Os Chimpanzés Também Querem Experiências (Mas Contentam-se com Bananas) Parte II: E Se Eles Estiverem Certos?

LinkedinNotícias
Marketeer
20/03/2026
20:02
LinkedinNotíciasOpinião
Marketeer
20/03/2026
20:02
Partilhar

Opinião de José Varela Castelo, Head of Intelligent Digital Experience na Link Consulting by Linkroad

No artigo do mês passado, ficámos numa pergunta incómoda: se toda a gente sabe que experiências superam estímulos primitivos, porque é que continuamos a atirar bananas? E levantei uma possibilidade ainda mais perturbadora: e se os chimpanzés estiverem certos?

Vamos a isso.

A Tirania do Trimestre

Suspeito que o problema não é ignorância. É estrutura.

Continue a ler após a publicidade

Imaginem este diálogo. O CMO diz: “Temos de investir em experiência diferenciadora, construir marca, pensar a longo prazo.” O CFO concorda: “Sim, mas neste trimestre precisamos de crescer 15%. O que vais fazer?” O CMO responde: “Vou… lançar uma campanha de performance com desconto agressivo.” O CFO sorri: “Perfeito.”

E assim, trimestre após trimestre, ano após ano, continuamos a atirar bananas. Porque funciona.

Para o trimestre.

Continue a ler após a publicidade

O problema? Os chimpanzés não têm trimestres. Na selva, a banana mais próxima salva a vida hoje. No mercado, a banana mais próxima mata a marca amanhã. Mas “amanhã” não está no dashboard. “Amanhã” não fecha o quarter. “Amanhã” não justifica o budget.

E Se os Chimpanzés Estivessem Certos?

Aqui está a pergunta que ninguém quer fazer: e se o modelo primitivo for o modelo certo?

Pensem nisto. A Amazon é supostamente a empresa mais customer-centric do mundo. Obsessão pelo cliente, experiência sem fricção, long-term thinking. E, no entanto, o que vemos? “Outros clientes compraram também…”, “Promoção relâmpago termina em 2:34:12”, “Adicionar ao carrinho com 1 clique”.

São bananas sofisticadas. Mas continuam a ser bananas.

Continue a ler após a publicidade

A Apple, que alegadamente vende “experiências”, não vende produtos? Os AirPods não são a banana mais próxima no ecossistema? O Spotify, que personaliza até à perfeição, não está a competir por atenção imediata contra o TikTok e YouTube?

Talvez o problema não seja o modelo primitivo. Talvez o problema seja fingir que não somos primitivos.

A Ilusão da Experiência

Eis o que descobri: muitas das empresas que dizem fazer “experiência” estão na verdade a fazer teatro de experiência.

Teatro é design bonito, copy emotivo, jornada desenhada no Miro com 47 touchpoints, apresentação em Cannes. Experiência real é o cliente conseguir fazer o que quer, quando quer, como quer. E não pensar nisso.

A melhor experiência é invisível. É não ter fricção. É não ter de pensar.

Às vezes a melhor experiência não é criar magia. É remover estupidez.

O Problema da Indústria (Aviso já que Somos Todos Cúmplices)

A verdade inconveniente: a indústria do marketing criou um problema que agora finge resolver.

Criámos pop-ups invasivos e vendemos “UX melhorado”. Criámos emails spam e vendemos “marketing automation personalizado”. Criámos websites lentos e vendemos “otimização de performance”. Criámos jornadas confusas e vendemos “customer experience consulting”.

É como incendiar casas e depois vender extintores.

E todos sabemos disto. O custo de aquisição de clientes subiu 222% nos últimos cinco anos. Reter custa 5 a 7 vezes menos do que adquirir. E, no entanto, 44% das empresas ainda priorizam aquisição sobre retenção. Sabemos a matemática e fazemos o oposto.

Porquê? Porque os incentivos estão desalinhados

E todos sabemos disto. Mas continuamos, porque os incentivos estão desalinhados – as agências cobram por volume de output, não por qualidade de outcome. As métricas estão erradas – medimos impressions em vez de impacto. Os timings estão curtos – pensamos em campanhas, não em relações. As estruturas estão fragmentadas – brand, performance, produto, comercial, todos em silos.

Não é um problema tecnológico. É um problema sistémico.

E problemas sistémicos não se resolvem com ferramentas. Resolvem-se com decisões difíceis.

A Pergunta Que Devia Estar em Todas as Reuniões

Em vez de “Qual é o ROI desta campanha?” ou “Quantos leads vamos gerar?” ou “Qual é o nosso CTR alvo?”, deveríamos perguntar:

“Se o nosso cliente tivesse escolha absoluta, voltaria?”

Não por lock-in. Não por desconto. Não por inércia. Por escolha. Porque a experiência é tão boa, tão sem fricção, tão memorável, que não faz sentido ir para outro lado.

Quantas marcas passam neste teste?

Conclusão: O Incómodo Necessário

Os chimpanzés vão continuar a escolher a banana mais próxima. É evolução. É instinto. É sobrevivência.

Nós não temos essa desculpa.

Temos dados que provam que experiências diferenciam. Temos tecnologia que permite personalizar à escala. Temos casos de sucesso que mostram que funciona. E, no entanto, continuamos primitivos.

Porquê? Porque é mais fácil. Porque é mais rápido. Porque é mensurável no trimestre.

Este artigo não tem a solução mágica. Não tem framework de 5 passos. Não tem call-to-action para comprar seja o que for.

Tem apenas uma provocação: E se parássemos de fingir? Fingir que fazemos experiência quando fazemos teatro. Fingir que pensamos a longo prazo quando otimizamos para o quarter. Fingir que somos customer-centric quando somos Excel-driven.

Talvez o primeiro passo para criar experiências melhores seja admitir que estamos a atirar bananas. E depois, decidir se queremos continuar. Ou evoluir.

Nos próximos meses, vou explorar estes paradoxos com mais profundidade: desde a ilusão da escolha à morte das jornadas lineares, do triângulo IRD™ às métricas que realmente importam. Não porque tenha as respostas todas. Mas porque as perguntas certas já são meio caminho.




Notícias Relacionadas

Ver Mais