Há duas menções de prazo nas embalagens dos alimentos e elas não querem dizer a mesma coisa. Uma é de segurança e é para respeitar à letra. A outra é de qualidade e admite tolerância. A confusão entre as duas é das maiores causas de desperdício alimentar doméstico, e resolve-se em dois minutos de leitura.
A menção “consumir até” é a exigente e aplica-se aos produtos altamente perecíveis do ponto de vista microbiológico: carne fresca, peixe fresco, refeições preparadas refrigeradas, alguns lacticínios. Passada a data indicada, o produto não deve ser consumido, mesmo que o aspeto, o cheiro e o sabor pareçam normais. É precisamente esse o ponto, porque a contaminação microbiológica pode não ser detetável pelos sentidos. É também por isso que estes produtos trazem sempre indicação de temperatura de conservação: o prazo pressupõe que essa temperatura foi respeitada em toda a cadeia, incluindo no percurso entre a loja e o frigorífico de casa.
A outra data não é um prazo de segurança
“Consumir de preferência antes de” indica durabilidade mínima, ou seja, o período durante o qual o fabricante garante que o produto mantém textura, sabor, cor e valor nutricional. Depois dessa data o produto não fica automaticamente impróprio: pode perder qualidade, mas continua em regra seguro, desde que a embalagem esteja intacta e as condições de conservação tenham sido cumpridas. É o caso de massas, arroz, bolachas, conservas, café e cereais, que enchem despensas e acabam no lixo por causa de uma data mal interpretada.
Uma parte significativa do que se deita fora em casa resulta de se tratar esta segunda menção como se fosse a primeira. Perante um “consumir até”, a data manda. Perante um “consumir de preferência antes de”, mandam a embalagem, o aspeto e o bom senso.
O que a data deixa de cobrir
Nenhuma das duas menções se mantém válida depois de a embalagem ser aberta. A partir daí passa a valer a indicação de consumo após abertura, quando existe, e as condições de conservação de cada produto. Um alimento com validade longa e embalagem aberta há três semanas no frigorífico não está protegido pela data impressa, por muito distante que ela ainda esteja.
Há ainda um pormenor que passa despercebido no verão: o prazo de um refrigerado assume que a cadeia de frio foi mantida, e um percurso longo entre o supermercado e casa com o carro ao sol quebra esse pressuposto sem que a data mude. Para as marcas fica aqui um território de comunicação praticamente vazio, porque explicar a diferença entre as duas menções reduz desperdício, reforça confiança e alinha-se com compromissos de sustentabilidade que quase todas as empresas de grande consumo já assumiram. É informação impressa em todas as embalagens do país e que quase nenhuma marca se dá ao trabalho de explicar.












