Há histórias do automobilismo que parecem ter ficado presas no tempo. É o caso do Riviera F.1 170, um monolugar italiano concebido para disputar o Campeonato do Mundo de Fórmula 1 de 1980, mas que nunca chegou a alinhar num Grande Prémio. Quarenta e cinco anos depois de ter sido projetado, o carro vai finalmente poder ser visto em pista no Estoril Classics, entre 18 e 20 de Setembro.
A história começou em 1979, quando Alberto Colombo, piloto de Fórmula 2 natural de Varedo, procurava concretizar a ambição de chegar à Fórmula 1. Depois de passagens pela ATS e pela Merzario, encontrou na região de Brianza o apoio financeiro necessário para tentar criar uma equipa italiana independente.
Assim nasceu a Riviera F.1, projeto que pretendia enfrentar o Campeonato do Mundo com uma estrutura pequena, mas com ambições de grande dimensão. A responsabilidade técnica ficou entregue ao engenheiro Giorgio Valentini, com experiência na Autodelta e responsável pelo projeto do Merzario A3 de 1979 e, posteriormente, do Osella FA1C.
Durante cerca de 1200 horas de trabalho, Valentini e o seu assistente Savoldelli desenvolveram o Riviera F.1 170, um monolugar de efeito de solo equipado com um motor Ford Cosworth DFV V8. O projecto ficou documentado em dez volumosas pastas de desenhos, enquanto o monocoque foi construído pela britânica Thompson e as suspensões pela Preatoni, em Novara.
Por trás da iniciativa estava Paolo Barzaghi, empresário da indústria têxtil e principal impulsionador financeiro, acompanhado por Enrico Bogani, Riccardo Miani e Giacinto Facchetti, antigo capitão do Inter de Milão. Com sede em Milão e estrutura operacional em Varedo, a Riviera tinha ainda a Le Coq Sportif como principal patrocinador.
O plano passava por levar Colombo a quatro Grandes Prémios em 1980: Itália, França, Inglaterra e Alemanha.
Um Fórmula 1 que ficou parado
A construção avançou, incluindo com material adquirido à equipa de Willi Kauhsen, que entretanto tinha abandonado a Fórmula 1. O Riviera, contudo, era um projecto novo, construído de raiz, tendo aproveitado apenas alguns componentes desse material.
A equipa chegou a reunir quatro motores Cosworth DFV e, no início de 1980, o monolugar estava finalmente montado. Mas os problemas financeiros acabariam por travar o sonho. O carro estava cerca de 20 quilos acima do peso pretendido e o orçamento previsto, inicialmente de cerca de 600 milhões de liras, já tinha duplicado.
Para garantir uma presença competitiva durante todo o Campeonato do Mundo seriam necessários cerca de dez mil milhões de liras, o equivalente hoje a aproximadamente 29,4 milhões de euros.
Ainda houve uma tentativa de salvar o projeto. Bernie Ecclestone analisou os desenhos e a estrutura financeira da Riviera durante uma reunião no Hotel Principe di Savoia, em Milão. Havia interesse, mas as condições exigiam um compromisso para todo o campeonato, garantias de continuidade e um empenhamento competitivo durante três anos.
O acordo não avançou.
O Riviera F.1 170 estava construído, mas nunca chegou a disputar um Grande Prémio. Durante décadas, permaneceu praticamente esquecido, transformando-se num dos projetos mais curiosos e misteriosos da história da Fórmula 1.
45 anos depois, finalmente em pista
A história ganhou um novo capítulo em 2020, quando uma reportagem da revista italiana Autosprint voltou a despertar o interesse pelo projeto. Em 2025, o empresário e piloto de monolugares históricos Marco Fumagalli encontrou a carroçaria original num armazém prestes a ser demolido. Com ela estavam também os desenhos originais de Giorgio Valentini.
Fumagalli juntou-se a Massimo Pollini, especialista na recuperação de automóveis de competição históricos, e iniciou um processo de recuperação que devolveu forma e identidade ao monolugar concebido em 1980.
O momento decisivo aconteceu a 18 de Novembro de 2025, no circuito de Cremona, perto de Milão. Ao volante, Marco Fumagalli realizou quatro sessões e completou 15 voltas. Pela primeira vez, o Riviera F.1 170 percorreu uma pista.
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“É um ‘wing-car’ e nunca tinha conduzido um carro deste tipo, apenas tinha feito algumas voltas ao volante dos carros de amigos. Utilizei o meu Riviera num teste longo e posso dizer que, nas curvas, é mais rápido quando o comparo com os meus Theodore ou Ensign. O cockpit é mais pequeno, mas todos estes ‘wing-cars’ têm este pequeno problema”, explica o piloto.
Fumagalli sentiu também, finalmente, o efeito de solo para o qual o carro tinha sido concebido. “Senti o efeito de solo durante a primeira volta do teste em Cremona, no Inverno de 2025, no final da reta. O carro estava muito próximo do chão e, nas boxes, está cinco centímetros mais alto”, recorda.
O próximo capítulo é no Estoril
É esta história improvável que o Riviera F.1 170 vai levar ao Estoril Classics. O carro não regressa à competição — afinal, nunca chegou a competir —, mas será apresentado como testemunho de um projeto que nasceu com a ambição de chegar à Fórmula 1, ficou parado antes de concretizar esse sonho e só 45 anos depois conheceu uma pista.
Entre 18 e 20 de Setembro, no Autódromo do Estoril, os visitantes poderão assim conhecer de perto um dos capítulos mais invulgares da história da Fórmula 1 e ver o monolugar que passou décadas entre desenhos, armazéns e memórias antes de finalmente ganhar vida.
Os bilhetes para o Estoril Classics 2026 já estão à venda, tendo sido entretanto entregues mais de 50% dos ingressos disponíveis. O acesso é gratuito até aos 15 anos, desde que acompanhados por um adulto, até ao limite de duas crianças ou jovens por adulto. O estacionamento no parque de terra é gratuito, sujeito à disponibilidade, e a bancada da reta da meta tem acesso livre para todos os espectadores.












