Nascer saudável

Entrevista a Sandra Oliveira | Fundadora do Bionascimento e doula certificada pela DONA International

Por Sandra M. Pinto

Nem tudo pode ser natural, nem tudo tem que ser intervencionado

É importante encontrar o ponto de equilíbrio entre o que é possível ser natural, e a necessidade de intervenção. Isto mesmo defende, em entrevista, Sandra Oliveira, fundadora do Bionascimento, filosofia que procura contribuir exactamente para este ponto de equilíbrio.

Qual a filosofia em que assenta o conceito Bionascimento?

O Bionascimento surge inspirado numa analogia feita no livro de Michel Odent “The Farmer and the Obstetrician”, um dos livros que mais me marcou neste meu percurso. Concordo que os erros que o homem tem cometido, no que toca à produção alimentar, estão a ser cometidos na obstetrícia. A busca incessante pela eficiência, sem medir e estudar as consequências na saúde, tem levado a um excesso de intervenções, cujos alguns dos efeitos já são conhecidos, mas muitos estão ainda por se conhecer. É importante encontrar o ponto de equilíbrio entre o que é possível ser natural, e a necessidade de intervenção, com todos os recursos excelentes que se têm descoberto. O Bionascimento procura contribuir exactamente para este ponto de equilíbrio. Nem tudo pode ser natural, nem tudo tem que ser intervencionado.

O que é e o que faz a Cochrane Collaboration e qual a sua importância no desenvolvimento do seu trabalho?

A Biblioteca Cochrane foi talvez uma das maiores descobertas que fiz aos 33 anos. Perguntei várias vezes a mim mesma: “Por que é que isto não se ensina nas escolas?” A Biblioteca Cochrane é a maior e mais fidedigna fonte de informação na área da saúde. Na Cochrane são identificados os melhores estudos existentes, ou a ausência deles, para uma determinada questão de saúde, feitas as chamadas revisões sistemáticas, ou seja, reunida toda essa informação e tratada, de forma a ser obtida uma conclusão. Com base nestas revisões podemos obter o melhor conhecimento científico existente para basear a prática clínica, ou seja, nos cuidados baseados em evidências, conceito nascido da expressão inglesa.

O que é uma doula?

A doula presta apoio emocional, físico e informativo de uma-para-uma, na gravidez, parto e pós-parto. No parto, o apoio contínuo que caracteriza a figura da doula é das revisões mais antigas da Biblioteca Cochrane. Sabe-se que diminui as intervenções desnecessárias, contribui para a satisfação com a experiência de parto, melhora também a experiência da amamentação e reduz a incidência de depressão pós-parto. Os meus 13 anos, como profissional e voluntária a prestar este apoio, confirmam o que os estudos nos dizem sobre o papel da doula. É um apoio social que é fulcral recuperar.

Gravidez não é doença, costuma ouvir dizer-se. Mas quais as fragilidades clínicas que uma gravidez pode acarretar?

Conseguirmos engravidar de forma espontânea é, sem dúvida, um sinal de saúde que qualquer mulher que queira ser mãe gosta de viver. É uma “prova” de que o nosso corpo está pronto a cumprir a sua missão reprodutora. No entanto, o facto de conseguirmos engravidar deveria implicar uma protecção na saúde da mulher grávida, que em Portugal é pre-ciso melhorar. Prova disso são os nossos números de partos prematuros. No universo dos mamíferos, as fragilidades das grávidas humanas conseguem-se perceber pelo nosso tipo de placenta, que, entre a mulher e o bebé, dá sempre prioridade ao bebé. Ou seja, o bebé consegue ir buscar ao corpo da mãe tudo o que precisa, mesmo que isso possa colocar a saúde da mãe ou dos dois em causa. Socialmente exige-se de mais das mulheres grávidas, na incessante busca da “igualdade”, quando neste foro não existe igualdade possível. Por isso, para mim, “gravidez não é doença” é uma frase que se tem vindo a revelar perigosa, pela forma como depois é aplicada na sociedade moderna.

Há, de facto, uma comunicação entre as necessidades da mãe e do feto?

Não tenho dúvidas disso. Só que com mulheres tão activas, tão pouco disponíveis para escutar e sentirem os seus corpos e bebés, essa comunicação, muitas vezes, quando surge, já é em forma de alerta patológico, quando muitas vezes seria evitável, como podemos observar noutros países.

Podemos então afirmar que a boa nutrição é o alicerce fundamental de uma boa gravidez?

Sem dúvida. Somos muito o que comemos, e numa gravidez esta máxima é ainda mais importante, como facilmente se consegue perceber porquê.

Assim, que conselhos pode dar a uma grávida para que esta tenha uma gravidez mais feliz?

Simples, que se preocupem com a sua nutrição, e que incluam um nutricionista de referência e com experiência na área da gravidez no seu roteiro de consultas.

Neste âmbito, tanto o ambiente profissional como familiar desempenham um papel importante?

Os bebés nascem numa determinada hora e dia, mas têm para trás meses de registo de hábitos, sons, rotinas, etc. Tudo o que as mães fazem e recebem chega aos bebés, tudo.

O que é a epigenética?

É uma ramificação da biologia que procura explicar aquilo que a genética não consegue. Somos muito mais que genética, e é isso mesmo que a epigenética procura estudar e provar.

De uma forma prática como pode a epigenética ajudar a uma gravidez ainda mais saudável?

Tomando consciência da importância que tem na vida do ser que está a gerar, e nas gerações seguintes. Como refere o geneticista Marcus Pembrey, «talvez nos tornemos menos egoístas nos nossos hábitos, e tenhamos presente que o que somos e fazemos terá repercussões não só nos nossos filhos, mas também nos nossos netos».

É de facto importante fazer uma preparação para o parto? Porquê?

Depende. Considero importante acima de tudo estar-se consciente e informado. De que forma cada um opta por consegui-lo, isso é uma questão de escolha pessoal. Quando optam pela preparação para o parto é importante procurar saber se estão perante informação actual ou não. Felizmente já temos em vários pontos do país locais de preparação para o parto, com profissionais alinhados com o que são boas práticas. Mas muitos ainda estão a fazer esse percurso. Há que saber escolher.

Quando é que a mulher grávida se sente verdadeiramente mãe? Tal só acontece depois do parto?

Claro que isso varia muito de mulher para mulher. Mas da minha experiência pessoal, e que coincide com a maioria das mulheres com quem me cruzo, no primeiro filho há  uma inconsciência que muitas vezes só termina no momento do parto. Fala-se da “grávida”, e pouco do “bebé”. A mulher grávida, principalmente do primeiro filho, muitas vezes é necessário ajudá-la a tomar consciência do quanto já é mãe. Tem sido muito gratificante fazer esse trabalho com as mulheres, e assistir à diferença.

Ou seja, há uma mulher antes e uma mulher depois de ter sido mãe?

Sem dúvida. Sou suspeita. A experiência da maternidade marca a vida de uma mulher como nenhuma outra. O nosso corpo alimenta outro, predispõe-se a dar a vida por outro, fica invadido de marcas que são impossíveis de esquecer, porque surgiram. Isto da igualdade é muito bonito, mas quem corre risco de vida quando se gera um filho é a mulher, aí não há igualdade possível. Como é que uma experiência como essa não nos há-de marcar biologicamente para sempre?

O que é e como se lida com uma gravidez triste?

A tristeza é como é. Não se escolhe, bate-nos à porta muitas vezes sem aviso. Lidar com uma gravidez triste é estar em constante conflito connosco próprias. Há que acolher a tristeza como algo natural, senti-la, chorá-la, permitir ser apoiada é importante. Acima de tudo, sou da opinião que a tristeza, como tudo, deve ser vivida com muita verdade com o bebé que carregamos no nosso ventre. Falar com ele sobre o que se sente.

Qual o objectivo principal do livro “Nascer Saudável”?

Informar, gerar consciência e mudar mentalidades. O que felizmente está a conseguir. No livro o leitor encontra informação actualizada e partilhas práticas que lhe irão permitir ter um melhor conhecimento do que são boas práticas, e estar minimamente apto a identificar procedimentos desnecessários, ou que deveriam de todo ser abolidos. Esta obra pretende gerar cidadãos mais responsáveis numa fase tão importante como a do nascimento de um filho.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº3 de Março de 2018.

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