O Food Love Fest, criado e desenvolvido pela Amuse Bouche, tem vindo a afirmar-se como uma das plataformas mais relevantes na valorização da gastronomia do Alentejo e do Ribatejo, ao cruzar território, cultura e experiência gastronómica num formato itinerante e profundamente ligado às comunidades locais. Mais do que um festival, é hoje um projeto de curadoria e construção de narrativa gastronómica, que procura dar visibilidade a chefs, produtores e tradições, ao mesmo tempo que reforça a identidade e o potencial turístico da região.
Por Sandra M. Pinto
Em entrevista à Marketeer, Ana Músico, fundadora e CEO da Amuse Bouche, explica como o festival evoluiu para uma fase de maior maturidade e impacto, em que o foco já não está apenas na programação de eventos, mas na criação de experiências mais consistentes, autênticas e transformadoras. Fala ainda sobre o novo formato desta edição, o papel da curadoria, a importância da ligação ao território e os desafios de gerir um projeto de dimensão regional com ambição nacional e internacional. Uma conversa sobre gastronomia, identidade e estratégia e sobre como o Food Love Fest está a ajudar a redefinir a forma como se vive e comunica a cozinha em Portugal.
O Food Love Fest tem vindo a afirmar-se como uma plataforma de valorização da gastronomia do Alentejo e Ribatejo. Como é que define o momento atual do festival?
Estamos num momento de afirmação madura. O festival já tem reconhecimento e credibilidade, e isso permite-nos agora trabalhar com mais
profundidade: menos sobre “mostrar” e mais sobre criar impacto real, tanto no território como na forma como a gastronomia é percecionada.
Tem sido também fundamental o compromisso da Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo, liderada por José Santos, em assumir a gastronomia como um eixo estratégico para o desenvolvimento e projeção do território.
Esta edição apresenta um novo formato. O que muda na experiência para chefs, produtores e público?
Mudámos o ritmo e a escala. Passámos de muitos eventos para menos momentos, mais densos e mais bem construídos. Os chefs cozinham juntos, os produtores estão mais integrados e o público tem uma experiência mais livre, sem percursos fechados, sem obrigação de seguir um guião. É mais espontâneo, mais vivo, mais próximo daquilo que queremos que seja a gastronomia.
De que forma este novo modelo reforça a ligação entre gastronomia, território e turismo?
Porque obriga a abrandar e a olhar. As pessoas não vão só comer, vão estar no lugar, perceber o produto, falar com quem o faz. Isso cria ligação emocional e memória, que é o que verdadeiramente sustenta o turismo.
O festival é conhecido por ser itinerante e descentralizado. Que importância tem este fator na sua identidade?
É estrutural. O Alentejo e o Ribatejo não se explicam a partir de um único ponto: fazem-se de muitas geografias, muitas culturas, muitas formas de viver e cozinhar. A itinerância permite-nos mostrar essa diversidade sem a simplificar. E ao mesmo tempo leva o festival a públicos que normalmente ficam fora deste tipo de iniciativas, o que é fundamental para criar verdadeira cultura gastronómica.
Como é feita a curadoria dos chefs e produtores que participam em cada edição?
É um trabalho muito criterioso. Procuramos qualidade, claro, mas também identidade e ligação ao território. Há hoje um enorme talento no Alentejo e no Ribatejo – de chefs mais consolidados a uma nova geração muito interessante -, e o nosso papel é dar espaço a essa diversidade, sem cair em escolhas óbvias ou repetitivas. O mesmo com os produtores: queremos pessoas que tenham um discurso, um projeto, uma forma própria de fazer.
O que representa o cruzamento entre chefs consagrados e novas gerações neste contexto?
É uma das coisas mais interessantes do festival. Não é só equilíbrio, é troca real. Há respeito, mas também há confronto, energia, curiosidade. E isso gera coisas inesperadas, tanto na cozinha como na relação entre eles. O público sente isso imediatamente.
O Food Love Fest envolve dezenas de localidades e experiências ao longo da região. Qual tem sido o maior desafio logístico e criativo desta dimensão?
Gerir complexidade sem perder coerência. Cada lugar tem as suas condições, os seus ritmos, a sua identidade. O desafio é construir uma experiência consistente sem apagar essas diferenças — e isso exige muito trabalho de produção, mas também muita sensibilidade criativa.
Que impacto concreto o festival tem tido na promoção dos produtores locais do Alentejo e Ribatejo?
Tem impacto porque os coloca no centro. Não estão ali como complemento, fazem parte da experiência, são apresentados, valorizados, trabalhados pelos chefs. E isso cria ligações diretas, não só com o público, mas também dentro do próprio setor.
O que diferencia o Food Love Fest de outros festivais gastronómicos em Portugal?
A forma como olha para a gastronomia. Não como entretenimento isolado, mas como expressão de território, cultura e comunidade. E isso muda tudo – da curadoria à forma como o público participa.
De que forma o projeto evoluiu desde a primeira edição até hoje, em termos de conceito e ambição?
Ficou mais claro e mais exigente. No início havia mais experimentação; hoje há uma visão mais definida e uma ambição maior, não de escala, mas de relevância.
Que papel tem a Amuse Bouche enquanto agência criadora e curadora do festival?
A Amuse Bouche está na origem do Food Love Fest e isso define muito do nosso papel: não estamos apenas a produzir, estamos a construir. Pensamos o conceito, fazemos a curadoria, acompanhamos a execução e garantimos que há uma linha clara do início ao fim. Trabalhamos há cerca de 10 anos a gastronomia do Alentejo, conhecemos o território por dentro e temos vindo a criar projetos que, de formas diferentes, ajudaram a mudar o panorama gastronómico em Portugal. No fundo, só fazemos o que sentimos que é realmente relevante, e o Food Love Fest é isso mesmo: um projeto com identidade, com intenção e com impacto.
Como é que o Food Love Fest é trabalhado em termos de marca e posicionamento, tendo em conta a sua dimensão territorial e cultural?
O Food Love Fest é uma marca com raiz, mas com ambição. Não queríamos um festival institucional nem previsível, queríamos algo contemporâneo, desejável, com linguagem própria. O desafio está em equilibrar essa ambição com a autenticidade do território: respeitar o Alentejo e o Ribatejo sem os tornar pesados ou estereotipados. A gastronomia é hoje um dos veículos de comunicação mais poderosos – é emocional, sensorial e agregadora – e isso permite construir uma marca rica, com várias camadas e com um enorme potencial para parceiros que queiram estar associados a um projeto com conteúdo, contexto e relevância.
Que estratégia de marketing e comunicação têm seguido para reforçar a notoriedade do festival junto de públicos mais amplos e também turísticos?
A nossa estratégia passa mais por construir desejo do que por comunicar informação. Trabalhamos conteúdos, histórias, pessoas e lugares, damos contexto ao festival em vez de o tratar como um simples calendário de eventos. Apostamos em imprensa, meios digitais e parcerias que acrescentem valor e credibilidade, e não apenas alcance. E depois há uma vantagem clara: a gastronomia permite cruzar turismo, cultura, lifestyle e produto de forma natural. É um território de comunicação muito fértil — e quando bem trabalhado, fala para públicos muito diferentes sem perder profundidade.
De que forma a marca Food Love Fest equilibra autenticidade territorial com uma ambição de crescimento e maior projeção nacional (ou internacional)?
Mantendo o foco no território. Se isso estiver garantido, o crescimento acontece de forma natural e sustentada. Se se perde isso, perde-se o projeto.
O Food Love Fest integra uma visão mais alargada de storytelling gastronómico. Como é que isso se traduz na experiência do público?
Para nós, não é só storytelling, é sobretudo criação de cultura gastronómica. Passa por dar acesso, aproximar pessoas, criar momentos de partilha real. O festival traduz essa visão ao colocar lado a lado chefs, produtores e público, sem barreiras, e ao tornar a gastronomia mais aberta e mais participada.
Que próximos passos imagina para o festival nos próximos anos — expansão, internacionalização ou novos formatos?
Consolidar este modelo e aprofundar o impacto, em estreita articulação com a Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo. Depois, sim, pode haver espaço para crescer ou explorar outros formatos, mas sempre com critério. Mais do que crescer depressa, interessa-nos crescer bem.
Ao longo do dia, diferentes duplas de chefs cozinham em vários pontos da herdade, criando uma experiência contínua e informal. Há pratos feitos em fogo de chão, outros em fornos antigos, cozinhas montadas ao ar livre e comida a sair de forma constante: quente, direta e sem formalidades.
Informação prática
Datas: 18 e 19 de abril
Local: Ode Winery e Fita Preta
Bilhetes: www.foodlovefest.pt














