“Para o endomarketing ser eficaz tem de estar ligado à estratégia da marca”, Filipa Lopes, diretora de Relações Públicas da UPPartner

EntrevistaNotícias
Sandra M. Pinto
07/01/2026
09:30
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09:30


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A comunicação interna nas empresas tem evoluído muito nos últimos anos, deixando de ser apenas um canal funcional para se tornar um instrumento estratégico de gestão da cultura, motivação das equipas e construção da marca corporativa. Neste contexto, surge o endomarketing, que conecta a experiência interna dos colaboradores com a imagem que a empresa projeta externamente, fortalecendo não só a marca empregadora, mas também a reputação junto de clientes e stakeholders.

Por Sandra M. Pinto

Para aprofundar este tema, conversámos com Filipa Lopes, diretora de Relações Públicas da UPPartner, que nos explica como a comunicação interna, o endomarketing e o employer branding se cruzam, quais os principais desafios e oportunidades para as empresas, e de que forma estas práticas contribuem para criar organizações mais coerentes, autênticas e atraentes para talentos e mercado.

Como vê a evolução da comunicação interna nas empresas e o seu papel no fortalecimento da marca corporativa?
A comunicação interna tem vindo a evoluir de forma significativa e já não pode ser encarada como um canal meramente funcional. Durante muito tempo, o seu papel passou por garantir que a informação circulava dentro da organização, hoje, porém, o seu impacto vai muito além disso. Neste momento, a comunicação interna é um pilar estratégico na gestão da cultura, na motivação das equipas e na construção da marca empregadora, está diretamente ligada à forma como os colaboradores vivem a empresa, interpretam o seu propósito e se envolvem com a estratégia. E essa experiência interna acaba, inevitavelmente, por influenciar a reputação externa, já que uma marca que não é coerente por dentro dificilmente será forte por fora. Por isso, as empresas que investem numa comunicação interna consistente, clara e alinhada com os seus valores conseguem construir marcas mais autênticas e mais próximas, com maior capacidade de atrair e reter talento.
De que forma o endomarketing pode complementar as estratégias de marketing externas para criar uma comunicação coerente e integrada?
O endomarketing funciona como um espelho interno do posicionamento externo, garantindo que aquilo que a marca comunica para fora corresponde, de facto, ao que se vive lá dentro. Quando é bem aplicado, não só complementa como reforça a estratégia global de marketing, porque, se a promessa da marca não tiver correspondência no dia a dia dos colaboradores, perde força e credibilidade. É precisamente essa coerência que o endomarketing ajuda a construir de forma contínua, ao alinhar discurso, cultura e experiência. Quando os colaboradores se identificam com o propósito da empresa e sentem que fazem parte de algo maior, tornam-se naturalmente os seus melhores embaixadores, e essa autenticidade é insubstituível. No fundo, a reputação constrói-se com consistência, e é essa consistência que o endomarketing traz ao ligar, de forma prática, o interior da organização à forma como esta se apresenta ao mundo.

Como distingue o endomarketing de iniciativas clássicas de marketing interno ou engagement?
O que distingue o endomarketing é a sua dimensão estratégica. Em muitas empresas, o que se vê são ações de marketing interno ou iniciativas de engagement pensadas de forma isolada, mais focadas numa motivação pontual ou na criação de momentos simbólicos. Podem ter impacto, claro, mas raramente garantem um alinhamento profundo com a cultura e com a visão da organização. O endomarketing é diferente porque assenta numa lógica contínua e integrada. Trata a comunicação interna como uma extensão da gestão de marca, reforça o propósito, promove escuta ativa e constrói uma ligação mais sólida entre o colaborador e a organização. Não se trata de fazer campanhas, trata-se de cultivar uma cultura, e isso implica coerência e alinhamento entre liderança, comunicação e valores. No fundo, o endomarketing é o que assegura que essa cultura se vive todos os dias, e não apenas quando existe uma ação de comunicação.

De que forma o endomarketing se cruza com o employer branding e como esta ligação impacta tanto a atração como a retenção de talento?
O endomarketing e o employer branding são, na prática, duas faces do mesmo trabalho e funcionam de forma profundamente complementar. O endomarketing centra-se na experiência interna da marca, garante que os colaboradores se sentem ligados ao propósito e envolvidos na cultura da organização. O employer branding pega nessa vivência e projeta-a para fora, traduzindo-a numa imagem coerente e atrativa para o mercado. Quando são trabalhados em conjunto, criam uma experiência de marca completa, em que a promessa feita ao exterior é confirmada pela realidade interna. Essa coerência tem impacto direto na forma como a marca atrai talento, mas sobretudo na capacidade de o reter, porque as pessoas procuram contextos com significado, cultura clara e liderança próxima. O endomarketing ajuda a construir esse ambiente no dia a dia mas o employer branding dá-lhe visibilidade no mercado e é esta ligação que torna as marcas empregadoras verdadeiramente relevantes.

Até que ponto uma estratégia interna de endomarketing bem-sucedida pode refletir-se na perceção externa da marca junto dos clientes e stakeholders?
Uma estratégia de endomarketing bem executada acaba, inevitavelmente, por se refletir no exterior. Os colaboradores são o primeiro ponto de contacto com a marca e, muitas vezes, os seus melhores porta-vozes. Quando existe alinhamento interno, quando a cultura é vivida com autenticidade e quando há espaço para escuta e participação, essa energia transparece em tudo o que a marca faz e comunica. Isso nota-se no atendimento ao cliente, na forma como a empresa responde a desafios, na postura em eventos e até na reputação digital. Uma cultura bem trabalhada tem impacto direto na confiança dos stakeholders e na consistência com que a marca se apresenta no mercado. No fundo, não se constrói uma boa reputação externa quando, por dentro, a cultura é frágil.

Que elementos estratégicos de marketing e comunicação considera essenciais para que o endomarketing seja eficaz e alinhado com os objetivos da marca?
Para o endomarketing ser eficaz, tem de estar ligado à estratégia da marca de forma muito próxima. Tudo começa com um diagnóstico realista da cultura e com uma definição clara do que se pretende reforçar, transformar ou comunicar internamente. A partir daí, torna-se essencial garantir coerência entre os valores que se promovem e os comportamentos que se incentivam, porque é nessa consistência que a credibilidade se constrói. A comunicação precisa de ser contínua, bidirecional e adaptada ao contexto das equipas, com espaço real para escuta e participação. O envolvimento da liderança é determinante, não só na definição da narrativa, mas sobretudo no exemplo diário, que acaba por ser a mensagem mais forte. Também faz diferença existir indicadores que permitam medir impacto e ajustar o caminho, percebendo se as ações estão, de facto, a contribuir para os objetivos definidos. Acima de tudo, o endomarketing não pode ser uma iniciativa isolada, deve estar integrado na cultura e fazer parte da forma como a
organização pensa e vive a sua identidade.

Pode explicar a criação da nova área de Endomarketing da UPPartner e como esta área articula comunicação interna, cultura e marketing da empresa?
A criação desta nova área nasce como uma evolução natural do trabalho que a UPPartner já vinha a desenvolver no campo da reputação externa. Nos últimos anos, tornámo-nos numa referência na forma como ajudamos as marcas a comunicar com impacto para fora, mas fomos percebendo que muitas das questões reputacionais começam dentro de portas. É nesse contexto que surge a área de endomarketing, com o objetivo de apoiar os nossos clientes na construção de culturas fortes e coerentes, através de uma comunicação interna alinhada com a identidade da marca. Esta área
reúne competências de comunicação, cultura organizacional e marketing interno, o que nos permite trabalhar aquilo que se vive, o que se sente e aquilo que se projeta. O nosso papel é garantir consistência entre a experiência dos colaboradores, os valores da organização e a perceção que o mercado tem da marca. É essa ligação que transforma o endomarketing numa verdadeira ferramenta de gestão estratégica.

Que métricas de marketing e comunicação utilizam para medir o impacto das iniciativas de endomarketing na reputação interna e externa da marca?
O impacto do endomarketing deve ser medido de forma integrada. Do lado interno, avaliamos indicadores como níveis de engagement, retenção de talento, adesão às iniciativas de cultura, resultados de inquéritos de satisfação e perceção de alinhamento com os valores da empresa. Externamente, analisamos a evolução da marca como empregadora — seja através de menções em meios relevantes, da participação em rankings de employer branding, da perceção de stakeholders ou do aumento da atratividade em processos de recrutamento. Em projetos-piloto, trabalhamos também
métricas de curto prazo, como participação ativa, melhoria de indicadores internos de comunicação ou resultados em campanhas específicas. Sempre que possível, cruzamos esses dados com indicadores de reputação mediática e presença nos canais próprios da marca.

Pode partilhar exemplos de projetos em que o endomarketing reforçou a cultura da empresa e trouxe resultados tangíveis para a marca?
A área de endomarketing da UPPartner é recente e está ainda numa fase de arranque estratégico, por isso, nesta fase, não divulgamos casos públicos nem projetos com escala e maturidade suficientemente consolidadas para serem apresentados como referência.
Este período foi desenhado precisamente para garantir bases sólidas. Estamos a desenvolver um estudo proprietário, a preparar um evento com líderes de recursos humanos e a produzir conteúdos que ajudam a estruturar e a afirmar esta área como um pilar da agência. Em paralelo, temos colaborações com marcas que nos permitem testar soluções em contexto real, com foco em cultura, comunicação interna e marca empregadora. O objetivo é que, num futuro próximo, possamos apresentar resultados concretos e mensuráveis, que mostrem o impacto destas iniciativas tanto na experiência interna dos colaboradores como na reputação externa das marcas.

Quais são os principais desafios que as empresas enfrentam ao integrar marketing, comunicação interna e endomarketing de forma estratégica?
Um dos maiores desafios passa pela quebra de silos. Em muitas organizações, o marketing, a comunicação interna e os recursos humanos continuam a trabalhar de forma demasiado isolada, com objetivos, métricas e linguagens diferentes. Integrar estas áreas exige uma visão comum, alinhamento de prioridades e a consciência de que a reputação da marca começa, inevitavelmente, dentro de portas. Outro desafio está na forma como se encara o valor da comunicação interna. Enquanto o marketing externo é muitas vezes associado a geração de negócio e resultados imediatos, o endomarketing
ainda é visto por algumas empresas como algo acessório, um “nice to have”. Para funcionar de forma verdadeiramente estratégica, é essencial haver envolvimento da liderança, clareza sobre o papel de cada área e uma cultura de colaboração consistente entre departamentos.

Que tendências vê a emergir na relação entre endomarketing, marketing digital e gestão de marca nos próximos anos?
A tendência mais evidente é a aproximação entre comunicação interna e externa. As fronteiras estão cada vez mais ténues, as marcas já não controlam totalmente a sua narrativa e os colaboradores tornaram-se, hoje, uma das vozes mais influentes na reputação de uma empresa. Por isso, é expectável uma valorização crescente da experiência interna como base da comunicação externa, porque aquilo que se vive dentro acaba sempre por se refletir para fora. Outra tendência passa pela adoção de ferramentas e lógicas do marketing digital no contexto interno, com campanhas dirigidas a públicos internos, mensagens mais segmentadas e processos de escuta e feedback cada vez mais estruturados, com apoio de automação e plataformas próprias.
Vamos ver também uma maior profissionalização do endomarketing, com mais dados, KPIs claros e equipas dedicadas a trabalhar cultura e envolvimento de forma estratégica e contínua, menos como iniciativa pontual e mais como parte do modelo de gestão.

Para empresas que ainda não exploraram o endomarketing de forma estruturada, que conselhos estratégicos daria para começar a transformar a comunicação interna numa ferramenta de marketing de marca e cultura?
O primeiro passo é olhar para dentro com a mesma exigência com que se olha para fora. Isso significa fazer um diagnóstico claro da cultura atual, perceber como os colaboradores vivem a marca e onde estão as falhas de comunicação ou desalinhamento. A partir daí, o foco deve estar na construção de uma narrativa interna coerente, que traduza o propósito da organização em ações concretas e em linguagem acessível. É também importante garantir que a liderança está envolvida, que há espaço para escuta ativa e que se comunicam não apenas decisões, mas intenções e visões de futuro. Por fim, é essencial tratar a comunicação interna com a mesma intencionalidade que se aplica ao marketing externo, com objetivos definidos, consistência e avaliação de impacto. O primeiro passo é olhar para dentro com a mesma exigência com que se olha para fora. Isso passa por fazer um diagnóstico rigoroso da cultura atual, perceber como os colaboradores vivem a marca e identificar onde existem falhas de comunicação ou
sinais de desalinhamento. A partir daí, o foco deve estar na construção de uma narrativa interna coerente, que traduza o propósito da organização em ações concretas e numa linguagem clara e próxima. É igualmente importante garantir o envolvimento da liderança, criar espaço real para escuta ativa e comunicar não apenas decisões, mas também intenções e visão de futuro. Por fim, a comunicação interna precisa de ser tratada com a mesma intencionalidade do marketing externo, com objetivos bem definidos, consistência ao longo do tempo e avaliação de impacto para ajustar e evoluir.

Acha que o endomarketing vai tornar-se tão estratégico quanto o marketing externo e a comunicação corporativa tradicional? Porquê?
Sim, sem dúvida. A reputação já não se constrói apenas com o que a marca diz, constrói-se com aquilo que se vive dentro das organizações. O mercado está cada vez mais atento à forma como as empresas tratam as suas pessoas, e o talento tornou-se um ativo cada vez mais disputado. Neste contexto, o endomarketing ganha um papel central na construção de marcas fortes e sustentáveis. Já não chega comunicar bem para o exterior, é essencial garantir que a experiência interna confirma essa promessa. O endomarketing faz essa ponte, ao reforçar a cultura, fidelizar equipas e dar coerência à
identidade da marca. Por isso, o seu peso nas organizações tende a crescer de forma inevitável.




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