A Desafio Global voltou a destacar-se no panorama internacional dos eventos ao conquistar várias distinções nos prestigiados Eventex Awards 2026, considerados uma das mais relevantes competições mundiais da indústria. Entre os projetos premiados estão os IRGA Awards 2025, desenvolvidos para a Deloitte, distinguidos com Platina em B2B e Ouro em Best Use of AI, e o projeto Pensar Maior, criado para a Fidelidade, vencedor em categorias como Corporate Event e Set Design.
Por Sandra M. Pinto
Numa altura em que os eventos assumem um papel cada vez mais estratégico na comunicação das marcas, a integração de inteligência artificial, storytelling imersivo e experiências emocionais surge como uma das grandes tendências do setor. Em entrevista, Gonçalo Oliveira, Diretor Executivo da Desfaio Global, fala sobre o reconhecimento internacional da agência portuguesa, a evolução do marketing experiencial e o impacto crescente da tecnologia na criação de eventos corporativos.
O que representa para a Desafio Global esta distinção nos Eventex Awards 2026, numa competição internacional de referência para a indústria dos eventos?
Representa um enorme orgulho e, acima de tudo, a confirmação de que a criatividade portuguesa consegue competir ao mais alto nível internacional. Os Eventex são hoje uma das grandes referências da indústria dos eventos e estar entre os projetos distinguidos dá-nos a sensação de que estamos no caminho certo. Tem ainda um significado especial por ser uma avaliação feita por um júri internacional que representa 43 países, diferentes culturas, visões criativas e experiências da indústria. Isso dá ainda mais relevância a este reconhecimento porque valida o impacto do trabalho numa perspetiva verdadeiramente global. É também um reconhecimento do trabalho das nossas equipas, parceiros e clientes, que acreditam em ideias ambiciosas e nos desafiam constantemente a elevar a fasquia. Mais do que prémios, vemos estas distinções como validação da nossa visão para o futuro dos eventos.
O projeto IRGA Awards 2025, desenvolvido para a Deloitte, conquistou Platina em B2B e Ouro em Best Use of AI. O que esteve na base deste reconhecimento?
Acredito que o grande diferencial esteve na forma como conseguimos unir tecnologia, emoção e narrativa numa experiência coerente. Muitas vezes a tecnologia é usada apenas para impressionar visualmente. No nosso caso, a inteligência artificial foi integrada como parte da história e da experiência humana. A IA teve um impacto muito forte na criação dos conteúdos e permitiu tangibilizar o conceito de uma forma visual e emocionalmente muito poderosa. Ajudou-nos a criar conteúdos com grande profundidade estética e narrativa, capazes de reforçar a mensagem de evolução e transformação ao longo de toda a experiência. O projeto tinha um conceito muito forte ligado à evolução, transformação e mudança. Tudo foi desenhado para fazer o público sentir essa evolução ao longo do evento, desde os conteúdos visuais até à cenografia, ritmo, som e momentos de interação. Quando a tecnologia deixa de ser apenas ferramenta e passa a amplificar emoções, o impacto torna-se muito mais poderoso.
De que forma o conceito “Embracing Evolution, Inspiring Change” ajudou a orientar a criação desta experiência imersiva?
Esse conceito foi literalmente o ponto de partida para todas as decisões criativas. Queríamos criar uma experiência que transmitisse a ideia de evolução contínua, não apenas da tecnologia ou das empresas, mas também das pessoas, da liderança e da sociedade. A cenografia, os conteúdos visuais e a própria estrutura narrativa do evento foram pensados como uma verdadeira viagem de transformação. Mais do que discursos ou apresentações tradicionais, procurámos criar mensagens em forma de poesia visual, onde imagem, som, ritmo e emoção trabalhavam em conjunto para transmitir ideias de forma mais sensorial e humana. O público não estava apenas a assistir ao evento, estava a viver uma experiência desenhada para provocar reflexão, inspiração e energia coletiva. Hoje, transformar conceitos fortes em storytelling de eventos é um dos maiores desafios da indústria. Não basta ter uma mensagem relevante. É preciso conseguir criar narrativas com impacto emocional, coerência e capacidade de envolver as pessoas do início ao fim. E quando isso acontece, o evento deixa de ser apenas um momento de comunicação e passa a posicionar verdadeiramente a marca como líder, visionária e culturalmente relevante. No caso dos IRGA Awards, explorámos muito o conceito de “cloud point” e dos pontos enquanto metáfora visual e humana da evolução coletiva. Um ponto isolado pode representar uma ideia, uma voz ou uma ação. Mas quando milhares de pontos se ligam, criam movimento, direção e transformação. A mudança faz-se em conjunto. Se uma só voz pode gerar impacto, quando todos se unem o impacto torna-se exponencial. Essa ideia esteve presente em toda a experiência, desde os conteúdos generativos até à linguagem visual do evento, reforçando a noção de comunidade, colaboração e evolução coletiva como motores de inspiração e mudança.
No caso do projeto Pensar Maior, para a Fidelidade, o que fez a diferença para alcançar Ouro em B2B, Corporate Event e Set Design?
O Pensar Maior é um projeto muito especial para nós porque acontece apenas de dois em dois anos. Isso cria naturalmente uma enorme responsabilidade criativa. Cada edição obriga-nos não só a pensar maior, mas também a superar a experiência anterior e elevar a fasquia daquilo que o público espera viver. Nesta edição, sentimos que havia também uma mudança importante no próprio público. Hoje, temos gerações mais novas, habituadas a consumir conteúdos de forma completamente diferente, muito influenciadas pela linguagem visual e pelo formato dos dispositivos móveis. Isso levou-nos a reinventar a própria cenografia do evento. Em vez do tradicional formato horizontal dos ecrãs, virámos os ecrãs ao alto, criando uma experiência visual mais próxima da forma como o cérebro humano já se está a adaptar ao consumo de conteúdos através dos telemóveis e plataformas digitais. Tudo foi desenhado para que o público não estivesse apenas a consumir informação, mas a viver a informação. Queríamos criar uma experiência mais sensorial, emocional e imersiva, capaz de inspirar as pessoas a pensar maior todos os dias, não apenas durante o evento. Foi também uma abordagem muito inovadora do ponto de vista tecnológico e experiencial. Utilizámos tecnologia pela primeira vez em determinados momentos da experiência para criar novos níveis de interação, ritmo visual e envolvimento emocional. Quando a tecnologia, o storytelling e a cenografia trabalham em conjunto com um propósito claro, o impacto torna-se muito mais forte e memorável.
O que nos dizem estes prémios sobre a evolução do papel dos eventos enquanto plataformas estratégicas de comunicação de marca?
Mostram claramente que os eventos deixaram de ser apenas momentos de celebração ou encontros corporativos. Hoje são plataformas estratégicas de comunicação, cultura e posicionamento de marca. As marcas já não são aquilo que dizem. São aquilo que fazem, aquilo que fazem sentir e a forma como conseguem criar ligação com as pessoas. E é precisamente aí que os eventos ganham uma importância enorme. Num mundo cada vez mais dominado por inteligência artificial, automação e consumo digital, os eventos tornaram-se um dos poucos territórios onde tudo acontece de forma real, humana e partilhada. Com o crescimento acelerado da tecnologia, cresce também a necessidade de conexão verdadeira. As pessoas procuram experiências autênticas, momentos de presença, emoção e comunidade. Nos eventos existe contacto humano, energia coletiva, reação emocional em tempo real. Existe verdade. É também nos eventos que as marcas conseguem relacionar-se de forma mais próxima com os seus públicos. Não apenas através de mensagens, mas através de experiências vividas. E quando uma marca consegue ser vivida, deixa de ser apenas comunicação e passa a fazer parte da memória emocional das pessoas. Num contexto em que estamos constantemente expostos a estímulos e conteúdos, os eventos têm uma capacidade única de gerar impacto, ligação e significado. E isso tornou-se extremamente valioso para as marcas que querem construir relevância no longo prazo.
A categoria Best Use of AI reflete uma tendência crescente. De que forma a inteligência artificial está a ser integrada no desenvolvimento de experiências de marca?
A inteligência artificial está a transformar profundamente a forma como criamos experiências. Está a acelerar processos criativos, a permitir maior personalização e até a criar conteúdos dinâmicos em tempo real. Mas acredito que o mais importante é perceber que a IA não substitui criatividade nem emoção. Pelo contrário. O verdadeiro potencial está em usar a tecnologia para amplificar o lado humano das experiências. No futuro vamos ver experiências cada vez mais inteligentes, adaptativas e personalizadas, mas a emoção continuará a ser o elemento central. Este prémio é também um enorme motivo de orgulho para nós, especialmente porque no caso do evento da Deloitte um dos grandes objetivos era precisamente posicionar a marca na vanguarda da tecnologia e da inovação. A inteligência artificial não foi utilizada apenas como efeito visual ou tendência tecnológica. Foi integrada estrategicamente na construção da narrativa, da experiência e da própria visão de futuro da marca. Hoje, percebemos também que a IA nos permite antecipar muito mais do que imaginávamos. Ajuda-nos a simular comportamentos, testar dinâmicas, prever interações do público e até antecipar determinadas decisões criativas e operacionais antes de o evento acontecer. Isso dá-nos uma nova capacidade de pensar experiências de forma mais inteligente, adaptativa e emocionalmente eficaz. Ainda estamos no início desta transformação, mas já percebemos que o potencial é enorme. Este reconhecimento internacional acaba também por confirmar que estamos na linha da frente a explorar novas possibilidades e a desbravar terreno numa nova geração de eventos e experiências de marca.
Num contexto altamente competitivo a nível internacional, o que significa para uma agência portuguesa ser distinguida ao lado dos principais players globais?
Significa muito. Portugal tem hoje um enorme talento criativo e técnico na área dos eventos e estas distinções ajudam a colocar o país no radar internacional. Este reconhecimento prova também que o impacto de um evento não depende apenas da dimensão do budget, mas sobretudo da força da narrativa, da criatividade e da capacidade de criar experiências emocionalmente relevantes. Muitas vezes trabalhamos com orçamentos inferiores aos grandes mercados internacionais e, mesmo assim, conseguimos criar projetos com enorme impacto e reconhecimento global.
Isso demonstra que estamos preparados não só para receber marcas internacionais em Portugal, mas também para desenvolver projetos lá fora com a mesma qualidade, visão e capacidade de inovação. Existe talento, know-how e uma enorme capacidade de adaptação e criatividade na indústria portuguesa dos eventos. Para nós, este prémio tem também um significado muito coletivo. É um reconhecimento do trabalho das equipas, parceiros, clientes e de toda uma indústria que ao longo dos anos tem vindo a elevar o nível da criatividade e produção nacional. Mostra que conseguimos competir ao lado dos principais players globais mantendo autenticidade, identidade e capacidade de surpreender.
Que tendências considera que vão marcar o futuro dos eventos corporativos e das experiências de marca nos próximos anos?
Acredito que vamos assistir a experiências cada vez mais imersivas, emocionais e hiperpersonalizadas. A tecnologia vai permitir adaptar conteúdos, interações e narrativas quase em tempo real, fazendo com que cada pessoa viva o evento de forma diferente e mais relevante para si. Os eventos vão deixar de ser apenas momentos presenciais para passarem a funcionar também como plataformas de geração de conteúdos e amplificação de mensagem. Cada momento, cada cenário e cada interação será pensado não só para quem está fisicamente presente, mas também para o impacto digital e social que pode gerar antes, durante e depois do evento. Vamos ver eventos desenhados para criar comunidades, conversas e partilha orgânica. O público já não quer apenas assistir. Quer participar, criar conteúdo, sentir-se parte da narrativa e amplificar essa experiência através das suas próprias plataformas. Ao mesmo tempo, acredito que haverá uma procura cada vez maior por autenticidade e ligação humana. Quanto mais digital e automatizado o mundo se torna, mais valor ganham as experiências reais, emocionais e presenciais. Os eventos vão continuar a ser um dos poucos espaços onde marcas e pessoas se conseguem relacionar de forma verdadeira e memorável. A integração entre inteligência artificial, conteúdos generativos, experiências sensoriais e participação ativa será cada vez mais natural. Mas, no final, aquilo que continuará a fazer a diferença será sempre a capacidade de criar emoções, contar histórias relevantes e transformar mensagens em memórias partilhadas.
De que forma é que estes projetos ajudam a reforçar a construção e consistência das marcas dos clientes num contexto de comunicação cada vez mais fragmentado?
Porque transformam mensagens em experiências reais. Hoje as marcas competem pela atenção num ambiente extremamente fragmentado, onde tudo acontece muito rápido.
Os eventos têm a capacidade de criar momentos de foco total, onde as pessoas vivem a marca de forma emocional e imersiva. Isso gera uma ligação muito mais forte e memorável. Quando uma experiência está alinhada com os valores e visão da marca, ajuda a construir consistência, cultura e relevância de uma forma muito mais profunda do que uma comunicação tradicional.
Qual o papel do marketing experiencial na diferenciação de marca e na criação de ligação emocional com os públicos em eventos corporativos?
O marketing experiencial tornou-se uma das ferramentas mais poderosas para criar diferenciação. Hoje já não basta comunicar uma mensagem. As pessoas querem sentir, participar e criar ligação emocional com as marcas. As marcas já não são aquilo que dizem ser. São aquilo que fazem, aquilo que demonstram e a forma como conseguem materializar os seus valores em experiências reais. E é precisamente aí que o marketing experiencial ganha força. Permite transformar posicionamentos em ações concretas, emoções e memórias partilhadas. Nos eventos corporativos isso tornou-se ainda mais relevante porque as empresas perceberam que a cultura também se vive. Não basta falar de inovação, propósito ou pessoas. É preciso criar experiências onde esses valores sejam sentidos de forma verdadeira. Hoje os eventos têm também um papel muito importante na captação e retenção de talento. As novas gerações procuram muito mais do que um emprego. Procuram identificação, pertença, propósito e experiências. O orgulho de fazer parte de uma empresa, de vestir a camisola e de sentir ligação emocional à marca tornou-se um ativo estratégico. Quando uma empresa consegue criar experiências marcantes para os seus colaboradores, parceiros ou comunidades, está a construir cultura, engagement e relação humana. E isso tem um impacto enorme não só na perceção externa da marca, mas também na motivação interna e no sentimento de pertença. No fundo, o marketing experiencial permite que as marcas deixem apenas de comunicar para começarem verdadeiramente a ser vividas. E quando uma marca é vivida de forma emocional e autêntica, cria uma ligação muito mais forte, memorável e duradoura com as pessoas.














