Natal todos os dias, a todas as horas

Imagine isto: tem 5 anos, está deitado quentinho na sua cama de criança, mas acordado há muito tempo, porque sabe que é manhã de Natal e isso significa presentes para abrir, desejos para realizar e, sim, o ocasional par de cuecas ou de peúgas. Veja-se a correr para a árvore, a agarrar a primeira caixa e a rasgar rapidamente o embrulho. Pare e sinta o que sentia: antecipação, euforia, felicidade e a necessidade premente de repetir o processo agarrando e rasgando o próximo embrulho e assim sucessivamente até à pergunta fatal “não há mais?”.
Em termos simples de comportamento humano é mais ou menos esta a forma como actualmente consumimos conteúdos. Conteúdos publicitários, conteúdos de media, conteúdos de moda… O tempo de vida útil das coisas que neste instante consideramos muito importantes e entusiasmantes é cada vez mais diminuto. A excitação que senti ao ver o último anúncio da Honda feito em stop motion esta semana em que escrevo, vai estar completamente dissolvida nesta semana em que me lêem.
As excelentes séries de televisão de que gostamos são consumidas de enfiada (não sei traduzir binge watching), umas atrás das outras, e, se conseguimos ainda repetir cenas inteiras de “Seinfeld”, não sei se conseguiremos fazer o mesmo com frases de “House of Cards” ou de “Breaking Bad”. As colecções de moda que antes seguiam as estações do ano produzem-se agora ao ritmo de um El Niño permanente.

Queremos passar ao próximo presente, ao próximo stunt, ao próximo trend, tão depressa quanto possível porque o fascínio está mais na novidade e menos na coisa em si. Na conversa à mesa do café ganha quem estiver mais à frente no rol de novidades e não tanto quem tem um ponto de vista interessante e pensado sobre a dita coisa. Claro que as redes sociais são parte do vortex.
Experimentem passar um dia sem rede e vão ver que se sentem tão desactualizados, como se voltassem de 1985 num DeLorean. As histórias que perderam, os comentários que não fizeram, a opinião desinformada que não deram. Outcasts é como nos sentimos. Dizem que o tempo de vida de um post no Facebook é de 3 a 5 horas, de um tweet de 18 minutos, de uma imagem no Instagram de uma a duas horas, e depois há o Snapchat… exactamente: ou viste ou já foste.
Ao contrário do que pode parecer não há neste arrazoado nenhum julgamento de valor, nenhum “dantes é que era, agora ninguém dá valor a nada”. Há apenas a constatação de factos da vida. E a vida agora anda muito depressa e nós ansiamos pelo próximo embrulho, e pelo próximo e pelo próximo e o melhor de tudo é que ao contrário da manhã de Natal, haverá sempre um próximo. É por isso que, caras marcas, a mesmice, a permanência, os direitos para três anos e as músicas da marca parecem aos consumidores de hoje “tão 1995”.

Texto Judite Mota

Directora criativa Young & Rubicam Redcell

Fotografia  Paulo Alexandrino

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