Patrícia Calinas (Danone): «Existe ainda muita desinformação sobre alimentação em oncologia»

NotíciasSaúde
Daniel Almeida
06/04/2026
20:32
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A nutrição é um dos pilares mais determinantes para o tratamento de doentes com cancro. Contudo, esta é, geralmente, uma das áreas que gera mais dúvidas e inseguranças em doentes oncológicos e cuidadores. Para desconstruir o tema e aumentar a literacia dos portugueses em relação à nutrição clínica, a marca Fortimel, do portefólio da Danone Nutricia, tem vindo a alimentar uma parceria com a Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC) – e com o envolvimento da chef Tia Cátia.

Iniciada em 2024, a parceria entre Fortimel e a LPCC resultou, até ao momento, na realização de mãos de 300 consultas nutricionais gratuitas em todo o território nacional, com o objectivo de identificar o risco de malnutrição em doentes oncológicos, e no lançamento do livro “Descomplicar a Nutrição no Cancro”, entre outras acções.

No passado dia 31 de Março, as duas entidades reforçaram a parceria com uma acção inédita que decorreu na Cozinha da Tia Cátia: um showcooking ao vivo onde foram partilhadas receitas adaptadas com Fortimel e várias dicas úteis sobre a alimentação de quem está a passar por tratamentos oncológicos. Um evento que contou ainda com uma vertente solidária, em prol da Liga Portuguesa Contra o Cancro.

Em entrevista à Marketeer, Patrícia Calinas, head of Marketing Specialized Nutrition na Danone, aborda a importância destas iniciativas e o impacto que têm tido no dia-a-dia de doentes oncológicos por todo o País. Ou não existisse ainda «muita desinformação sobre alimentação em oncologia, o que gera dúvidas e receios desnecessários em doentes e cuidadores.»

Patrícia Calinas, head of Marketing Specialized Nutrition na Danone

Este ano, Fortimel reforça a sua parceria com a Liga Portuguesa Contra o Cancro no âmbito da nutrição clínica. Quando e como foi criada esta parceria? E quais os principais objectivos?

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A parceria entre Fortimel, uma marca da Danone Nutricia, e a Liga Portuguesa Contra o Cancro nasceu em 2024 da necessidade muito clara de reforçar a literacia nutricional em oncologia e apoiar, de forma prática, tanto profissionais de saúde como doentes.

Desde o início, o grande objectivo foi promover a importância da intervenção nutricional precoce no doente oncológico e criar ferramentas úteis que pudessem realmente facilitar o dia-a-dia de quem vive com a doença.

Este trabalho materializou-se em várias iniciativas, como a realização de mais de 300 consultas nutricionais gratuitas em todo o País, o desenvolvimento do livro “Descomplicar a Nutrição no Cancro” e, mais recentemente, acções de sensibilização com a chef Tia Cátia nos núcleos regionais da Liga.

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Qual a importância de uma nutrição adequada no tratamento de doentes com cancro?

A nutrição é um pilar absolutamente determinante ao longo de todo o percurso oncológico. Doentes bem nutridos conseguem manter o peso corporal e, sobretudo, a massa muscular, factores estes decisivos para uma melhor tolerância aos tratamentos.

Quando o estado nutricional está comprometido, aumenta o risco de adiamentos terapêuticos, reduções de dose, complicações pós-operatórias e infecções. Por isso, a avaliação nutricional deve acontecer o mais precocemente possível e o suporte deve ser sempre orientado por um profissional de saúde.

De acordo com dados citados por Fortimel, cerca de 60% dos doentes oncológicos apresentam risco nutricional ou malnutrição logo no momento do diagnóstico, percentagem que pode atingir 85% ao longo do tratamento. Como se explica esta percentagem tão elevada? E que consequências pode trazer a quem lida com o cancro?

Esta elevada prevalência resulta de um desequilíbrio entre o aumento das necessidades energéticas do organismo e a redução da ingestão alimentar. Por um lado, o próprio tumor pode induzir um maior gasto de energia; por outro, a maioria dos doentes refere perda de apetite ou alterações de paladar, o que dificulta a satisfação das necessidades nutricionais, em especial as proteicas. Além disso, a inflamação sistémica, presente em mais de metade dos doentes logo na primeira consulta, agrava o estado nutricional ao contribuir para a fadiga e a perda de massa muscular.

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As consequências de um estado nutricional debilitado são graves, pois aumentam significativamente o risco de toxicidade associada às terapêuticas. Isto traduz-se, frequentemente, em adiamentos, reduções de dose ou mesmo na interrupção do protocolo clínico. Existe ainda um risco superior a 40% de complicações graves no pós-operatório e um aumento do tempo de internamento hospitalar.

Face a este cenário, reforçamos a necessidade de uma intervenção nutricional precoce.

O problema está mais na falta de literacia ou este é um segmento onde ainda existem lacunas evidentes no mercado, seja ao nível da oferta alimentar ou do próprio Serviço Nacional de Saúde (SNS)?

É uma conjugação de factores. Existe ainda muita desinformação sobre alimentação em oncologia, o que gera dúvidas e receios desnecessários em doentes e cuidadores.

Ao mesmo tempo, apesar da evolução muito positiva no reconhecimento da nutrição clínica, esta continua por vezes a ser integrada numa fase tardia do percurso do doente. Num sistema de saúde com elevada pressão assistencial, a disponibilidade de recursos humanos especializados pode condicionar o acesso atempado a acompanhamento nutricional diferenciado.

A integração mais precoce da nutrição representa aqui uma oportunidade clara de melhoria nos cuidados.

Do lado da Danone Nutricia/Fortimel, este é um segmento que tem merecido cada vez mais atenção, ao nível da inovação?

Sem dúvida. A inovação em oncologia é hoje uma prioridade estratégica. Um dos projectos mais diferenciadores tem sido o desenvolvimento e implementação de protocolos de abordagem nutricional em oncologia em parceria com equipas hospitalares multidisciplinares. Actualmente, cerca de 50% dos hospitais oncológicos em Portugal já têm estes protocolos implementados, sendo o objectivo chegar aos 73% até 2026.

Este trabalho tem sido considerado um verdadeiro benchmark a nível internacional, porque permite integrar a nutrição de forma estruturada e precoce na prática clínica, assegurando a identificação atempada do risco nutricional e uma intervenção ajustada às necessidades reais de cada doente.

Ao nível do produto, o Fortimel Forticare foi desenvolvido especificamente para a gestão da malnutrição associada à doença oncológica, reunindo elevada densidade nutricional num volume reduzido e sabores adaptados às alterações de paladar frequentes durante os tratamentos.

O projecto conta ainda com o apoio da chef Tia Cátia, numa parceria que se materializou num evento online que contou com um showcooking. Como e com que objectivos surgiu esta iniciativa?

Esta iniciativa nasceu para dar resposta directa à enorme desinformação que rodeia a alimentação em oncologia. Durante o live, quisemos desconstruir medos e mitos muito comuns que, muitas vezes, levam os doentes a fazer restrições alimentares perigosas. Abordámos questões críticas como: “O açúcar alimenta o cancro?”, “O glúten deve ser evitado?” ou se “O leite, a carne vermelha ou a soja devem ser eliminados?”. É fundamental esclarecer que a nutrição durante o tratamento é muito diferente de uma dieta de prevenção, e que o foco deve ser sempre evitar a malnutrição.

A dinâmica do evento juntou o rigor científico de nutricionistas especializadas à vertente prática da chef Tia Cátia que, pela sua experiência pessoal e capacidade de comunicação, é a ponte perfeita para o público. No showcooking, mostrámos como é simples e saboroso integrar suplementos nutricionais, como o Fortimel, em receitas do dia-a-dia. Tivemos exemplos muito concretos: desde uma salada de frango com croutons a opções mais reconfortantes, como um banoffee ou um frapuccino, provando que a suplementação pode ser integrada em texturas e sabores apelativos.

Além da vertente educativa, o evento teve um forte cariz social: por cada participante que assistiu à transmissão em directo, Fortimel doará 10 euros à Liga Portuguesa Contra o Cancro, ajudando a financiar o apoio contínuo que a Liga presta aos doentes.

Quais os resultados da parceria com a LPCC nesta área até ao momento? Que mudanças tem acelerado no mercado e nos cuidados de saúde?

A parceria alcançou marcos significativos, como a realização de mais de 300 consultas nutricionais gratuitas logo no seu primeiro ano. Este sucesso motivou uma mudança concreta na estrutura da LPCC, que reforçou as suas equipas com a contratação de nutricionistas dedicadas ao acompanhamento de doentes nos núcleos regionais.

Esta colaboração acelerou o reconhecimento da nutrição como um pilar de suporte fundamental nos cuidados de saúde em Portugal. Verificamos uma integração mais precoce da avaliação nutricional no percurso oncológico, o que contribui para que a nutrição deixe de ser vista como um aspecto secundário e passe a ser um elemento-chave na manutenção do bem-estar e da autonomia do doente.

Quais as principais preocupações que os doentes oncológicos devem ter com a sua nutrição?

A principal preocupação dos doentes deve ser a prevenção da perda de peso e de massa muscular, uma vez que esta debilidade compromete a qualidade de vida e a tolerância aos tratamentos. A recomendação de Fortimel, uma marca da Danone Nutricia, é que a nutrição seja priorizada logo no momento do diagnóstico, através de uma avaliação precoce e acompanhamento contínuo.

Sempre que a alimentação convencional se mostra insuficiente, o recurso a suplementos nutricionais orais específicos permite assegurar o aporte necessário de energia e nutrientes. O objectivo é garantir que o doente mantém a força e a autonomia necessárias para uma melhor resposta clínica.

Texto de Daniel Almeida

*O jornalista escreve segundo o Antigo Acordo Ortográfico




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