Opinião de António Saraiva, head of New Business da Nossa
Há decisões que deviam demorar tempo. E, ainda assim, são tomadas num primeiro encontro.
Aquele clássico: um encontro marcado depois de umas breves mensagens. Chegamos um pouco mais cedo, com o nosso melhor outfit. O discurso já está pensado, sem parecer demasiado ensaiado, mas bom o suficiente para nos destacarmos dos outros três encontros que a outra parte teve naquela semana.
Sejamos francos, ninguém chega ali como realmente é. À mesa senta-se a versão melhorada. Ouvimos melhor do que o habitual. Evitamos os temas difíceis, o que não correu bem da última vez, as limitações que existem, mas que ninguém quer nomear, aquela parte da história que ficou por explicar. Chegamos ao ponto de tentar esconder aquela vez em que já nos tínhamos cruzado, mas não houve química. Enfim, mostramos aquela versão de nós que melhor funciona naquele contexto.
Depois do encontro, vêm os critérios. Aqueles que raramente se dizem em voz alta. Quem pareceu mais experiente. Quem já fez mais coisas. Quem pareceu mais seguro. Quem impressionou mais… naquele momento.
E é com base nisso que, muitas vezes, tomamos decisões que influenciam os nossos próximos anos, ou meses. Sem saber como o outro lado reage quando está cansado. Ou se amua quando há conflito. Ou o que acontece quando a conversa deixa de fluir.
Porque naquele encontro tudo fluiu. Tão bem que, sem pensar, deram-se garantias de como poderia ser a relação dali para a frente: “Estou aberto a tudo.” ; ”Sou zero ciumento” ;“Dinheiro não falta”… Frases que ajudam no encanto, mas que raramente sobrevivem muito tempo.
E não é por mal.
É porque aquele momento não foi feito para ser totalmente honesto.
Foi feito para resultar.
O problema é quando esquecemos isso.
Quando tratamos aquele primeiro encontro como se fosse representativo de tudo o que vem a seguir. Quando ambos acreditamos naquela versão editada.
Talvez tudo funcionasse melhor com mais transparência logo no início.
Menos performance. Mais verdade sobre o que conseguimos ser e o que queremos receber. Mas isso tornava o encontro menos fluido.
Menos sedutor. Mais real.
E a realidade raramente ganha a uma boa primeira impressão.
Talvez por isso continuemos a decidir parcerias tão importantes assim: numa sala (ou num teams) entre slides cuidadosamente curados e uma promessa que vai ser muito difícil de replicar no mês seguinte, quando a verdadeira relação começa.
Enfim… Há decisões que deviam demorar tempo e, ainda assim, são tomadas num primeiro encontro.











