O futuro veste-se de história – a tradição e o vintage como resposta à fast fashion

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02/03/2026
20:03
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Opinião de Susana Costa e Silva, diretora do Mestrado em Gestão da Católica Porto Business School

Num mundo descrito como aldeia global, em que a moda standardizada é uma realidade, assiste-se a um fenómeno cultural paradoxal: jovens em todo o mundo redescobrem e reivindicam – com orgulho! – os trajes tradicionais dos seus antepassados. Este movimento, que começou no Japão com o kimono, mas que se estende agora da China à Ucrânia e do Golfo à Europa, não é um mero regresso nostálgico ao passado; é uma reação moderna, complexa e multifacetada contra a homogeneização cultural promovida pela fast-fashion e pela globalização; um ato de afirmação de identidade no século XXI, liderado sobretudo pela geração Z.



Este movimento não é apenas uma moda, mas uma linguagem plena de simbolismo. Em países como o Japão, o “revival” do kimono é liderado por jovens que já não o veem como peça exclusiva para cerimónias, mas como elemento de estilo integrado no quotidiano. Designers têm desenvolvido peças com cortes mais casuais e tecidos sustentáveis como o algodão orgânico, permitindo que o kimono transite entre um evento formal e um passeio informal. Já na China, o movimento Hanfu (vestuário tradicional Han) explodiu na última década, impulsionado pela Geração Z: mais que um estilo, é uma forma de abraçar a cultura tradicional chinesa e expressar confiança cultural. Vídeos com a hashtag #Hanfu têm milhares de visualizações nas redes sociais, transformando um interesse de nicho num fenómeno de massas, com um mercado que se espera que valha mais de 3,8 mil milhões de dólares até 2032 (DataIntelo, 2025).

Nos países do Golfo, o thawb atua como âncora cultural para uma juventude altamente globalizada, reforçando laços intergeracionais num contexto de mudança social vertiginosa. O mesmo se pode dizer do ressurgimento notável do sari entre as jovens indianas que seguem estilistas famosos que o reinventaram; esta peça tornou-se uma afirmação de orgulho cultural, especialmente entre a diáspora. Estes exemplos revelam um denominador comum: para os jovens, vestir a tradição já não é visto como um ato passivo ou conservador. É uma escolha ativa e um ato de comunicação. É uma forma de conciliar herança com modernidade, afirmar singularidade numa cultura de massas e, muitas vezes, fazer uma declaração política silenciosa, mas poderosa.

Mas, e na Europa? Aqui o fenómeno parece, à primeira vista, menos óbvio. Não encontramos um movimento unificado em torno de um único “traje nacional” como no Japão ou na China, por uma razão fundamental: a construção dos estados-nação europeus, ao longo dos séculos, homogeneizou muitas identidades regionais em favor de uma imagem de modernidade que se traduziu na adoção generalizada do traje ocidental standardizado – o fato e o vestido de noite – como uniforme formal. No entanto, longe de estar ausente, o revivalismo têxtil europeu manifesta-se de forma mais fragmentada, profundamente regional e ligada a duas tendências já consolidadas entre a juventude global: a procura pela singularidade através do vintage e do artesanato, e o imperativo da sustentabilidade. Assim, em vez de um renascimento nacional, assistimos ao ressurgimento do orgulho dos trajes e das técnicas regionais.

Os bordados minhotos e as camisolas poveiras, em Portugal; os motivos celtas usados na Galiza; ou a vyshyvanka ucraniana, que ganhou um significado renovado como símbolo de identidade e resistência nacional, são exemplos de como o “local” encontra novas expressões. Estas escolhas não são revivalismos de “um país” no sentido centralizado, mas de “um povo” e de um território, o que, do ponto de vista cultural, é igualmente poderoso. Falamos de um ato de afirmação geracional que se estende a outras manifestações culturais. A este respeito, refiram-se outras formas já implantadas de manifestação de “uniqueness”, como a compra de produtos vintage em mercados de segunda mão. Estas peças, para além de permitirem ao consumidor expressar um estilo individual num mundo repleto de clones, contêm uma forte componente de autenticidade, respondendo a uma procura por produtos com história genuína e circularidade.

A busca pela singularidade num mercado saturado de fast fashion, onde todos vestem as mesmas peças de grandes cadeias, encontra também nos trajes tradicionais e no vintage uma autenticidade inigualável. Cada peça, especialmente se artesanal ou recuperada, conta uma história única. O kimono japonês, o hanfu chinês, o bordado ucraniano ou um simples casaco de burel produzido numa cooperativa da Serra da Estrela oferecem precisamente essa narrativa pessoal e cultural distinta.

Convém lembrar que o interesse por estilos do passado é uma tendência ocidental consolidada, impulsionada pela nostalgia, pela estética e, crucialmente, pela sustentabilidade. O vintage revival é visto como alternativa consciente à moda rápida, pois promove a reutilização e reduz o desperdício, contrariando o ciclo acelerado de produção e descarte que caracteriza a fast fashion. O revivalismo de trajes tradicionais partilha esta vertente ecológica, uma vez que valoriza tecidos naturais, técnicas de produção duradouras e uma mentalidade de consumo mais lenta. Ao escolher uma peça vintage, o consumidor prolonga o seu ciclo de vida; ao adquirir uma peça artesanal de uma comunidade local, valoriza técnicas ancestrais; em ambos os casos a fusão acontece naturalmente: jovens em Tóquio usam kimonos com sneakers; designers europeus incorporam motivos de batik malaio no calçado ou bordados folclóricos em peças contemporâneas; e a moda de rua absorve elementos de todas as culturas, criando uma estética global híbrida, rica e sustentável por dar vida nova a peças antigas. É um movimento menos centralizado, mas igualmente poderoso na afirmação de identidade e resposta aos desafios da globalização. Não devem, portanto, os designers estar desatentos, nem as marcas ignorar esta procura por autenticidade e sustentabilidade como alavancas para a diferenciação e criação de valor.




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