Overhype, androritmos e a nova renascença

Por Pedro Pires
CEO/CCO Solid Dogma

A culpa dos males do mundo não é do Kanye West. É, no entanto, o overhype do lançamento do seu último (e na minha opinião banal) álbum que me faz voltar a um assunto que me interessa sempre. De alguma forma, Kanye catalisa agora tudo aquilo que aparenta estar a cair lentamente em desuso: acções mais valorizadas pelo ruído que provocam, do que pelo seu conteúdo.

O lançamento de Donda e a sua mais do que esforçada estratégia promocional parece ter assinalado o fim de uma maneira de fazer as coisas e a colocar em causa a velha máxima do “falem mal, mas falem de mim”, pois ela finalmente começa a “morder de volta”. E no momento em que depois do patético apoio a Trump e respectiva candidatura à presidência, do divórcio, da polémica da escravatura, do debate acerca da sua saúde mental, ele decide criar repetidos adiamentos do lançamento, repetidas sessões de audição em Atlanta, o revelar do quarto nesse estádio onde supostamente estava a terminar o trabalho, a ostentação religiosa, o proselitismo exagerado, a idolatria, os beefs com Drake, o episódio de dizer que a Universal lançou o álbum sem a sua autorização. Isto poderia ser, e é Kanye, o excesso, o artista brilhante que em tempos mudou a forma do rap e em parte para toda a cultura hip-hop.

O problema é que em 2010 (pré-redes sociais), quando lançou “My Beautiful Twisted Dark Fantasy”, todo o foco estava na arte, e todos pensámos que estávamos perante um homem da Renascença. Em 2021, parece que a montanha pariu um rato. E se do ponto de vista comercial irá ser um sucesso sem precedentes, do ponto de vista artístico parece estar a ser encarado com um encolher de ombros.

A pandemia pode alterar a valorização da tecnologia para amplificação da arte, das marcas, da informação. O peso da tecnologia cresceu brutalmente. E talvez tenha sido essa a experiência que precisávamos para percebermos que ela não é um fim. E que toda a velocidade a que a tecnologia se desloca não chega para ultrapassar o que temos de humanidade. E que esse excesso de exposição nos dessensibiliza e perturba a análise do conteúdo. Como na melhor das utopias, prefiro encarar a tecnologia como a forma de nos libertar. Sim, sei que parece ingénua esta perspectiva, mas a revalorização do conteúdo parece estar em curso.

Tal como depois da peste negra, surge a Renascença como forma de salvar a humanidade através do foco na arte e no saber (no conteúdo), parece que, depois da pandemia, juntando a iminência de uma emergência climática e o repensar geopolítico do mundo, surgem novos sinais desta tendência. E os reflexos disto serão tremendos. Vão ter impacto na forma como consumimos informação, como nos relacionamos com os conteúdos das marcas, como compramos e no que esperamos encontrar quando nos deslocamos a uma loja. Segundo Gerd Leonhard (tecnólogo e futurista), num artigo na “Forbes” (pré-lockdown), “a maior parte da tecnologia irá tornar-se uma mercadoria abundante e a humanidade será uma escassez. Esses são os traços humanos que chamo de ‘androrritmos’ – o oposto dos algoritmos, os atributos não-dados, não-binários e não-computáveis que nos tornam humanos: intuição, imaginação, empatia, compaixão e inteligência emocional…. o primeiro Renascimento substituiu o dogma religioso pela curiosidade e criatividade. O segundo substituirá dogmas tecnológicos com relevância humana ou propósito”.

O overhype é resultado directo na nossa inépcia em saber moderar a utilização destas tecnologias. Somos como aquele adolescente pouco habituado a beber que fica KO nos primeiros cinco minutos da festa. Não consigo deixar de comparar o lançamento de Donda ao de “Call me if you get lost”, de Tyler, The Creator, em Junho. E de o valorizar pelas razões opostas àquelas que Donda usou para se valorizar.

Pelo nome do trabalho, uma evocação da felicidade de não saber e não estar ligado em permanência, pelo tema de viagens num livremente “wesiano” contexto retro, pelo espectáculo teatral que montou nos concertos, por continuar a convidar artistas plásticos para as capas e imagética suplementar, pelo respeito que demonstra pelas referências que o fizeram enquanto artista, por ter lançado a obra quase de surpresa, colocando todo o foco nas audições efectivas do disco e no impacto dos vídeos, pela capacidade de encher o nosso mundo de criatividade pura, sem concessões a mais nada que não seja a qualidade do seu produto artístico e a si próprio enquanto artista e performer. No fim, sentimo- nos respeitados.

Considero Tyler, The Creator, como um claro símbolo deste novo Renascimento, um bom exemplo para os meus filhos e uma inspiração para mim. E fico à espera do próximo do Kanye West para confirmar ou desmentir as minhas teorias.

Artigo publicado na revista Marketeer n.º 302 de Setembro de 2021

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