Não podemos cair na tentação de diminuir o nível de qualidade para reduzir os custos.» Quem o defende é Jorge Leitão, o actual responsável pela Leitão & Irmão, a empresa fundada em 1822 no Porto e cuja história se confunde com a própria história da joalharia e da ourivesaria de Portugal, ou não tivessem sido considerados os joalheiros da coroa portuguesa.
No podcast Marcas com Marca, Jorge Leitão partilha mais. Ele que, com cerca de 20 anos e um conhecimento que ia pouco além de barcos, se viu à frente da empresa criada pela família mas que, na altura, estava fora dela, depois de ter entrado em falência por altura do 25 de Abril: «Só sabia de barcos. Mas o meu pai pediu-me para voltar e vim. Tive que perceber o que era uma manufactura de ourivesaria e joalharia e aprender. (…) A primeira decisão foi arranjar meios financeiros para comprar matérias-primas!» Agora, diz que o mais difícil é ter fluxo de receitas superior ao das despesas, não cair na tentação de diminuir a qualidade, manter a modernidade e ir buscar ideias novas onde não é suposto ir. Ou não tivesse a Leitão & Irmão trabalhado sempre em jeito de parceria com artistas como Salvador Dalí ou Bordallo Pinheiro. «Procuramos sempre outra visão», diz, enquanto recorda: «A nossa função foi sempre representar o País em prata e ouro. Temos peças de ourivesaria um pouco por todo o mundo, que foram levadas por quem nos representa, entre reis a presidentes da República.»
Esta é, de facto, uma história com muitas histórias. Se tivesse que identificar alguns dos momentos mais relevantes, mais importantes de toda esta caminhada que tem 203 anos, quais é que seriam?
É muito fácil. Mas antes de lhe dizer porquê, gostava de referir que os momentos importantes da vida da empresa passaram sempre pela representação do País em prata e em ouro. Foi sempre essa a nossa função. Fizemos troféus para os reis oferecerem, de representação do País fora de Portugal, para oferecer para o jubileu do Papa… Enfim, fizemos peças de ourivesaria um pouco para todo o mundo, e foram levadas por quem nos representa, sejam reis, presidentes da República, sejam primeiros-ministros. …
como as jóias da rainha D. Amélia, por exemplo!
Essas foram mandadas fazer pelo rei D. Luís para a família real e para o seu filho, o futuro rei D. Carlos, dar à futura rainha de Portugal, D. Amélia, última rainha de Portugal.
Tem quatro filhos, cinco netos… Gosta de lhes contar estas histórias, de passar a história para a outra geração e, também, a quem trabalha consigo?
Gosto de passar essa história. E, já que se trata de contar histórias, aproveito para partilhar qual é a peça excepcional da Casa Leitão que está acima de qualquer outra: é a coroa de Nossa Senhora de Fátima. Porquê? Porque é um presente oferecido pelas mulheres de Portugal a Nossa Senhora, em 1942, e feita pela Casa Leitão só com as jóias que foram oferecidas a Nossa Senhora, sendo que o nosso trabalho foi também oferecido.
Depois existe também uma outra história fantástica que lhe está associada. A coroa de Nossa Senhora de Fátima tem oito hastes que fecham em cima, porque é uma coroa de alguém que é soberano. Em 1981, no Vaticano, o Papa João Paulo II, hoje São João Paulo II, foi atingido por uma bala num atentado e ofereceu a bala a Fátima, porque entendeu que foi salvo por Nossa Senhora. Num determinado local da coroa, feita em 1942, já havia um orifício, que tem o exacto calibre da bala, e esta seria lá colocada. Ainda hoje lá se encontra.
Que conclusão se pode tirar daqui? Que a Casa Leitão trabalha muito bem, pois já tinha previsto o lugar para a bala…
Viu esta marca, esta empresa, passar de geração em geração. Mas viu também o seu pai perdê-la, na altura do 25 de Abril. Sabia que iria ter que a recuperar? Ou que, mais tarde ou mais cedo, iria ter que fazer todo este processo de recuperação da empresa? De a voltar a trazer para a família?
Não sabia. Não ligava nada ao assunto quando era miúdo. Sempre ouvi falar na Casa Leitão, sempre tive um certo gosto, introduzido pelo meu pai.
Em 1981, passeava de barco à vela nas Caraíbas e o meu pai disse-me para voltar que isto tinha acabado tudo. Voltei, faz 45 anos, e ainda cá estou. Se eu contava fazer isso? Claramente não, não contava.
O que é que o levou a fazê-lo?
As pessoas. Ver a quantidade de pessoas na fábrica que tinham particular simpatia pela marca, e que não tinham direcção, e ver que esta iria acabar. Havia uma pessoa em particular, o Sr. Jeremias, que foi criado na nossa casa e que me dizia: «Menino Jorge, isto vai acabar, porque é que o menino não vem tomar conta disto?» Eu fui. Sabia de barcos só.
Recorda-se o que é que teve que fazer inicialmente? Como é que foi todo este processo até agora? Hoje já está a consolidar a marca e a olhar para o futuro, mas o que é que teve que fazer até chegar aqui?
Foi uma miríade de coisas. Tive que perceber o que é que era uma manufactura de ourivesaria e de joalharia, embora ouvisse falar nisso desde miúdo. E fui aprendendo com alguma facilidade, porque as pessoas que lá estavam queriam que eu aprendesse. O nosso fundidor, o Sr. Paulino, aos 90 anos ia para a oficina todos os dias. Apesar de já não trabalhar, ia todos os dias de manhã à oficina. Cresci neste ambiente de pessoas. E a aprender a fazer tudo.
Quando chegou à empresa, teve que garantir que, pelo menos, os níveis de qualidade e os de design, tudo isso se mantinha, como antigamente. Qual foi a sua primeira decisão?
A minha primeira decisão foi arranjar meios financeiros para comprar matérias-primas. Tive muitos apoios de diferentes banqueiros que conheciam a marca e que tinham alguma simpatia por um miúdo que queria pegar numa empresa. Os primeiros tempos não foram fáceis. Hoje, também continuam a não ser.
Mas porquê? O que é que identificaria como sendo mais difícil na gestão desta casa?
Ter a dimensão suficiente para crescer. Ter o fluxo de receitas que seja maior do que o de despesas. Penso que isso é comum a qualquer empresa. Mas há que ter esse cuidado. Não cair na tentação de diminuir a qualidade para baixar o nível de custo. Manter sempre a modernidade. Ir buscar ideias novas, coisas novas, a sítios onde não é suposto ir, para que, de facto, seja sempre novidade. Trabalharam connosco nomes como Rafael Bordallo Pinheiro, René Lalique, Salvador Dalí, enfim, uma série de pessoas de outras artes que trouxeram para a ourivesaria e para a joalharia uma outra visão. E nós procuramos sempre essa outra visão.
Essas parcerias e trabalhos conjuntos com figuras como Lalique ou Bordallo Pinheiro foram fundamentais também para a notoriedade da marca e para a construir, como foi acontecendo ao longo dos anos?
Penso que foram fundamentais para que a marca se destaque e que tenha qualquer coisa de novo para oferecer. Não só a quem trabalha lá, porque se entusiasmam em fazer coisas novas, mas também a quem adquire as nossas coisas, porque compra, com um nível de excelência, algo que realmente é novo. Lembro-me aqui de um livro do Astérix, em que uma menina romana foi à aldeia onde havia um ferreiro a fazer antiguidades novas. De facto, nós fazemos hoje o que serão os clássicos de amanhã. E isso precisa de excelência no design, na manufactura e nas matérias-primas.
Ou seja, este tipo de parcerias é para manter?
Estas parcerias são o nosso oxigénio, aquilo que nos faz andar para a frente. Temos 200 anos, temos gosto nisso, mas isso só serve de lastro para saber fazer.
São 20 artesãos que trabalham na Leitão & Irmão…
Somos 40 e poucas pessoas. Cerca de 20 na manufactura e as restantes 20 naquilo que não é manufactura, nas lojas, no marketing, na parte financeira.
Lojas essas que estão em Lisboa, Cascais, sendo que uma das grandes apostas é a loja online!
Sim, em Lisboa, Cascais e no mundo. É uma presença da Casa Leitão no mundo e tem efeitos muito engraçados. Tivemos um senhor italiano que passou à porta, viu uma peça bonita, grande, diferente, cara, custaria 20 e tal mil euros. Entrou, olhou para a peça, perguntou quanto era. E foi dentro da loja, à internet, ver quem nós éramos. Comprou a peça e mandou entregar em Itália. Uma loja online não é um catálogo onde se compra. É uma presença online que também tem loja. Aqui tem um exemplo que não está contabilizado quando digo que não se paga a si próprio.
Refere, muitas vezes, a qualidade das matérias-primas. Manteve sempre os mesmos fornecedores?
Alguns sim. Outros não, porque tudo isso evolui. As pedras preciosas evoluem. O ouro e a prata não. Mas nós fazemos a nossa própria liga. Compramos o ouro e a prata no estado puro, no detalhe, no estado purificado e fazemos em casa a liga, a fundição. Sabemos exactamente aquilo que temos de entregar ao cliente.
De resto, fazem peças à medida do pedido do cliente. Houve alguma encomenda que o tenha surpreendido até hoje?
Houve uma que me surpreendeu, de um governante nosso que nos pediu uma quantidade de Meninos Jesus para dar no Natal. E eu disse que não fazia. Porquê? Porque acho que não faz sentido, não encontrei sentido nisso. Enfim, as pessoas têm ideias curiosas.
A maioria dos vossos clientes são empresas, instituições, governos?
Temos de tudo, governos, pessoas, instituições, empresas. Temos todo o género de clientes.
Quantas peças é que consegue entregar por mês?
Por mês, não sei dizer de forma precisa, mas fazemos talvez 30 mil peças por ano.
Também reaproveitam os materiais que sobram!
Desde sempre que a ideia da reciclagem existe, não na Casa Leitão, mas em qualquer casa que trabalhe na indústria de joalharia, porque a matéria é muito cara, portanto, trabalha-se para dentro de uma gaveta e, ao fim do dia, recolhe-se os pós e as limalhas, que algum tempo depois são refundidos na oficina e reaproveitados. O mesmo acontece com os pós de polir, assim como com a roupa, que ao fim de algum tempo também acaba por ser reaproveitada. Tudo é reaproveitado, porque tudo deita ouro e prata.
Diz que nunca imaginou vir para esta casa. E os seus filhos?
Gostava de manter a casa em família, de a passar à próxima geração? Gostava que a casa seguisse para a próxima geração. Teria, aliás, muita pena que isso não acontecesse. Não tem que ser com os meus filhos e os meus netos, mas seria a cereja em cima do bolo. O que realmente gostava é que esta casa seguisse para a geração seguinte, como disse. Isto é, para a geração seguinte de pessoas. Quem é, não sei dizer. Quanto à Casa Leitão, o que quero é que continue.
Até quando se vê à frente da Casa Leitão?
Tenho 66 anos. Faço 67 em Junho e vejo-me até aos 70. É um limite razoável.
Nestes próximos quatro anos irá ter algum trabalho para assegurar essa sucessão?
Sim, é isso que eu pretendo que aconteça nestes quatro ou cinco anos.
E como é que irá garantir que os valores da empresa, os valores desta marca com 200 anos, todos os trabalhos, todo o conceito, toda a história, se mantêm para além de si?
O que se mantém é o que tem valor. Diria que é o certo e que quem lá ficar não queira retirar valor ao local onde está.
Como é que os portugueses vêem hoje esta marca? Há conhecimento, de facto, da sua história? De que é uma casa com 200 anos, que já fez tudo, que já foram os joalheiros da coroa…
Penso que não. Penso que esse conhecimento, de facto, interrompeu- se num dado momento. E custa muito tempo voltar a ligá-las, às interrupções. É o que neste momento está a acontecer…
Ou seja, é um trabalho que neste momento tem estado a tentar fazer… a recuperar a memória.
Recuperar a memória com a acção do presente. Não é recuperar a memória apenas e só por aquilo que a memória foi, mas pela força que isso tem no presente. Não é dizer fizemos coisas fantásticas. Fazemos coisas muito boas – não quero dizer fantásticas –, e temos um passado que nos leva aonde estamos hoje. Mas é o presente que agora nos interessa.
Qual diria que é o seu grande sonho para todo este projecto de vida?
Que ele continue. Não faz sentido que a Casa Leitão & Irmão não continue. A verdade é que não há muitas empresas que tenham 200 e poucos anos. Na Europa ainda há algumas, mas onde há mais é no Japão, porque lá houve sempre continuidade. Nunca se quebrou nada. Nunca se revolucionou nada. Tiveram uma guerra, perderam uma guerra, mas continuou o imperador. A linha condutora continuou. Uma empresa com 200 anos, que foi durante esses 200 anos pagadora de impostos, rentável, não consumidora de subsídios, é um bem que deve continuar. E, além disso, que faz peças que estão presentes em todo o mundo.
Continua a ir todos os dias à empresa. Interfere no desenho das peças?
Estou lá há 45 anos. Ao fim de tantos anos, há uma facilidade em ver, não de qualquer particular qualidade, mas da experiência acontecida. A experiência ganha é mais difícil, a experiência acontecida é inevitável, está-se lá.
Como é que marca a Casa Leitão?
Com a qualidade do que faz, com a facilidade de ser ouro e prata, que é perene e que daqui 100 anos está igual. Aquilo que fizemos há 200 anos hoje está bom e daqui a 200 anos está bom na mesma. Como é feito com grande qualidade, tem um conceito por trás e é original. Não é cópia de nada do que outros fazem. Isso não tem marca, não perdura no tempo. O que fazemos é nosso, é desenhado por nós, o conceito é nosso, é manufacturado por nós e corremos o risco de o pôr à venda e de viver disso. Portanto, tem de ser necessariamente bom, senão ninguém compra. Hoje, concorremos com um automóvel, uma viagem a Cancún, concorremos com tudo aquilo que é atractivo para o consumo. Portanto, se alguém compra uma peça nossa, o que posso dizer que acontece todos os dias, é necessariamente um motivo de grande alegria.
Quantos desenhos originais é que tem a Casa Leitão?
Temos o gosto de ter, na generosidade da Fundação Gulbenkian, o nosso arquivo lá preservado. E penso que são perto de 58 mil peças. E tudo isso está preservado, porque tudo isso tem qualidade.
E várias vezes voltam aos arquivos?
Várias vezes, naturalmente.
Por pedidos de fora? Por decisão interna?
Por inspiração, e porque diria que a moda, a arte, são circulares. O que acontece hoje, daqui uns tempos volta a acontecer. Estamos a chegar aos anos 30 outra vez, com a Arte Nova. A Arte Nova de repente está outra vez na moda. Nós temos milhares de desenhos de Arte Nova. O meu avô estudou em Paris e trouxe para Portugal a Arte Nova que existia lá e que foi introduzida em Portugal pela joalharia e, não, pela arquitectura.














