Num cenário em que os consumidores estão cada vez mais atentos à origem, à qualidade e à autenticidade dos produtos que consomem, o setor da charcutaria ibérica atravessa uma fase de clara valorização e sofisticação. É neste contexto que o Pata Negra apresenta um rebranding que reflete não apenas uma nova identidade visual, mas também uma evolução estratégica assente numa oferta mais refinada, especializada e alinhada com as novas exigências do mercado.
Por Sandra M. Pinto
Com uma forte herança ligada à tradição e ao saber-fazer, a marca procura agora equilibrar esse património com uma abordagem mais contemporânea, apostando em formatos convenientes, numa comunicação mais transparente e numa valorização clara da origem e dos processos de produção. Ao mesmo tempo, acompanha tendências como a premiumização do consumo alimentar, o crescimento da procura por produtos de porco preto ibérico e o reforço da notoriedade desta categoria, tanto em Portugal como nos mercados internacionais. Nesta entrevista, Lúcia Ribeiro, responsável de Qualidade, partilha as motivações por detrás desta transformação, explica como a marca se adapta a um consumidor mais exigente e analisa o papel da inovação, da certificação e do storytelling na construção de confiança e diferenciação num mercado cada vez mais competitivo.
O Pata Negra acaba de avançar com um rebranding e uma aposta numa gama mais “refinada e especializada”. O que motivou esta evolução estratégica da marca?
A evolução da marca surge da necessidade de acompanhar um consumidor cada vez mais informado, exigente e atento à qualidade. O mercado da charcutaria premium tem vindo a sofisticar-se e sentimos que era o momento certo para reforçar o posicionamento do Pata Negra, valorizando ainda mais a autenticidade, a origem e a especialização dos nossos produtos. Este rebranding reflete uma evolução natural da marca, sem perder a sua essência.
Como é que se reposiciona uma marca com forte ligação à tradição num segmento cada vez mais exigente em termos de sofisticação e conveniência?
O segredo está em preservar aquilo que torna a marca única, a tradição, o saber-fazer e a autenticidade, enquanto se responde às novas expectativas dos consumidores. Através de uma imagem mais contemporânea, de formatos mais convenientes e de uma comunicação mais clara sobre a origem e a qualidade dos produtos, conseguimos aproximar a tradição das necessidades atuais.
A procura por produtos de porco preto ibérico tem vindo a crescer em Portugal. O que está a impulsionar este aumento de consumo?
Existe uma valorização crescente dos produtos de origem controlada e de qualidade superior. Os consumidores procuram experiências gastronómicas diferenciadoras, estão mais atentos aos métodos de produção e reconhecem o valor associado ao porco preto ibérico. Além disso, a influência da restauração e do turismo gastronómico tem contribuído para aumentar a notoriedade desta categoria.
A gama de fatiados tem ganho especial relevância. Que mudança de hábitos do consumidor está por detrás desta tendência?
Os consumidores procuram cada vez mais conveniência sem abdicar da qualidade. Os produtos fatiados oferecem praticidade, permitem um consumo mais imediato e facilitam o controlo das quantidades. São formatos particularmente adequados a estilos de vida urbanos, a momentos de consumo mais informais e à crescente procura por soluções premium prontas a consumir.
Este crescimento acontece apenas no mercado nacional ou também já se sente de forma relevante na exportação?
O crescimento é visível em Portugal, mas também nos mercados internacionais. Os produtos ibéricos continuam a beneficiar de uma forte reputação além-fronteiras, especialmente junto de consumidores que valorizam a gastronomia mediterrânica e os produtos de origem certificada. A exportação representa uma oportunidade importante para marcas que consigam combinar autenticidade, qualidade e consistência.
De que forma é que a conveniência das embalagens influencia hoje a decisão de compra num segmento premium como este?
A embalagem deixou de ser apenas um elemento funcional. Hoje é uma ferramenta que combina conservação, conveniência e valorização do produto. No segmento premium, os consumidores esperam embalagens que garantam frescura, facilidade de utilização e uma apresentação alinhada com a qualidade do conteúdo. Tudo isso contribui para a experiência de compra e de consumo.
O rebranding manteve uma identidade visual assente no preto, dourado e branco. Como é que a marca equilibra modernização com a preservação do imaginário tradicional do ibérico?
A escolha destas cores permite manter uma ligação forte aos códigos visuais associados ao universo ibérico e premium, enquanto introduz uma linguagem mais contemporânea. O objetivo foi evoluir sem romper com o património da marca, reforçando os atributos de elegância, autenticidade e exclusividade que os consumidores já reconhecem.
Este ajuste de portefólio pode ser interpretado também como uma resposta à crescente premiumização do consumo alimentar?
Sem dúvida. Observamos uma tendência clara de premiumização em várias categorias alimentares. Os consumidores estão mais dispostos a investir em produtos que ofereçam qualidade diferenciada, origem reconhecida e uma experiência de consumo superior. A especialização do portefólio responde precisamente a essa procura crescente por valor e não apenas por preço.
No atual contexto competitivo, o que distingue o Pata Negra de outras marcas no universo da charcutaria ibérica?
A diferenciação assenta na combinação entre tradição, qualidade certificada, rigor na seleção das matérias-primas e capacidade de inovação. Procuramos oferecer uma proposta consistente, que alia autenticidade a formatos e soluções adaptadas aos hábitos atuais de consumo.
Como é que a marca trabalha a perceção de qualidade e confiança num produto onde origem, certificação e rastreabilidade são fatores críticos?
A confiança constrói-se através da transparência. Investimos na certificação dos processos, na rastreabilidade dos produtos e numa comunicação clara sobre a origem e as características de cada referência. Estes elementos são fundamentais para reforçar a credibilidade da marca junto dos consumidores e parceiros.
A certificação BRC e os selos de segurança alimentar são também ferramentas de marketing ou assumem sobretudo um papel de confiança institucional?
A sua principal função é garantir os mais elevados padrões de segurança e qualidade alimentar. No entanto, num mercado cada vez mais exigente, estas certificações acabam também por reforçar a confiança dos consumidores e por evidenciar o compromisso da marca com a excelência. Mais do que uma ferramenta de marketing, são uma demonstração objetiva desse compromisso.
De que forma a marca comunica o valor dos seus produtos num mercado onde o preço pode variar significativamente, chegando até aos 680 euros por peça?
A comunicação do valor passa por explicar tudo o que está por detrás do produto: a origem dos animais, os métodos de criação, os tempos de cura, o saber-fazer envolvido e os rigorosos controlos de qualidade. Quando o consumidor compreende o processo e a singularidade do produto, percebe melhor os fatores que justificam o seu posicionamento de preço.
O canal gourmet e o turismo têm tido impacto na notoriedade da marca?
Sem dúvida. Ambos os canais desempenham um papel importante na valorização e descoberta dos produtos ibéricos. As lojas gourmet, os espaços especializados e o turismo gastronómico proporcionam experiências que ajudam a reforçar o reconhecimento da marca e a aproximá-la de novos consumidores.
Que papel pode ter o storytelling da origem e da tradição na construção de marca num setor tão ligado ao território?
Tem um papel central. A origem, a tradição e o património cultural associados ao porco preto ibérico são elementos diferenciadores que criam valor emocional. O consumidor procura cada vez mais conhecer a história por detrás dos produtos e sentir uma ligação genuína ao território e às pessoas que os produzem.
Quais são os próximos passos do Pata Negra após este rebranding: mais inovação no produto, expansão internacional ou reforço da presença em novos canais?
O rebranding representa um ponto de partida para uma nova fase de crescimento. O foco passa por continuar a inovar, desenvolver propostas que respondam às novas tendências de consumo, reforçar a presença nos canais premium e consolidar a expansão internacional, sempre mantendo os elevados padrões de qualidade que caracterizam a marca.












