O medo da tecnologia e a “Fearless Girl”

Texto de Marcelo Lourenço, director criativo da Fuel

 

Nos últimos anos Cannes tem sido o festival do “criativos, tenham medo, muito medo da tecnologia”. Mas este ano, a criatividade resolveu responder, com vários cases fazendo gato e sapato da tecnologia.

 

“Google Home of Whooper” é o melhor exemplo, com uma ideia que engana ninguém menos do que o todo poderoso Google: num filme de 15 segundos veiculado na TV, um funcionário do Burger King diz “não temos tempo para dizer aqui como é feito o Whooper Burger por isso …” e diz em alto e bom som “Google Home, o que é o Whooper Burger”. E o aparelho, pirateado por um truque tão simples, repete a composição da sanduíche.

 

 

Já a “Meet Graham” é a prova de que a tão temida “big data” também pode ser arte: o pessoal da Clemenger BBDO agarrou nos dados científicos que mostravam como o corpo humano reagiria a um acidente de carro e virou a coisa do avesso, construindo o primeiro ser vivo capaz de sobreviver ao acidente.  O resultado: um ser humano bizarro que a agência baptizou de Graham e se tornou numa das instalações mais vistas e comentadas de 2016.

 

 

Depois de tirar uma foto e fazer corninhos na big data, que tal enganar os vídeos de pré-roll, aqueles que ninguém mais quer ver mas que o Youtube nos obriga a ver até o fatídico “skip ad”? Veja abaixo a campanha da Cadbury e repita comigo  “Toma e embrulha, Youtube”.

 

 

Seguimos com três dos melhores trabalhos que eu vi em Cannes em 2017: a campanha “Hollywood Rejects French Films” para um festival de cinema francês. Fantastique, mon amour.

 

 

Que alívio: finalmente uma campanha que quer fazer o bem mas também quer vender produto. A Pedigree lembrou-se que nada melhor para os seniores que ficaram com a casa vazia depois que os filhos saíram de casa do que substituir os filhos por… cães.

 

 

 

A grande injustiça do festival: “Every other week”, para mim o melhor filme de 2017 – corajoso, emocionante e delicado. Ganhou um Bronze que soube a prémio de consolação.

 

 

Todas as ideias acima são maravilhosas. E ainda assim, nunca mais ninguém vai se lembrar delas – e de quase tudo que Cannes premiou em 2017 – em apenas alguns meses.

 

Essa é a verdadeira maldição da nossa profissão: todo o que fazemos está fadado ao esquecimento.

 

É por isso que a campanha “Fearless Girl” é tão importante: a estátua da miúda colocada em frente ao famoso touro de Wall Street, vai ficar para sempre.  Repito: para sempre. Virou um marco da cidade, candidato à estatura mais selfiada de Nova Iorque, um património da luta a favor dos direitos das mulheres.

 

 

Daqui a 100 anos, quando ninguém se lembrar do que aplaudimos e invejamos em Cannes este ano, a “Fearless Girl” estará lá, de pé em Manhattan e na nossa memória.

 

É isso.

 

Até Cannes 2018.

 

Recorde os textos de Marcelo Lourenço sobre Cannes em 20142015 e 2016.

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