«Os media têm que ter conteúdos relevantes pagos em tablets»

IMG_20140430_102233_rsA imprensa está de joelhos. Contundente, sem meias palavras, Pedro J. Ramirez veio, a convite da GCI, à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa falar do Poder dos Media e dizer que “o rei vai nu”. Para o icónico ex-director do El Mundo é factual, nos media, e perante um menor investimento por parte dos anunciantes, a existência de uma maior dependência face ao poder – económico e político -, de redacções mais fracas com jornalistas menos bem pagos e, logo, de conteúdos menos relevantes e de inferior qualidade.

O diagnóstico, diz, é claro: a revolução tecnológica está a obrigar a algumas mudanças na imprensa, a que se procure novos leitores e anunciantes. É, nas suas palavras, a tormenta perfeita: «o tsunami dentro do terramoto»!

Ou seja, há mais leitores que nunca, mas menos jornalistas; há mais meios que nunca mas uma menor obrigação de qualidade nos conteúdos. E, em paralelo, há suportes alternativos mais baratos. O problema é que a transferência de conteúdos para o online ainda é uma equação ruinosa. Pedro J. dá alguns números: «Por cada 10 dólares de Pub que os jornais dos EUA perdem na imprensa, ganham apenas 1 dólar no online». Mais ainda, lembra, em 2010 o investimento em jornais nos EUA foi equiparável ao de 1950. Em Espanha, o investimento em 2007 foi de 2100 milhões de euros, tendo passado para 650 mil euros o ano passado, além de que a circulação caiu 40%.

Perante isto, diz não ter grandes dúvidas de que os jornais terão os dias contados: «Dentro de 10 a 15 anos, em Espanha e Portugal, os jornais impressos irão acabar». É que para Pedro J., «todos cometemos o deslumbramento de Siracusa», a soberba e o fascínio pelos números da internet, mas sem nos apercebemos que a maioria desses milhões de users estão só a passear e a ver montras e não entram para comprar. Traduzindo, não entram nos sites para ler notícias, o que não justifica um maior investimento das marcas em publicidade. «Há ainda ingénuos a acreditar que a mudança vai voltar a acontecer. Isso é uma ficção», defendeu.

Como se pode então seguir em frente mantendo qualidade e função social, e sabendo que a maioria dos leitores online ainda não está disposta a pagar? A alternativa, alinha Pedro J. Ramirez, é ter novamente conteúdos relevantes e de qualidade, pagos, em smartphones e tablets. «Nos tablets é possível construir um novo modelo de negócio». Esse é o desafio, como chegar a um consenso para conseguir cobrar por conteúdos com mais valor acrescentado. «Em vez de defender edições impressas, importa defender o jornalismo de qualidade e os leitores», advoga o fundador do El Mundo e que ainda hoje tem “tinta nas veias”.

Pedro J. Ramirez fundou o El Mundo em Outubro de 1989. Desde o primeiro dia que se assumiu independente face ao poder político e económico e a redacção por si chefiada sempre se pautou pela investigação, pela contra-informação. O que acabaria por lhe valer o afastamento, em Janeiro deste ano, sendo substituído no cargo por Casimiro García Abadillo. Nos últimos anos foi dos principais responsáveis pela “viragem” do jornal para o digital.

Texto de M.ª João Vieira Pinto

 

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