Nove meses com as hormonas a comandar o corpo

É geralmente aceite que gravidez significa um estado hormonal particular. Criam-se piadas à volta do tema, brinca-se sobre o tema e estas alterações são na sua maioria compreendidas e bem aceites…  

Mas será mesmo assim? As hormonas justificarão mesmo estas e outras alterações? Sublinho que as alterações são mesmo marcadas: o estradiol (o estrogénio principal na mulher não grávida) aumentará cerca de trinta vezes; o estriol (que se torna o estrogénio principal na gravidez) aumenta mil e quinhentas vezes; a progesterona estará com uma concentração quinze vezes superior ao habitual, já para não falar num incremento significativo de alguns corticosteróides. Vamos fazer uma visita guiada pelos vários órgãos e sistemas da grávida e ver que impacto terão as hormonas em cada área.

Náuseas e vómitos

Na gravidez há um aumento exponencial da concentração de estrogénios e progesterona produzidos pela mãe, surgem ainda outras hormonas produzidas pela placenta, como a HcG (hormona coriónica humana) e a hormona lactogénea placentar e também aumenta a leptina, prolactina, tiroxina e hormonas adrenocorticais. Culpabilizou-se a HcG pelo aparecimento das náuseas e vómitos, mas a progesterona não será, porém, isenta de responsabilidades nem possivelmente esta elevada concentração de hormonas. Sabemos que a progesterona tem efeitos sobre os órgãos ocos como o tracto gastrointestinal, promovendo o relaxamento desses órgãos, o atraso no seu esvaziamento, diminuição da motilidade, pelo que os alimentos persistem mais tempo no estômago, refluem com maior facilidade por um esófago que tem também o seu esfíncter mais relaxado. O mal-estar que estes efeitos causam, o refluxo, a azia, podem por sua vez ampliar o desconforto da náusea. Por outro lado, nas gravidezes que cursam com maior produção de HcG, como as gemelares ou aquelas em que acontece o que chamamos patologia do trofoblasto, as queixas relacionadas com náuseas e vómitos estão muito exageradas, pelo que se reconhece o papel desta hormona. Também ao longo da gravidez a produção desta hormona vai diminuindo, o que explicaria a melhoria dos sintomas ao longo do tempo. Por que será que algumas mulheres ficam grávidas e não chegam nunca a saber o que é uma náusea? Essa é uma questão que permanece sem resposta, mas diria que têm alguma forma de resistência a algumas acções das hormonas.

Alterações do trânsito gastrointestinal

Já vimos que a progesterona relaxa o intestino, atrasando a digestão, a progressão do trânsito intestinal, causando desta forma obstipação. Esta é uma queixa muito frequente e, uma vez que as hormonas aqui atrapalham, há que contrariar os seus efeitos, apostando mais em medidas dietéticas correctoras.

Sono

A natureza zela pela sobrevivência das espécies e isso passa por proteger a gravidez inicial. A sensação de sono no primeiro trimestre relaciona-se também com o efeito da progesterona e é uma forma de reduzir a actividade materna. Porém, dormir mais não significará dormir melhor e acordar com mais energia.

Pele

Ficar com borbulhas e mais pêlo não será apenas uma partida do bebé, sobretudo se for menina, porque dizem os antigos que “rouba a beleza da mãe”. Trata-se mesmo de uma dermatite seborreica, em maior ou menor grau conforme a sensibilidade da mãe às hormonas, e que resulta em alguma manifestação acneica e aumento do pêlo. Manter a pele sempre limpa, evitando “entupir” os poros com bases e depilar-se com alguma regularidade (não usando a depilação química) e acreditar que os incómodos pêlos acabarão por desaparecer de novo no fim da gravidez são as melhores atitudes para lidar com esta “desregulação”.

Também a linha negra, uma coloração escura que surge na linha média do abdómen, tem a ver com o estímulo hormonal sobre os melanócitos, as células da pele que produzem melanina. A ACTH, hormona que comanda a produção de corticosteróides pelas glândulas suprarrenais e que está também aumentada, tem igualmente um papel na formação da melanina, sendo mais um factor predisponente para alterações como o cloasma ou pano – “manchas” com mais coloração que surgem com alguma frequência na pele da cara da grávida.

As estrias são talvez uma das marcas mais temidas deixadas pelas hormonas sobre a pele e devem-se sobretudo à acção dos corticosteróides. Estes causam rotura da rede de colagénio, a rede de suporte da pele, levando ao aparecimento das depressões lineares avermelhadas no abdómen, ancas, nádegas e coxas e, ocasionalmente, no peito.

Edemas e varizes

As paredes dos vasos sanguíneos, à semelhança da parede do intestino, relaxam também como resposta à acção da progesterona, dificultando a progressão da coluna de sangue que as percorre. O aumento da pressão dessa coluna causa dilatação do vaso (quando em maior grau, causa a variz) e porque a parede está também mais permeável ocorre passagem de algum do líquido para fora do vaso, causando edema. O mesmo mecanismo explica o aparecimento das hemorróidas, que mais não são do que varizes dos vasos do ânus; o aumento da pressão intra-abdominal, com o aumento do volume uterino e do peso do seu conteúdo também são factores que concorrem para o aparecimento destes problemas.

Aparecem também com frequência pequenos vasos sanguíneos à superfície da pele, sobretudo nas pernas e coxas. O seu nome científico é telangiectasias (aranhas vasculares) e são pequenos vasos sanguíneos superficiais que se dispõem com uma forma radiária e que como efeito desta vez dos estrogénios e da hormona lactogénea placentar apresentam dilatação superficial; outra manifestação deste fenómeno é o eritema da palma das mãos, que ocorre em dois terços das grávidas. Estas alterações desaparecerão, em grande parte, uma vez terminada a gravidez.

Sangramento das gengivas

Também aqui as hormonas têm algo a dizer: a gengivite da grávida acontece porque os estrogénios estimulam a dilatação dos vasos capilares da mucosa gengival. Esta fica com uma aparência inchada, mais vermelha e sangra facilmente quando lava os dentes. Apesar desta aparente fragilidade, a grávida não deve deixar de usar o fio dentário para garantir uma boa higiene.

Articulações

É comum na gravidez vermos as grávidas queixarem-se de dores “ósseas”, da coluna, do cóccix, e mais uma vez em grande parte teremos a acção das hormonas por trás. Na Natureza tudo tem um objectivo, pelo que não é por acaso que têm dor. O que acontece é que a progesterona torna as articulações mais móveis: estas ficam com as suas estruturas mais embebidas em líquido, os ligamentos mais laxos, o que lhes confere maior amplitude de movimentos… mas também alguma dor. O aumento da mobilidade de articulações como a sínfise púbica permite conseguir um pouco mais de espaço no diâmetro da bacia, facilitando a progressão do bebé no parto. Essa mobilidade também beneficiará o cóccix permitindo que este tenha um movimento de retropulsão, ou seja, que se afaste mais para trás, cedendo mais um centímetro ao canal de parto. Está tudo pensado… e o benefício final ultrapassa largamente os desconfortos, que serão transitórios.

Corrimento vaginal

Estrogénios e progesterona têm acções concertadas sobre as glândulas do colo e do tracto genital inferior: os primeiros estimulam as glândulas do tracto genital inferior (colo e vagina) que respondem produzindo muito mais secreções, a progesterona torna o muco cervical mais espessado (formando o rolhão mucoso). Como o metabolismo está aumentado e as células têm um ciclo de vida mais rápido, as células das camadas superficiais do revestimento da vagina renovam-se com mais rapidez, descamando as “velhas” e misturando-se com as secreções. Forma-se assim o “corrimento”, que se torna abundante, branco, por vezes ligeiramente amarelado, do qual a grávida muitas vezes reclama, mas que desde que não cause desconforto com prurido, ardor ou um cheiro desagradável, não necessita de qualquer cuidado especial.

Outros efeitos…

Embora a maior parte dos efeitos das hormonas na gravidez pareça estar associada a desconfortos, já vimos que a maioria tem a ver com a adaptação à gravidez e a desencadear mecanismos que façam com que a gravidez evolua bem e o parto seja facilitado. A Natureza dota ainda a grávida de algo que a ajude a suportar todos esses desconfortos com alguma tolerância e até boa disposição. Esse “algo” é mais uma hormona: a ocitocina! Esta é uma hormona que proporciona bem-estar, tolerância, empatia com os que a rodeiam, sendo chamada a hormona do amor! Armazenada e libertada pela neuro-hipófise, é uma hormona com um papel muito específico sobre órgãos alvo directamente relacionados com a gravidez e aleitamento, mas tem também acção sobre o comportamento humano. É também produzida pelo feto desde as 10-12 semanas e está envolvida na auto-regulação do líquido amniótico nos primeiros tempos. No útero, está associada à resposta contráctil e pensa-se que está implicada nos mecanismos desencadeantes do trabalho de parto. No pós-parto a sua acção é fundamental na prevenção de hemorragias: mantendo as contracções uterinas, e com isso “apertando” as aberturas dos vasos sanguíneos (que ficam a sangrar no local onde estava implantada a placenta), evita-se desta forma que se perpetue a hemorragia.

São, assim, nove meses em que o organismo materno coloca as glândulas a funcionar com a missão de bem servir mãe e filho, para que a gravidez chegue a bom porto, com mais ou menos desconfortos, mas com um bebé saudável!

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº4 de Junho de 2018.

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