Pesquiso, logo crio

Por Pedro Pires
CEO/CCO Solid Dogma

Hoje, damos quase por garantida a inspiração. Acedemos em minutos a dezenas de fontes potencialmente inspiradoras que podem mudar uma perspectiva e a forma como estamos a olhar para uma questão criativa. A pesquisa serve para mostrar algo que nunca tínhamos visto, estimular o cérebro ou informar-nos, garantir que estamos no loop do que se faz. Desde que não se faça apenas esta última parte, é pesquisa.

Essa é talvez a actividade onde, enquanto criativos, investimos mais tempo, na pesquisa, que nos permite depois criar. Nunca começo um projecto sem me enquadrar. Embora esta seja uma actividade que para um criativo se torna permanente, nem sempre é feita com a orientação correcta.

Para quem cria, a parte mais importante da pesquisa é o esquecimento. É o que acontece de original depois de sabermos o que estamos a fazer. Para onde vamos, para que serve, o que já foi feito. A pesquisa não académica, aquela que fazemos enquanto criamos profissionalmente, não deve ser feita para que se descubram coisas para se copiar. Deve ser feita para que tenhamos as ferramentas conceptuais e intelectuais necessárias para se produzir um resultado original e com valor.

A maior parte das vezes, pesquiso em áreas complementares. Procuro coisas que não sejam já elas sínteses. Só quando chego ao momento do comparativo me dedico à pesquisa de design e publicidade. Até lá considero que ver anúncios ou identidades visuais é mais um exercício de afunilamento e não de elasticidade mental. Só o faço num segundo momento do processo, na fase de testagem da “tese” criativa em que já estou a trabalhar. Para criar originalmente, a pesquisa deve ir a outros locais. Baralhar, assustar, criar ansiedades positivas. Para isso, visito sites, blogs, instas, canais. Leio estudos, ensaios, crónicas, livros e revistas. Mas, neste momento, para mim quem ganha, nesse papel de consulta diária, de formato acessível e quase espontâneo, de originalidade, é o We Present.

O We Transfer é das minhas marcas favoritas do momento. Mas é o seu projecto editorial, o We Present, que é uma permanente fonte de inspiração e inveja positiva. O fascínio começa na premissa do We Transfer, no posicionamento único criado por Bas Beerens and Nalden. Como é que alguém que cria um sistema de transferência de ficheiros, actividade que tem tudo para não ser criativa, se torna num dos mais cobiçados e valorizados screen spaces pela comunidade criativa mundial?

O We Present nasce em 2018, no âmbito do relançamento do Blog do We Transfer e de imediato se torna num dos mais relevantes projectos editoriais de criatividade. O segredo foi ter o design no coração da operação. Sendo eles criativos de profissão, a ideia de criação do We Transfer surge da necessidade que enfrentavam na transferência de ficheiros pesados. Mas surge embebida do seu profundo amor pela criatividade e a matéria artística. De imediato o interface criado assume uma importância fundamental, de divulgação de estúdios, designers, criativos, artistas, mas também como plataforma publicitária e porta de entrada para este universo. Associado ao funcional e automático acto de enviar ficheiros, surge um portal de informação valiosa. Ao mesmo tempo, cria a base de acesso a uma das mais completas, competentes, fascinantes e inspiradoras ferramentas de informação e inspiração que temos à nossa disposição. O propósito da criatividade nunca se perdeu, embora estivéssemos a falar de uma ferramenta para partilhar ficheiros. Mas tornou-se no elemento diferenciador, na base do posicionamento, porque não se desfocou da razão que lhe deu origem. Hoje é usado por criativos e não criativos. Mantém o posicionamento criativo e artístico e isso é valorizado. O que mais uma vez prova que as grandes marcas não são everybody’s darling. São identidades personalizadas, que procuram a diferenciação, a originalidade na expressão, o seu espaço. E todo o marketeer tem que aprender com este exemplo.

Unexpected stories about creativity. Arte, filme, ilustração, música fotografia, moda, design e todas as outras disciplinas. Tratadas de forma original, num contexto de procura de novos ângulos e com uma atitude de permanente mentalidade de projecto – collabs, desafios a artistas e designers, rubricas especiais. A diversidade, a capacidade de procurar as coisas menos óbvias, a impecável curadoria e os meios que colocam à disposição das matérias, a sabedoria de se colocarem num espaço comum fazem desta ferramenta a mais completa do momento. Uma que eu não consigo deixar de consultar, dado a sua ubiquidade ao longo do dia no meu ecrã.

Esta crónica é uma homenagem e um obrigado ao local onde menos esforço faço para me lançar no pânico da possibilidade.

Artigo publicado na revista Marketeer n.º 308 de Março de 2022

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