O poder da vacinação

Entrevista a Mário Cordeiro, Pediatra

Por Sandra M. Pinto

As vacinas são o meio mais eficaz e de maior impacto na saúde pública.

Nelson Mandela disse um dia que, «através da vacinação, milhões de crianças foram salvas e tiveram a possibilidade de viver com mais saúde, mais tempo e melhor». Mas por que será que hoje há tantos pais a pôr em causa os benefícios da vacinação? Para ajudar a esclarecer esta questão, elucidando os pais de forma assertiva e clara, o pediatra Mário Cordeiro lançou o livro “A Verdade e a Mentira das Vacinas”, sobre o qual conversou connosco.

Neste seu livro aborda um tema que tem levantado alguma crispação na sociedade portuguesa. Não devia ser este um “não tema”, ou seja, já ninguém deveria pôr em causa os benefícios da vacinação, certo?

Exactamente. Depois das vitórias que se conseguiram com as vacinas, controlando várias doenças e salvando a vida de milhões de pessoas, evitando milhões de handicaps, com o aumento da esperança de vida sequente, é inacreditável como ainda há pessoas que, a coberto de ideias falsas, teorias da conspiração, ignorância ou arrogância, ajudam a destruir a vacinação, permitindo que as doenças evitáveis pela vacinação voltem a progredir. Há vírus e bactérias que nos querem matar. Sim, que nos querem matar. Abandonar as armas que temos e deixá-los fazer a sua função é, quanto a mim, inadmissível!

Na sua opinião, por que é que há tantos pais ainda reticentes em vacinar as suas crianças?

Várias razões: ignorância, mistura de conceitos sobre imunidade, ecologia, ambiente e outras coisas, a ideia de que já não é preciso vacinar, porque as doenças já não existem (claro que algumas estão controladas mas, exactamente, porque se vacina!) e teorias da conspiração várias, a somar a uma profunda arrogância de quem vive num país onde as taxas são elevadas, juntamente com a ideia de que, “como os outros vacinam, não vale a pena vacinar o meu para não correr riscos” – é uma visão egoísta e errada, porque com as vacinas não se corre risco, mas não estando vacinado, sim. Além disso, vacinarmos o mais possível permite defender solidariamente aqueles que, por motivos médicos, não se podem vacinar.

Acha que os pais têm o direito de não vacinar os filhos?

Ter o direito têm, dado que não é obrigatório. Como direito moral, acho que não, porque os filhos não são propriedade dos pais. Se algo acontecer, como é? Como vivem? Como dormem? Como se sentirão responsabilizados? E o sofrimento ou mesmo a morte da criança?

Quais são os argumentos que um pai, que não quer vacinar, lhe apresenta e de que forma tenta demovê-lo da ideia?

Tento sempre escutar os pais, ouvir as suas dúvidas e tentar esclarecer uma a uma, desde as questões de “mexer com a imunidade”, “causarem cancro ou autismo”, etc. Todavia, se há pais que dizem “não!”, não os posso “castigar” – mas digo sempre que pensem muito bem, pois todas as moedas têm duas faces.

Esses argumentos baseiam-se em ignorância, desconhecimento, ou há mesmo um acreditar em que vacinar faz mal?

Algumas pessoas ainda acreditam que as vacinas causam uma data de coisas, dado que foram médicos e figuras de renome social que propagaram essas falsidades. Há também profissionais de saúde que – para mim é o mais completo absurdo – desaconselham esta ou aquela vacina. Mas há muita ignorância e, por vezes, má-fé e desinformação.

Há muitos mitos em torno da vacinação. Como foram eles construídos e de que forma poderão ser desmontados?

São próprios de uma sociedade em que, precisamente graças às vacinas, as doenças diminuíram. Como a memória é curta e o que conta é a opulência dos tempos que vivemos, dá ideia que as vacinas são coisa ultrapassada ou só para países “pobrezinhos”. Espero que o surto de sarampo deste ano tenha feito essas pessoas “cair na real”. Por outro lado, a questão do autismo e outras foram fruto de um estudo falso, inventado por um médico inglês, que perdeu a carteira e o licenciamento por causa disso, mas que conseguiu criar o caos, amplificado por pessoas como o grande actor Robert de Niro, que tem um filho autista e encontrou aí a (falsa) explicação para o seu caso.

Por outro lado, confundem-se conceitos bondosos, como a protecção da natureza, da ecologia, de não intervir desnecessariamente, com a vacinação. Há pessoas que dizem que “não é natural vacinar-se”… mas também não é “natural” usarmos roupa, termos óculos ou vermos televisão!

Isso exige um esforço acrescido por parte dos profissionais de saúde, não lhe parece?

Sim. A ignorância combate-se desfazendo mitos e creio que, como nós defendemos a vacinação, temos de ter uma voz mais forte, sendo essa a razão do livro. De um modo científico, desfazer todos esses equívocos, dúvidas e confusões.

Estarão todos os profissionais de saúde aptos a esclarecer os pais, desmistificando crenças e mitos infundados?

Deveriam estar, mas…

Mas poderá existir um caso em que vacinar seja de todo desaconselhado?

São casos raros, em que há problemas de imunidade, por exemplo, ou, para certas vacinas, como, por exemplo, a da tosse convulsa, uma doença neurológica evolutiva, mas isso são casos raros, as excepções que confirmam a regra. E essas crianças serão defendidas exactamente se todos os outros se vacinarem, a chamada imunidade de grupo.

E há vacinas que não são para tomar? Quais são?

Há vacinas que só se tomam quando se viaja para países onde as doenças são endémicas, como a febre amarela, a cólera, ou em situações específicas, a da raiva.

Já percebemos que há falta de informação, ou muita informação errada a circular. Seria conveniente falar-se mais nos media sobre a evolução da medicina nesta área, dando a conhecer de forma mais assertiva, com casos concretos, o desenvolvimento das vacinas com enfoque nas doenças já erradicadas?

Sim. Para cada argumento, desculpe o termo, idiota, deveria haver 20 pessoas a desfazer, sem qualquer sombra de dúvida, a confusão e a desinformação. O facto de termos excelentes taxas e tido vitórias sobre vitórias não significa que não possa tudo voltar atrás, e rapidamente, se houver desconchavo e lassidão.

De forma muito resumida, como apareceram as vacinas?

O primeiro homem a sistematizar as vacinas (já desde a China milenar que havia a noção de que algumas doenças poderiam ser prevenidas “usando-as a si próprias”) foi Edward Jenner, que observou, numa altura em que a varíola assolava a Europa, matava populações inteiras e afectava pobres e nobres, sem distinção, que as camponesas que mungiam vacas tinham a pele limpa, sem as “bexigas” da varíola, por isso requisitadas pelos pintores. Jenner descobriu que as vacas tinham uma espécie de varíola, a varíola bovina, que não causava doenças nem nelas nem no ser humano, mas aquele contacto com o leite das vacas permitia a essas mulheres não ter a doença humana. Assim, conseguiu inocular soro das vacas em pessoas, verificando que elas não apanhavam a doença humana. No fundo, como o produto vinha da vaca (“cow”, em inglês, e varíola diz-se “smallpox” mas a variante das vacas “cowpox”) e como se usava o latim em linguagem médica, Jenner foi buscar o nome vacum (vaca) para o produto, e daí ter nascido a palavra vacina.

Quais as doenças totalmente erradicadas através da sua utilização e quais as que estão controladas a nível mundial?

A única erradicada é a varíola. Algumas estão praticamente controladas a nível mundial, como a poliomielite, mas ainda subsistem bolsas, sobretudo nos locais controlados pelos fundamentalistas que são contra as vacinas. Algumas doenças evitáveis pela vacinação estão controladas no nosso país, mas não em outros países da Europa. De um modo geral, podemos dizer que estamos muito bem cotados, mas o surto de sarampo deste ano mostrou que nada está assegurado!

Há o perigo concreto de alguma dessas doenças regressar, nomeadamente, e como refere, a varíola?

A varíola não, mas todas as outras que não foram extintas podem, em maior ou menor grau, com maior ou menor facilidade, regressar. Tudo dependerá de continuarmos ou não a vacinar. Espero que o bom senso impere e é a ele que faço apelo neste livro.

Em Portugal o Programa Nacional de Vacinação (PNV) surgiu em 1965. Ao fim destes anos os resultados conseguidos são bons? A nível europeu como se posiciona Portugal relativamente a este tema?

Os resultados são dos melhores do mundo. Portugal é um dos países no top da Europa em termos de vacinação. Foi o resultado de um grande esforço dos profissionais e de uma extraordinária e inteligente adesão dos pais. Não estraguemos agora tudo! Era o mesmo que ter o Ronaldo e o Messi numa equipa e impedi-los de rematar!

Passadas estas décadas e perante, por exemplo, a situação que aconteceu com o recente surto de sarampo, quais os maiores desafios que se colocam hoje ao PNV?

Temos de continuar a convencer os pais e a população em geral que vacinar é fundamental para que as doenças não surjam, e que os mitos à volta das vacinas são mitos, estão errados científica e socialmente, e que escondem ignorância e até interesses próprios. O PNV irá certamente incluir mais vacinas e a tecnologia permitirá associar mais e mais vacinas em doses simplificadas, de forma a tornar menos “penoso e oneroso” este processo. Finalmente, há que vigiar a ocorrência de doenças e de eventuais efeitos das vacinas (que são, repito, efeitos colaterais simples e raros), bem como entender que há bolsas de não-vacinação e arranjar estratégias de conseguir que essas pessoas se vacinem. Finalmente, há que reduzir as falsas contra-indicações e combater as ideias feitas, muitas vezes e infelizmente veiculadas pelos próprios profissionais, de que as vacinas não são necessárias ou até nem boas.

Deveria a vacinação ser obrigatória? Por que não?

Não devem ser obrigatórias, nem foi preciso isso para que Portugal tivesse uma das mais altas taxas de vacinação do mundo. Tive de estudar o assunto, quando estava na DGS e verifiquei que não se ganhava em eficácia, pelo contrário (como aconteceu nos países da ex-“Cortina de Ferro”, em que mal o regime caiu as pessoas deixaram de vacinar, porque a vacina era associada a uma imposição dos governos), pode gerar uma reacção “do contra”. Por outro lado, a averiguação da responsabilidade quem a faz? A saúde, a justiça? Quem é o “culpado”? Foram os pais? Foi o patrão que não deixou o seu trabalhador sair para ir com o filho à vacina? Foi o centro de saúde que mandou para trás só porque a criança “estava constipada”? Foi porque houve greve de enfermeiros? Foi porque o autocarro avariou, ou houve um acidente na ponte? Por outro lado, tudo o que seja obrigatório, em termos jurídicos, tem de ter uma penalização para quem não cumpre, uma coima, por exemplo. Em França, durante um tempo, quem não vacinasse e não fosse com os filhos à vigilância de saúde perdia o abono de família. Viu-se que penalizava os mais fracos, os mais pobres, os menos informados, e que era socialmente injusto. Finalmente, muitos pais (e advogados) poderiam explorar os efeitos secundários das vacinas (dor local, febre, etc.) para, como nos EUA, exigir mundos e fundos às ditas multinacionais. Na altura, na DGS, há cerca de 20 anos, o meu parecer foi que as vacinas não deviam ser obrigatórias, mas que os pais, por verem nelas uma coisa boa, ver-se-iam na “obrigação moral” de vacinar os filhos. Obrigação, mas moral. Tal e qual transportar os filhos no automóvel de maneira segura, escovar os dentes, alimentá-los decentemente ou tantas outras situações. É o que defendo. Liberdade com responsabilidade, direitos com deveres, sobretudo porque os pais não são donos dos filhos, mas apenas gestores do seu percurso de vida. Não vacinar é expor os filhos a riscos, se acontecer alguma coisa esses pais devem responder pela sua opção.

Quando perguntaram, um dia, ao professor Arnaldo Sampaio, as três melhores medidas para prevenir as doenças infecciosas ele disse: vacinar, vacinar e vacinar. Hoje, talvez fosse vacinar, lavar as mãos e usar máscara quando se está constipado, mas vacinar conservar-se-ia em primeiro lugar! Tive a ocasião de debater intensamente este assunto há cerca de 20 anos e mantenho a minha posição. Todavia, mesmo sem a obrigatoriedade legal, que não defendo pelas razões apontadas, há uma obrigatoriedade moral de quem cuida de uma criança, essa deve ser objecto da censura social e familiar, mesmo antes de acontecer alguma coisa. E não propagarmos tudo pelas redes sociais, com ar vitorioso, ecologista e pós- -moderno. É mais um caso cheio de pós- -verdades e de “fake facts”.

Para o futuro, quais as vacinas que na sua opinião vão aparecer?

Espero que possam entrar no PNV a vacina antimeningite B, para todas as crianças e não apenas as de alguns grupos de risco acrescido, a vacina anti-rotavírus e a vacina antivaricela.

Como diz no seu livro, «as consequências são sempre para as crianças». Perante isto, que última palavra ou conselho deixaria a um pai mais desconfiado relativamente à vacinação?

Se houver lei, deverão responder conforme a lei. Não havendo, devem ser objecto da chamada “censura social”, que levou a que, por exemplo, na Escandinávia, mesmo antes da lei, os amigos e familiares “olhassem de esguelha” e dissessem activamente o que pensavam dos pais que não transportavam as crianças em cadeiras.

Cá, em nome da “liberdade individual” – que não está em causa –, diz-se por detrás das costas o que não se diz pela frente, a não ser de modo hostil e malcriado. Há que desenvolver (novamente) uma “cultura de vacinação”, tão ágil, forte e disseminada como a “fake culture” da antivacinação. É preciso desmontar peça por peça a argumentação cientificamente errada e os jornalistas e os media têm uma enorme obrigação de estar do lado certo da verdade, da ciência, da promoção da saúde e da defesa dos direitos das crianças.

No caso vertente, não havendo lei, nada se pode fazer, mas é bom que, se acontecer algo de muito mau, esses pais interiorizem que contribuíram para este propagar do incêndio. Isto é tal e qual como num incêndio, como os que têm assolado o País: alguém lança uma beata, mas quem deixou os campos com mato, quem dificultou o trabalho dos bombeiros e quem ajudou à festa é também moralmente responsável.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº2 de Novembro de 2017.

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