A Gucci está a vender novos modelos de ténis com a etiqueta “Made in China”, numa mudança que rompe com a forte associação da marca italiana à produção em Itália e está a gerar debate em torno do posicionamento do luxo.
O principal exemplo é o modelo Drip, apresentado como os primeiros ténis criada por Demna para a Gucci. De design sem atacadores e com uma silhueta próxima de uma meia, o modelo integra a coleção Primavera e tem um preço de cerca de 800 euros na Europa e 1000 dólares nos Estados Unidos.
Um segundo modelo slip-on em pele da mesma coleção também surge identificado como produzido na China. Segundo a Gucci, a decisão está relacionada com as características técnicas dos modelos e com a escolha de um fabricante que dispõe das competências necessárias para cumprir os padrões de qualidade e desempenho definidos pela marca.
A empresa garante, contudo, que Itália continuará no centro do seu modelo de produção e da identidade da Gucci e que não existe um plano mais amplo para transferir a produção para fora do país. A Kering, grupo que detém a Gucci, voltou a reforçar esta posição no final de setembro, afirmando que a Itália continua a ser um dos pilares da estratégia industrial do grupo.
A decisão surge numa altura particularmente exigente para a Gucci. As vendas da marca caíram para cerca de metade nos últimos três anos, num contexto que levou a Kering a implementar medidas para recuperar quota de mercado, incluindo alterações de preços em alguns produtos.
A questão coloca-se, por isso, também ao nível do valor percebido no luxo: para alguns analistas, a utilização da indicação “Made in China” pode criar tensão com a imagem de exclusividade e com a importância histórica atribuída à produção italiana. Ao mesmo tempo, a indústria chinesa de calçado tem vindo a desenvolver competências tecnológicas utilizadas também por marcas premium.
Para a Gucci, a aposta representa uma exceção dentro da estratégia de produção, mas coloca em evidência uma questão cada vez mais relevante para o setor: num mercado de luxo, até que ponto o local de fabrico continua a fazer parte do valor da marca?












