O que leva Albano Jerónimo e Carlão a vestirem-se de mulheres?

“Na Pele Dela” é o nome do projecto responsável por juntar 16 nomes masculinos bem conhecidos do público numa sessão fotográfica em que assumem o papel de mulheres. O actor Albano Jerónimo, os músicos Carlão e Tomás Wallenstein e o artista plástico Julião Sarmento são apenas alguns dos homens que aceitaram o desafio.

Desafio este lançado por Maria Lopes, produtora, programadora e DJ, e por Mário César, profissional na área da publicidade, marketing e fotografia. O resultado da ideia desenhada por ambos poderá ser conhecido já na próxima quinta-feira, dia 12, no Todos Playground, em Lisboa. Por lá ficará também no dia seguinte e, mais tarde, de 19 a 22 de Setembro.

Segundo Maria Lopes e Mário César, o projecto tem como missão desconstruir as representações de género e respectivos estereótipos. Em entrevista à Marketeer, contam como nasceu o conceito e o caminho percorrido das suas cabeças às paredes da exposição.

Como surgiu a ideia para este projecto? Quais foram as várias etapas?

A ideia veio do facto de constatarmos que, em pleno século XXI, ainda nos deparamos com a desigualdade entre géneros nas mais variadas circunstâncias. Este é, por isso, um projecto que traz consigo a vontade de mudar mentalidades através da fotografia, de normalizar o que sempre o deveria ter sido e de contribuir para o imaginário visual dos espectadores. Procura desconstruir a dicotomia redutora e simplificada que continua a ser perpetuada na nossa sociedade nos dias de hoje, ao provar que não há comportamentos exclusivamente femininos e que não tem de existir qualquer tipo de preconceito quando são homens a desempenhar papéis tipicamente associados às mulheres.

A primeira etapa do processo para dar vida a “Na Pele Dela” foi contactar as personalidades que vieram a ser fotografadas e perceber que acção/cenário faria sentido estarem a desempenhar/retratar. De seguida, constituímos uma equipa de pessoas alinhadas com a visão que tínhamos para o projecto, procurámos mobilizar entidades para nos apoiarem e elegemos a instituição para a qual reverteriam as receitais provenientes da venda das obras fotográficas, a ILGA (que luta pela igualdade e contra a discriminação em função da identidade de género, da orientação sexual ou de outras características sexuais). Depois, passámos, finalmente, à execução: alinhámos datas e locais para as sessões fotográficas, fotografámos e editámos.

E os principais desafios?

Na verdade, o projecto, em si, tem sido, desde o primeiro dia, um grande desafio. Todas as fases foram igualmente desafiantes porque é a primeira vez que desenvolvemos uma exposição com esta dimensão e num registo totalmente independente, ainda que contando com o apoio precioso de inúmeras pessoas e entidades que acreditaram em nós e no potencial de “Na Pele Dela” para despertar consciências para um tema tão urgente quanto a igualdade de género.

Há alguma marca associada?

O projecto tem uma índole independente, mas há algumas marcas que se associaram à nossa causa e que têm sido parceiros absolutamente incansáveis ao longo desta jornada. Destacamos a Gatilho, que está a patrocinar a impressão fine art e o acabamento das peças feito pela Gamut, e a cerveja artesanal Trindade, que estará presente na inauguração, já no próximo dia 12 de setembro, no Todos Playground, em Marvila, com oferta de produto. Além destas, a Plateia prestará suporte logístico de iluminação e som na exposição e a Urban Decay forneceu a maquilhagem e uma equipa de maquilhadores para as sessões.

Acham que faz sentido/é necessário as marcas apoiarem iniciativas como esta?

Sim, sem dúvida. Além de ser muito importante as marcas afirmarem a sua posição em relação a uma das problemáticas que tem vindo a assumir maior relevo no seio da sociedade civil; para nós, poder contar com o seu contributo – seja ele monetário ou com produto –, faz, naturalmente, toda a diferença. Iniciativas como esta requerem muito esforço, persistência e trabalho árduo e todos os apoios recebidos são significantes.

Quem são as 16 figuras públicas? Como foram seleccionadas?

Quando começámos a idealizar “Na Pele Dela”, sempre tivemos em mente fotografar homens que fossem caras conhecidas do grande público e que soubéssemos que se reviam nesta luta pela igualdade na individualidade, para mais facilmente sensibilizar as pessoas para a causa.  Acabámos por ter o privilégio de fotografar 16 personalidades com percursos bastante distintos, mas que se uniram em torno deste ideal que lhes é comum: Albano Jerónimo, Carlão, Julião Sarmento, Leonaldo de Almeida, Paulo Furtado (The Legendary Tigerman), Hélio Morais (Linda Martini e Paus), Tomás Wallenstein (Capitão Fausto), Pedro Ramos, Igor Ribeiro (Ghetthoven), Paulo Bento, Daniel Matos Fernandes, Jhon Douglas, Frederico Miranda, Frederico Mancellos, Paulo Pascoal e Romeo Bastos.

Qual foi a reacção destes convidados? Aceitaram de imediato?

Todos se mostraram muito receptivos mal os abordámos. Ainda há um longo caminho a percorrer no sentido de fazer da igualdade de género uma realidade e, reconhecendo isso mesmo, nenhum deles hesitou em despir-se de preconceitos e deixar-se fotografar na pele de uma ela, tomando, assim, parte no debate em torno do tema.

Qual é o objectivo do projecto “Na Pele Dela”?

Com este projecto ousamos desconstruir as representações de género, estereotipadas ao longo da história e de um modo transversal na sociedade, através da arte, recorrendo à fotografia como forma primordial de expressão. Deste modo, “Na Pele Dela” assume uma postura activa no despoletar de uma transformação de mentalidades, contestando, objectivamente, o papel tradicional que tem sido atribuído à mulher em específico, e num sentido mais lato, as castradoras delimitações impostas colectivamente à percepção e manifestação da identidade de género.

Já existiram alguns projectos semelhantes em Portugal. É importante dar continuidade ao tema?

É muito importante dar continuidade a este tema. Exemplo disso são algumas das situações que observamos nas redes sociais, lugar onde, infelizmente, o estigma e a intolerância continuam a ser veiculados em comentários discriminatórios sobre este e outros temas. Parar de alertar e de lutar pela consciencialização não é, por isso, opção.

Texto de Filipa Almeida

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