Provas, notas e rankings, o peso das exigências escolares nas crianças com dislexia e perturbações da linguagem

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16/05/2026
09:00
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A reta final do 3º período escolar chega carregada de pressão, com exames, Provas ModA, avaliações finais, os rankings das escolas e as expectativas em torno das notas. Para muitas crianças, esta fase representa ansiedade. Para outras, um verdadeiro desgaste emocional diário. Porque, enquanto o sistema educativo acelera, há crianças que continuam apenas a tentar acompanhar.

 

Falamos de crianças com Dislexia, Perturbação Específica da Aprendizagem (PEA) e Perturbações da Linguagem que, segundo Diana Moreira – Terapeuta da Fala, são crianças inteligentes, curiosas e capazes, mas cujo cérebro processa a linguagem e a aprendizagem de forma diferente. E essa diferença continua, muitas vezes, a ser confundida com distração, preguiça ou falta de esforço.

 

“A escola mede resultados, mas nem sempre vê o esforço. As Provas de Monitorização da Aprendizagem (ModA), destinadas aos alunos do 4.º e 6.º anos, apesar de não influenciarem diretamente a classificação final dos alunos, representam mais um momento de exigência e exposição académica” refere a terapeuta.

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Diana Moreira revela que, na prática, muitas destas crianças vivem esta fase com níveis elevados de ansiedade, frustração e sentimento de incapacidade. Porque chegam cansadas… cansadas de ler mais devagar, de precisar que lhes repitam instruções, de ver colegas terminarem primeiro, de estudar horas para resultados que nem sempre refletem o esforço realizado.

 

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“Uma criança com dislexia pode demorar o dobro do tempo a ler um texto. Pode compreender oralmente conteúdos complexos, mas bloquear perante a leitura ou escrita. Pode saber a matéria… e ainda assim não conseguir demonstrá-la dentro do tempo esperado. E é aqui que a escola precisa de deixar de olhar apenas para o produto final e começar a olhar para o processo” alerta Diana Moreira.

 

Quando uma criança vive diariamente a sensação de que “não consegue”, o impacto vai muito além das notas:

. A autoestima fragiliza-se.

. A autoconfiança diminui.

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. O medo de errar aumenta.

. E o prazer em aprender começa, lentamente, a desaparecer.

 

Muitas destas crianças passam anos a ouvir frases como:

– “És inteligente, mas não te aplicas.”

– “Lês demasiado devagar.”

– “Tens de treinar mais.”

– “Os outros conseguem.”

 

“O problema não é falta de vontade, é dificuldade no processamento da linguagem. E quando essa dificuldade não é compreendida nem acompanhada, o sofrimento acumula-se silenciosamente” explica Diana Moreira.

 

Existe também a pressão dos rankings escolares e o cumprimento rigoroso das planificações anuais. Os professores vivem atualmente sob enorme exigência curricular. Precisam de cumprir metas, terminar conteúdos e preparar avaliações, dentro de tempos muito apertados. E embora muitos profissionais façam um esforço extraordinário para responder às necessidades individuais dos alunos, o sistema nem sempre permite essa flexibilidade.

 

O resultado é um ritmo escolar acelerado, pouco ajustado às crianças que precisam de mais repetição, mais tempo e estratégias diferenciadas. Aprender depressa continua a ser confundido com aprender melhor. Mas há crianças que precisam de outro tempo para consolidar competências linguísticas fundamentais, sobretudo ao nível da leitura, escrita, compreensão verbal e consciência fonológica.

 

“A leitura e a escrita não começam no primeiro ano de escolaridade. Começam muito antes, no desenvolvimento da linguagem oral. Quando existem fragilidades linguísticas de base, como dificuldades na consciência fonológica, no processamento auditivo, na organização verbal ou na memória fonológica, o impacto torna-se evidente na aprendizagem formal da leitura e da escrita. É precisamente por isso que a intervenção precoce faz toda a diferença. Quanto mais cedo forem identificados os sinais de alerta, maiores são as possibilidades de minimizar dificuldades futuras e reduzir o impacto emocional associado ao insucesso escolar” esclarece a terapeuta.

 

O que dizem as orientações da DGE?

De acordo com as orientações da Direção-Geral da Educação (DGE), os alunos com dislexia ou Perturbação Específica da Linguagem (PEL), diagnosticadas e comprovadas, podem beneficiar de adaptações específicas nas provas de avaliação externa.

 

Entre as medidas previstas encontram-se:

– leitura individual dos enunciados

– realização da prova em sala à parte

– consulta de dicionário

– tempo suplementar

– adaptação Ficha A

– apoio ajustado ao ritmo do aluno

 

“Estas medidas não representam facilitismo, representam equidade. Servem para permitir que a criança demonstre aquilo que sabe, reduzindo o impacto que a dificuldade específica tem no acesso à avaliação. Porque avaliar uma criança com dislexia, exatamente da mesma forma que uma criança sem dificuldades linguísticas, não é igualdade. É ignorar diferenças reais no processamento da informação” alerta Diana Moreira.

 

A terapeuta reforça ainda que é urgente repensar a forma como olhamos para o sucesso escolar.

 

“Nem todas as crianças aprendem ao mesmo ritmo e nem todas demonstram conhecimento da mesma forma. Nenhuma criança deveria crescer, a acreditar que vale menos, por ter mais dificuldade em ler ou escrever. As crianças com dislexia, perturbações da linguagem ou dificuldades de aprendizagem não precisam de menos exigência. Precisam de compreensão, adaptação e oportunidades reais de sucesso. Porque, muitas vezes, atrás de uma leitura lenta, existe uma criança a esforçar-se o dobro para conseguir metade. E isso também precisa de ser visto” conclui Diana Moreira.




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