veio igualmente “trocar as voltas”, «pois com elas começou a chegar a Portugal um novo género de turistas, que chegam motivados pela realização de eventos, como os festivais de música ou as grandes exposições, e que compõem já uma interessante franja do mercado». O mundo está a mudar e isso é já uma realidade também no universo do turismo, «realidade que obriga a uma adaptação por parte dos players, digamos, mais tradicionais». A verdade é que perante mudanças tão grandes no sector, é preciso que exista uma união entre os players, sobretudo para combater a tão referida e temida sazonalidade, e isto através de uma oferta integrada.

Artigo publicado na edição n.º 223 de Fevereiro de 2015.

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