Opinião de Tiago Charrua, CEO da Happy Brands
Vivemos na era da abundância digital. Temos tudo disponível à distância de um clique e, por isso mesmo, somos diariamente bombardeados com milhares de mensagens. Muitas vezes nem precisamos de procurar nada: os conteúdos chegam até nós quase como por magia, como se alguém “adivinhasse” os nossos interesses e necessidades.
Mas será que esta forma de vida hiper conectada a que nos vamos habituando, quase sem dar conta, não nos está a tornar cada vez mais fechados e distantes? O facto de recebermos milhares de estímulos diariamente, não nos está a deixar mais indiferentes?
São várias as pesquisas que comprovam que o cérebro humano não está preparado para processar simultaneamente toda a informação a que estamos expostos e que a capacidade de absorver conhecimento e gerar reflexão é, por isso, cada vez mais reduzida. Uma pessoa é exposta, em média, a mais de 10.000 mensagens publicitárias por dia, das mais variadas formas e nos mais diferentes formatos: telemóveis, redes sociais, streaming, televisão, outdoors… sendo que a nossa capacidade de atenção caiu de 70%, o equivalente a 2 minutos e meio – há 20 anos -, para 45 segundos atualmente, segundo um estudo publicado na revista científica Frontiers in Cognitions. O cérebro humano não evoluiu para processar este volume de informação e como tal, a consequência é clara: estamos cada vez mais informados mas menos atentos. A capacidade de refletir e de criar ligações emocionais profundas com marcas, ideias ou pessoas, está em declínio.
É aqui que entra o grande desafio das marcas nos dias de hoje. Como captar e sobretudo, reter a atenção, num cenário de enorme saturação?
Métodos e métricas tradicionais, baseados em volume e alcance, que eram infalíveis há uns anos, hoje de pouco valem se não conseguirmos o mais básico: ter a atenção do nosso público. “Gritar mais alto” onde todos gritam, é inútil e dizer o mesmo que os outros, mas mais vezes, deixou de ser uma opção. Hoje, o verdadeiro diferencial está em criar significado. As marcas que conseguem gerar emoção e empatia são as que se tornam valiosas e memoráveis… e tudo o resto será ruído. Veja-se o exemplo da Coca-Cola, que em 2025 voltou a apostar em campanhas de personalização e storytelling humano, trazendo a icónica campanha “Share a Coke” de 2011, para a atualidade, à medida que a Geração Z procura conexões autênticas num mundo cada vez mais digital e transformando uma simples garrafa num gesto emocional. Ou da Dove, que com o movimento Beleza Real, construiu um território de autenticidade e autoaceitação, conquistando não apenas a atenção, mas dando origem a uma mudança com impacto social e confiança junto do consumidor.
E é por isso que o papel das agências criativas é mais relevante do que nunca: ajudar a criar um pensamento estratégico que consiga criar laços emocionais genuínos entre marcas e público, compreender o que verdadeiramente toca as pessoas, o que ainda as consegue arrepiar.
Conseguir comunicar com mais intimidade, empatia e coerência, saber escutar e envolver, é a chave para conquistar o bem mais escasso da atualidade: a atenção humana. As marcas que irão ter mais sucesso não serão necessariamente as maiores, ou as que têm o maior orçamento, mas sim as que entenderem o valor da empatia. Não porque gritam muito alto, mas porque são humanas e conversam, que não invadem, mas convidam. As que são responsáveis e coerentes. A atenção é o novo luxo. E como tal, é rara, preciosa e profundamente pessoal. Quem souber utilizá-la com respeito, ganhará algo que nenhuma métrica consegue medir: relevância duradoura.












