O futuro “não-inventado” é agora!

O IADE foi o pioneiro. Foi a primeira escola de design em Portugal. E isso, por si só, é tudo! Sem o IADE, haveria outro design e não o que temos agora.» É desta forma que Carlos Rosa, director do IADE – Faculdade de Design, Tecnologia e Comunicação da Universidade Europeia, resume a importância que a escola teve, e tem, no panorama do ensino nacional.

Em entrevista, Carlos Rosa aborda o meio século de história do IADE, mas também o presente e o futuro da escola, que pretende alavancar a sua dimensão internacional e reforçar o posicionamento de escola de design e tecnologia criativa. Nesse sentido, tem vindo a adaptar a sua oferta formativa, nomeadamente através do lançamento de cursos em co-criação, mas também da aposta em áreas emergentes, como o desenvolvimento de videojogos ou a comunicação audiovisual.

O IADE foi fundado em 1969 com o nome de Instituto de Arte e Decoração. Em que contexto e com que objectivos foi criado? 

António Quadros, o fundador e ideólogo do IADE, era um homem muito à frente do seu tempo. Criar uma escola de artes, focada nas artes decorativas, no desenho, nas tecnologias dos materiais, na estética e no desenho de projectos, mostra claramente a sua vontade de criar uma escola de design, de artes aplicadas, que nos mostra que esta escola seria, é e continuará a ser um veículo de expressão cultural.

O IADE foi o pioneiro. Foi a primeira escola de design em Portugal. E isso, por si só, é tudo! Sem o IADE, haveria outro design e não o que temos agora em Portugal. Grandes nomes da vida cultural portuguesa dos anos 60 do século XX contribuíram para mudar a forma como Portugal olhava, até então, o design, numa época ainda pouco dada a grandes modernidades, apesar de, em 1969, se auspiciar alguma transformação económica e social e uma liberalização política moderada.

O IADE pautou-se pelo ambiente de diálogo, o humanismo, a inovação e a criatividade, num País que apenas nessa altura começava a olhar para a Europa e a reclamar uma forma de estar diferente. O IADE cresceu à frente do seu tempo e antecipou-se às reais necessidades nacionais.

Como era constituída a oferta formativa do IADE neste período inicial? Que métodos de ensino eram utilizados?

Em 1969, o IADE assumiu, desde logo, o pioneirismo do ensino de Design em Portugal com a criação do curso de “Design de Interiores e Equipamento Geral”, leccionado segundo o modelo anglo-saxónico e de escolas vanguardistas, como a Scuola Politecnica di Design, em Milão. No IADE os alunos tinham, e têm, uma relação muito directa com os professores. Esta relação de proximidade, cumplicidade e partilha ainda hoje se sente no quotidiano da escola, nas paredes, nas pessoas, sendo um dos grandes legados do IADE.

Ao longo destes 50 anos, que impacto é que o IADE tem tido no ensino em Portugal?

A história do ensino do Design em Portugal mistura-se com a história do IADE. São duas histórias que, na verdade, são só uma. Crescem e desenvolvem-se em conjunto. O IADE conta hoje com cerca de 2500 alunos. Quando iniciou, e por ser muito vanguardista, tinha poucas dezenas. Se há 50 anos a cerâmica e as artes decorativas eram o que a sociedade pedia, agora pede-nos desenvolvimento de jogos, design, multimédia. Se se ensinava tecnologia dos materiais, agora também o fazemos, mas adequado ao que o mundo nos solicita. Objectos inteligentes, user-interfaces, novas possibilidades de materiais no design de novos produtos, cruzando diversas áreas científicas que o IADE oferece: design, tecnologia, marketing e comunicação.

Que balanço faz destes 50 anos? Quais os momentos mais marcantes e porquê?

O balanço é claramente positivo, senão não estaríamos a celebrar este ano 50 anos. O meu primeiro destaque vai para a designação. Em 1973, o Ministério da Educação autoriza o IADE a adoptar a designação Escola Internacional de Decoradores, Artistas Gráficos e Designers e a alargar o âmbito do ensino ministrado às Artes Gráficas e Publicitárias e ao Design Gráfico e de Equipamento. Ou seja, é quatro anos depois da sua fundação, e pouco antes da revolução, que o “design” finalmente se afirma como designação, o que não tinha sido possível aquando da criação da escola.

Destaco também os momentos em que o IADE passa a poder atribuir o grau de licenciatura, no início dos anos 90, e quando aprova o Doutoramento em Design, em 2012. Mais recentemente, o destaque vai, por um lado, para a dimensão internacional que cresceu e é um vector de futuro do IADE e, por outro lado, a clara aposta no caminho da tecnologia associada à criatividade, ao design e às artes. E com isso queremos investir na criação de cursos de natureza híbrida no IADE. E já estamos a fazê-lo!

Destaco ainda a UNIDCOM – Unidade de Investigação do IADE, com uma equipa de 40 investigadores, que recebeu recentemente a nota de “Muito Bom” na avaliação realizada pela FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Esta classificação significa o reconhecimento do trabalho realizado nos últimos cinco anos e da relevância do projecto científico apresentado para o novo ciclo.

No âmbito das celebrações, foi criado um novo logótipo. Quais as características e que mensagem pretende transmitir?

A marca celebrativa do 50.º aniversário é, na verdade, uma reinterpretação da primeira marca gráfica que representava e identificava o IADE. É uma forma de nos ligarmos ao nosso legado, olhando para o futuro. A marca é um conjunto de formas que permitem variadas derivações gráficas devido à sua construção modular. E a ideia é mesmo essa: derivações. Derivar, repensar, refazer, reinventar.

O grande objectivo é que o IADE viva pelo menos por mais 50 anos e, para isso, temos que olhar para o mundo e reinventá-lo. Não queremos reagir, queremos agir, definir e ditar as tendências.

Que outras acções foram ou serão ainda realizadas para celebrar o 50.º aniversário?

Tivemos e vamos ter ainda uma série de acções celebrativas. A 21 de Março, dia do IADE, inaugurámos uma exposição retrospectiva sobre a história da escola e, dois dias depois, colocámos nas bancas uma edição especial do “Diário de Notícias” criada por um grupo de alunos e professores. Estamos a publicar livros celebrativos, ora com a história do IADE, ora com reinterpretações gráficas da obra dos fundadores.

Mais recentemente, no Palácio Quintela, antiga sede cultural e local onde o IADE nasceu, inaugurámos a exposição “2069 – A look into the future”, centrada no futuro, onde especulamos sobre as profissões que não existem mas que podem vir a existir, tais como “fusionista”, “biodesigner”, “4D nano-technologist”, entre outras. Vamos ter ainda, no final do ano, um colóquio na Fundação Gulbenkian, que encerrará o ciclo de celebrações destes primeiros 50 anos do IADE.

Como é composta a oferta formativa?

O IADE oferece 11 licenciaturas: três leccionadas integralmente em inglês (Creative Technologies, Design Global e Games and Apps Development), seis licenciaturas leccionadas em português (Design, Marketing e Publicidade, Ciências da Comunicação, Fotografia e Cultura Visual, Engenharia Informática e Informática de Gestão) e duas duplas licenciaturas. Temos sete mestrados, dos quais cinco em Design, cobrindo várias áreas deste campo, um em Publicidade e outro em Comunicação. Oferecemos também o doutoramento em Design, que tem ligação à nossa Unidade de Investigação.

Quais as principais mudanças que identificam nas áreas do Design, Marketing, Publicidade e Comunicação?

O mundo do trabalho está a mudar. O IADE tenta inovar à velocidade que o mundo precisa dessa inovação. E temos conseguido! Muitas vezes abrindo caminho – tanto que fomos os primeiros a abrir a licenciatura em Creative Technologies em Portugal, da mesma forma que abrimos Design de Interacção primeiro que todas as universidades do País.

Mas isso não chega. A inovação no IADE passa por apostar também em novos modelos de ensino. O modelo de ensino em co-criação é claramente o que diferencia o IADE. Aulas que cruzam cursos e unidades curriculares em projectos comuns, onde a maior parte são leccionadas em ambiente laboratorial, professores e estudantes que partilham projectos em ambiente extracurricular, na Fábrica (veja caixa), o nosso novo modelo de ligação ao sector empresarial.

Quais as expectativas e objectivos do IADE para este ano?

Este ano será parte de um caminho para um futuro que se adivinha promissor. Mais inovação, mais crescimento, mais reputação. Gosto de dizer que “o futuro não-inventado é agora”, o que nos posiciona em áreas de fronteira, de cruzamento de conteúdos, projectando e adivinhando o que aí vem, antecipando o futuro da criatividade. Estas possibilidades são reforçadas com as novas áreas do IADE, as das tecnologias criativas, as do desenvolvimento de jogos, as da comunicação audiovisual e multimédia e as novas e promissoras áreas do design. Da mesma forma como escrevemos os últimos 50 anos do design e da criatividade em Portugal, queremos nos próximos 50 escrever o futuro da criatividade na Europa.

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