Com uma dimensão bastante diminuta, Malta conseguiu posicionar-se muito acima do seu peso no mapa internacional das produções audiovisuais. Nos últimos três anos, o país recebeu mais de 30 produções de cinema e televisão por ano, tendo atingido um recorde de 36 projetos tanto em 2023 como em 2025.
E o mais curioso é que, muitas vezes, o que aparece no ecrã nem sequer é apresentado como Malta. O arquipélago já serviu para representar a Grécia, a Sicília dos anos 1980, o sul de França e até as Caraíbas. Entre as produções recentes ou próximas de chegar ao público estão Jurassic World Rebirth, Gladiator II, The Magic Faraway Tree e o thriller de ação Mutiny, protagonizado por Jason Statham.
A capacidade de “ser” vários lugares é, aliás, uma das principais vantagens competitivas do país. A combinação de arquitetura histórica, costa mediterrânica, paisagens naturais e condições climatéricas permite às equipas encontrar diferentes cenários relativamente próximos uns dos outros. Mas a localização é apenas parte da equação.
O incentivo que está a levar produções para Malta
Malta entrou na corrida europeia para atrair grandes produções através de incentivos financeiros. O país introduziu o seu mecanismo de cash rebate em 2005 e, desde então, tem aumentado progressivamente a sua oferta.
Em 2025, as 36 grandes produções filmadas no país qualificaram-se para um cash rebate de 40%. Uma das particularidades do modelo maltês é permitir que, em determinadas condições, o incentivo também seja aplicado a despesas relacionadas com equipas e equipamento estrangeiros que não possam ser obtidos localmente, refere o The Guardian.
As empresas de produção que operam no país confirmam a existência de incentivos que podem chegar aos 40% da despesa elegível, dependendo das condições do projeto e da utilização das infraestruturas locais.
A estratégia é clara: tornar economicamente mais interessante levar uma produção para Malta do que para outros destinos concorrentes. E parece estar a funcionar.
Água, sol e um “mar” controlado
Há ainda uma infraestrutura particularmente importante para a reputação cinematográfica do país: os grandes tanques de água dos Malta Film Studios.
A indústria cinematográfica local utiliza estes tanques desde a década de 1970, permitindo filmar cenas marítimas num ambiente controlado. Um dos tanques exteriores tem 91 por 122 metros e está concebido para criar a ilusão de um horizonte aberto para o mar; existe ainda um tanque profundo com 11 metros de profundidade para filmagens subaquáticas.
Esta infraestrutura ajudou a transformar Malta numa alternativa particularmente interessante para produções que precisam de filmar no mar sem depender das condições imprevisíveis de uma rodagem em ambiente natural.
A isto juntam-se mais de 300 dias de sol por ano, equipas locais com experiência internacional e uma infraestrutura de produção já preparada para receber equipas estrangeiras.
A próxima aposta: mais infraestrutura
Malta quer agora ir além do modelo que a colocou no radar de Hollywood. O país anunciou planos para um novo complexo de estúdios avaliado em cerca de 80 milhões de euros, com o objetivo de aumentar a capacidade de produção e atrair projetos de maior dimensão.
Entre os projetos em desenvolvimento está também o conceito de Malta Land Sea Superstage, que pretende combinar produção virtual, um grande espaço interior e capacidades de filmagem aquática. A ideia é permitir, por exemplo, colocar uma estrutura como um submarino num tanque dentro de um estúdio, mantendo a possibilidade de criar um horizonte marítimo.
Ou seja, a estratégia já não passa apenas por oferecer uma paisagem bonita e um incentivo fiscal: passa por construir um verdadeiro ecossistema de produção.
O sucesso também traz problemas
A transformação de Malta num polo internacional de produção não é, contudo, consensual. O crescimento das grandes produções estrangeiras está a gerar preocupações entre profissionais locais, que receiam que o investimento e a procura por equipas internacionais tornem mais difícil aos realizadores e produtores malteses competir pelos mesmos recursos.
O próprio sucesso de Malta como destino para Hollywood pode, assim, criar uma espécie de paradoxo: há mais trabalho para a indústria, mas nem sempre mais espaço para o cinema nacional.
Há também críticas relacionadas com o impacto das rodagens no quotidiano, incluindo trânsito, perturbações no espaço público e possíveis danos em locais históricos.
Ainda assim, Malta parece determinada a continuar a apostar no cinema como setor económico estratégico, com o objetivo de passar de uma ilha onde ocasionalmente se filmam grandes produções para um dos principais hubs europeus de produção audiovisual.












