“Não temos limite para o crescimento”

enric-casiJá está em 107 mercados. Mas quer reforçar mais a sua posição, com novos pontos de venda, e duplicar os resultados nos próximos quatro anos. Conheça a estratégia do director-geral da Mango.

Texto de M.ª João Vieira Pinto

Está na Mango praticamente desde o seu início. Acompanhou o desenvolvimento do conceito, as primeiras lojas, as primeiras vendas. Director-geral desde 1996, Enric Casi vive, respira, transpira Mango. Os seus valores, o seu ADN.

Com uma figura aparentemente calma, percebe-se o engano quando Enric Casi começa a falar. Pela velocidade com que os seus pensamentos discorrem, pela rapidez com que conta estratégias e planos.

Com o fundador e presidente a optar pela sombra, é sempre Enric Casi quem dá a cara e a voz pela Mango, seja em conferências de imprensa ou apresentações. Percebe-se que não receie fazê-lo. Além de conhecer a companhia como ninguém, o ritmo de crescimento que tem ajudado a imprimir é motivo de orgulho. E não quer ficar por aqui. Como revela à Marketeer, sentado à sua secretária no amplo e luminoso gabinete na sede da Mango, em Barcelona, o objectivo é «vender o dobro nos próximos quatro anos». E, confessa mesmo, com um sorriso plácido por trás de uns óculos mínimos que fazem já parte da sua marca: «Não temos limite para o crescimento.»

Marketeer: Está com a Mango quase desde o início. Como era a marca então e como a vê hoje?

Enric Casi: Em 1973 abrimos a primeira loja no Passeio da Graça. Antes, a actividade de Isaac Andic – o presidente e fundador da companhia – já consistia na venda de roupa. Vendia várias marcas, desde umas consolidadas já, como a Levis, a outras não conhecidas. Algumas que trazia de Istambul, a sua cidade natal, e outras da Índia.

Como as vendas corriam bem, pensámos que era importante pensar numa loja com marca e com conceito. Em 1984 abrimos então a primeira loja Mango. No início era uma marca, como muitas naquela época, com jeans e roupa casual. Esta é uma grande diferença. Hoje, temos uma parte importante da colecção com roupa sofisticada, para sair à noite, para ir a eventos. E esta é uma linha que se tem vindo a intensificar.

Marketeer: Qual é a sua ambição para a marca?

Enric Casi: Estávamo-nos a tornar um pouco elitistas. Havia pessoas que só procuravam a Mango quando precisavam de comprar alguma coisa para ir a eventos, o que se estava a tornar complicado e poderia condenar a marca. O que queremos é que a Mango seja cada vez mais para o dia-a-dia. Que seja vista como uma marca com produtos para todas as ocasiões.

Marketeer: Isso não mudará o tipo de clientes?

Enric Casi: Não. O que mudará será a frequência. Até agora, havia muitos consumidores que iam às nossas lojas quando precisavam de comprar um produto mais sofisticado, mas que compravam a roupa do dia-a-dia noutras lojas. O que queremos é que percebam e saibam que também a temos. Por isso hoje temos um espaço maior para produtos casual e uma área mais pequena para produtos ocasionais. E o que é facto é que estamos a vender muito mais.

Marketeer: Também o ano passado iniciaram uma estratégia de preço mais agressiva!

Enric Casi: Temos preços mais baixos porque também temos outro tipo de produtos, mais baratos. O que nós vimos foi que mesmo muitas pessoas que trabalhavam na Mango não vestiam Mango. Hoje já o podem fazer. Esta é uma das evoluções mais visíveis.

Além disso, o que anunciámos foi que, de facto, fizemos algum esforço para flexibilizar mais os preços na última estação e conseguir uma redução de 20%. Esta colecção de roupa do dia-a-dia ajuda-nos a fazê-lo, até pelo facto de o produto base sair mais barato para nós.

Marketeer: Essa estratégia reflectiu-se nas vendas!

Enric Casi: É verdade. Neste mês de Março vendemos 40% acima (em valor) quando comparado com o mês de Março do ano passado, a nível mundial. Em Espanha, estamos cerca de 30% acima. Esta é a tendência que conseguimos com a nova colecção, que as vendas continuem a subir.

Marketeer: A Mango prevê abrir este ano entre 400 e 500 lojas, distribuídas entre espaços próprios e corners em centros comerciais. Em que ponto está este processo de expansão?

Enric Casi: A ideia inicial era chegar a esse número. Não estamos muito longe, apesar de ainda ser cedo para avaliar o processo de expansão. Mas acelerámos o ritmo de aberturas anuais – de 380 para 644 pontos de venda. Este ano vamos entrar em países como o Paquistão, Angola ou Mongólia. Desde o início do ano já abrimos mais de 80.

Estamos a concentrar esforços na China e na Rússia, dois mercados que estão a crescer muito. Na Rússia abrimos 24 lojas em 2011, em cidades como Moscovo ou S. Petersburgo. No total, temos 93 lojas com uma superfície total de vendas de 24 600 metros quadrados, além de que a loja online mango.com está disponível para o mercado russo desde Setembro de 2010. Já na China, tínhamos aberto 77 pontos de venda em 2010 e mais 100 em 2011.

Marketeer: De facto, desde o ano passado que afirmam o interesse pela China e pela Rússia. Quanto é que valem no total do negócio?

Enric Casi: Não é difícil abrir lojas na China. A minha previsão é que iremos abrir entre 200 a 300, nos próximos cinco anos. Mas os mercados principais da marca continuam a ser Espanha, Turquia, França, Alemanha… Espanha representa 18%. Esta é uma fasquia que queremos que baixe até ficar nos 10%.

Estamos a trabalhar para isso, para o conseguir a quatro anos se, conforme as nossas previsões, conseguirmos multiplicar a facturação por dois nesse mesmo período.

Marketeer: Para isso será também relevante a entrada em novos mercados?

Enric Casi: Não será fácil entrar em novos mercados. Já estamos em 107 países com 2415 lojas. O que vamos é procurar intensificar mais num ou noutro mercado. Não há muitos mercados novos. Os países onde abrimos em 2011, por exemplo – como Bermudas, Guadalupe, Mónaco ou Camboja -, são pequenos, pouco representativos.

Marketeer: Tem vindo a investir muito no online. Quanto representa já no total de facturação e que evolução tem registado?

Enric Casi: Sim, a marca irá investir cada vez mais nos suportes digitais. Em três anos, a loja online deverá chegar aos 7% da facturação. Que é o Top, o máximo conseguido até hoje no retalho online. Além da nossa própria loja, também temos corners em outras lojas, como as das Asus.

As vendas online da empresa, em 2010, atingiram os 21 milhões de euros, o que reflectiu um crescimento de 80% face ao ano anterior. Os utilizadores são maioritariamente da Europa, EUA, Canadá, Japão, Coreia, Turquia, China e Rússia.

Marketeer: A marca é vista sempre da mesma forma, nos diferentes mercados?

Enric Casi: A marca tem vindo a mudar. Queremos dar uma imagem de produtos mais acessíveis. E essa é uma imagem global, cada vez mais. Porque são produtos com design, de moda, com bom desempenho. Acredito que a nossa imagem é a mesma nos diferentes mercados onde estamos.

Marketeer: Apesar de ter produtos diferentes para mercados diferentes?

Enric Casi: Mas é muito pouco. São sobretudo produtos que vão para o Médio Oriente. Aí, por exemplo, as lojas não têm vestiários, só têm os produtos em exposição. As mulheres compram a roupa, levam-na para casa e só então é que a experimentam. A moda é o que tem mais importância, sobre os costumes, a tradição. Por isso, apesar de fazermos alguns produtos locais, estes acabam por não ser muitos. Ainda no que toca ao Médio Oriente, só um máximo de 20% é que será local.

Marketeer: Recentemente foi lançado um novo conceito, a Mango Touch. Qual o objectivo?

Enric Casi: É verdade que podíamos vender os acessórios na loja, mas só quando o ponto de venda é grande. Quando é pequeno, o que estava a acontecer é que não havia espaço para eles. Pareceu-nos que não devíamos perder todo esse potencial em termos de design. Os acessórios representam cerca de 15%, no total de vendas da Mango.

Além disso, quisemos aproveitar espaços mais pequenos que tínhamos em localizações que eram importantes. Eram espaços pequenos para a Mango – onde já não cabia a nossa colecção total de roupa – mas com a área suficiente para a Touch. E as lojas Touch podem chegar ainda a outros consumidores que não vão a lojas Mango (além de que uma parte da colecção só está à venda aqui).

Já temos 27 lojas Touch. Em Portugal só abrimos a segunda no final de Março.

Marketeer: A insígnia tem em construção um parque logístico em Lliçà d’Amunt, Barcelona, onde prevê investir 360 milhões de euros. O que é que ganhará?

Enric Casi: É precisamente uma infra-estrutura que ajudará ao crescimento da marca. Só com este parque logístico é que conseguiremos responder ao dobro das lojas e duplicar a facturação. O parque actual – e que dá resposta às lojas de todo o mundo – já não é suficiente. Calculamos que em meados de 2015 teremos que estar em Lliçà. Faz parte dos nossos planos de crescimento.

Marketeer: Houve algum momento que tenha sido determinante no percurso da empresa?

Enric Casi: Creio que este ano é muito importante. O ano passado investimos muito em corners, e agora já estamos a colher os frutos, bem como os resultados de uma colecção mais adequada.

Outro período importante foi entre 1995 e 2000. Porque foram anos de fortes resultados para o grupo e em que se investiu muito na expansão. Fizemos um plano intensificado de expansão.

Marketeer: Este é um novo ciclo da marca?

Enric Casi: Não é propriamente um novo ciclo. Foram várias as circunstâncias que ditaram as mudanças. Em 2000 crescemos muito em número de lojas, investimos no lançamento de produtos e na entrada em mercados. Agora, acreditamos que nos próximos anos vamos continuar com um índice de crescimento elevado.

Marketeer: Ao contrário da também espanhola Zara, a Mango tem vindo a investir fortemente em publicidade e embaixadoras da marca. Que retorno tem conseguido?

Enric Casi: Investimos 4% da facturação em publicidade. Mas são claramente estratégias diferentes. Temos que comunicar o que fazemos e a imagem do que fazemos nem sempre é comunicada pela mesma pessoa, pela mesma celebridade. Nunca quisemos identificar a marca só com uma pessoa, por isso é que vamos mudando. Queremos passar uma imagem diversificada que mostre que a marca pode chegar a públicos diferentes. O que é importante é o produto. É importante que ele saia destacado e esse é um dos motivos por que recorremos a celebridades.

Marketeer: Não acredita na estratégia de comunicação da Zara?

Enric Casi: O que acredito é que se queremos vender marca, temos que a publicitar. Porque a Zara não tem marca. A Zara vende preço. Nós temos mais uma estratégia de comunicação de marca. Insistimos em comunicar marca e imagem, como em t-shirts, por exemplo. A Zara não faz isso.

Marketeer: E esta estratégia de ter uma embaixadora começou há anos…

Enric Casi: Desde o início. Já tivemos Claudia Schiffer, Naomi Campbell, as principais top models, mas também caras menos conhecidas.

Marketeer: Mas são importantes para afirmar a marca a nível mundial e para a ajudar a entrar em novos mercados?

Enric Casi: O que nos faz entrar em novos mercados é o encontrar, ou não, um local onde entendemos que temos que estar.

Marketeer: Como é desenhada a planificação de abertura de espaços?

Enric Casi: Neste momento é difícil. Com a crise, conseguimos encontrar oportunidades de espaços, até nos Champs Elysées… Ou seja, se encontramos um, que faz sentido em termos de localização e tráfego, abrimos. É um processo sempre em aberto. Nunca fazemos ao contrário, porque entendemos que seria muito mais limitativo.

Marketeer: Como é gerida toda a cadeia de produção? Além das quatro estações anuais, têm depois lançamentos intermédios.

Enric Casi: Sim, são lançamentos intermédios do que começa a ser mais pedido pelos clientes. O que procuramos, sempre, é responder o mais possível às tendências, e por vezes lançar produtos que não estavam considerados inicialmente, mas que começaram a ser procurados nas lojas. Há produtos básicos, como os jeans, que fabricamos na China e com muito tempo de antecedência; alguns, com quatro ou até cinco meses de antecedência.

Depois, os itens que são mais moda são fabricados mais em cima da estação. E há alguns que são fabricados mesmo durante a estação. Se vemos que há alguma coisa que não estava na nossa colecção, mas que faz parte das tendências de moda, avançamos com o seu fabrico.

Temos a CAD (célula autónoma de desenho) que se responsabiliza pelas colecções especiais. Actualmente, a CAD divide as colecções especiais em diferentes secções. A de países frios adapta-se às zonas onde as condições climatéricas requerem roupas mais quentes e de um tamanho especial. Nos países asiáticos, o principal interesse reside em adaptar os seus desenhos à estatura média dos habitantes.

Depois, há ainda uma colecção especial para países mais quentes, cujos materiais e a sua composição se destacam pela leveza. Um quarto e último grupo é formado pelos países árabes, onde os desenhadores se concentram em encontrar alternativas para substituir as tradicionais abayas com desenhos, além de que não colocam decotes, alargam as saias e desenham uma colecção especial de acessórios. Mas sempre sem esquecer o conceito Mango. Dos 4000 modelos que se criam para cada colecção, o departamento de colecções especiais desenha 20% desse total.

Marketeer: Quanto tempo demora entre o desenho de colecção e a sua colocação nos milhares de pontos de venda?

Enric Casi: É muito difícil dizer isso. Quando temos os tecidos, é rápido, entre duas a três semanas. Se não o temos, pode chegar aos três meses. O que acontece é que há muitos gestores de tecido por todo o mundo, pelo que o que se pode fazer é comprar o tecido e fazer com que fique imediatamente operacional.

Há diferentes tempos para cada parte da colecção mas, no geral, diríamos que entre dois a seis meses. O trabalho de investigação é feito pela equipa de Design. Parte desta investigação resulta de uma análise e de um filtro do que se está a passar nas ruas; às mudanças de comportamento do consumidor, às tribos urbanas, street-art, música… Cada ano lançamos cerca de duas mil referências, organizadas em quatro grandes colecções.

Mas, além disso, estão constantemente a sair novos produtos, que chamamos “new arrival” ou “reprise”. 80% do total da colecção é desenhado com, pelo menos, seis meses de antecedência. E os restantes 20% são o que chamamos New Arrival ou colecções entre temporada, que já está a conseguir um bom resultado. Esta última parte da colecção pode ser feita em cerca de quatro semanas.

Depois, toda a cadeia logística foi desenhada pela Mango. Trata-se de um sistema logístico e informático, que cruza velocidade, informação e tecnologia. Compramos e adaptamos as últimas tecnologias às nossas instalações, o que nos permite, actualmente, classificar e distribuir 30 mil peças por hora.

Marketeer: Depois das recentes mudanças, quem é hoje a mulher Mango?

Enric Casi: De uma forma geral, quem compra Mango fá-lo porque gosta da marca e dos seus produtos. Pode ser uma mulher com 40 anos, em forma, e que veste bem Mango. Não tem idade, apesar de a maior parte dos nossos clientes ter entre 25 e 30 anos. O objectivo é alargá-lo.

Marketeer: Mango ajudou de alguma forma Espanha a afirmar-se como um país de moda?

Enric Casi: Talvez tenhamos ajudado. Mas é um segmento muito pequeno da moda.

Marketeer: E, por outro lado, qual foi a importância da marca Espanha?

Enric Casi: Creio que não tem muita importância. Há muita gente que não sabe onde é Espanha. Será que em Portugal, em Inglaterra ou na China as pessoas sabem que a Mango é espanhola? Creio que não. O que é facto é que pouco o comunicamos Colocamos, sim, o nome de Barcelona.

Além disso, o que se passa é que em alguns países a marca Mango já estava registada e por isso tivemos que utilizar MNG. O que não é a mesma coisa nem identifica directamente a marca como sendo Mango, de Barcelona.

Não penso que tenha tido qualquer repercussão. Nem a favor nem contra. Mas ao saberem que somos espanhóis – e por uma questão de sinergias com outras marcas -, muitos fornecedores abrem-nos mais facilmente as portas.

Quanto ao consumidor, não é relevante. Se fosse no segmento de alta costura, talvez. Como acontece com Itália. Espanha não é moda. Aliás, Espanha não se especializou em nada em particular e faz de tudo um pouco. Espanha não se identifica com um sector. Espanha não é marca. É uma diversidade de muitas coisas. Mango é uma marca mediterrânica, de moda, vanguardista. Por vezes, é mais fácil identificar uma cidade que um País. É o que acontece em França. Paris é que é sinónimo de moda.

Marketeer: O que é que ainda gostava de conquistar para a marca?

Enric Casi: Vender o dobro nos próximos quatro anos. A curto prazo, continuar a crescer. Não temos limite para o crescimento. O mundo é muito grande. O Grupo Inditex é maior que o nosso. Nós ainda temos espaço. Na Alemanha queremos ter 500 lojas. Em França, temos 150; podemos ter 400!

Marketeer: É impressionante como os valores e o ADN da companhia estão expostos, em todos os corredores, em todas as salas. É assim tão importante estar sempre a comunicá-los?

Enric Casi: É o que nos orienta. É algo imaterial, uma meta. Nunca se alcançam os valores, mas tentamos, sempre. O que queremos é que quem trabalha na Mango respeite os valores da empresa. Cada um é livre, mas, cá dentro, deve seguir os valores da companhia.

Perfil de Euric Casi Brunsó

Nasceu em Barcelona, em 1956. Começou a trabalhar ainda jovem, em acumulação com os estudos. Assim que concluiu o curso de Ciências Empresariais na Universidad de Barcelona entrou, após concurso, no Instituto de Auditores-Censores Jurados de Cuentas de España e no Registro Oficial de Auditores de Cuentas (R.O.A.C).

Aos 23 anos passou para a Auren Uditors-Consultors, tendo começado a colaborar como consultor, a partir de 1983, na Mango. De forma progressiva foi desenvolvendo algumas funções executivas, chegando a director-geral em 1996.

Nos bastidores do 2.º maior exportador de moda

Isaac Andic e o irmão sempre tiveram espírito empreendedor. E isso está bem patente na Mango, desde 1983. Confira o que se passa, hoje, nos bastidores do grupo que já saiu da sombra da Inditex.

11h00 da manhã, arredores de Barcelona, sede da Mango. Melhor: chegada a um dos dois hangares com cerca de 13 mil m2 cada e que funcionam como quartel-general da marca. À entrada, nada faz prever que se está a entrar no coração de uma das marcas de fast fashion mais vendidas a nível mundial. Tirando a dimensão gigantesca do espaço, tudo o resto é sóbrio e pontuado por dezenas de obras de arte. Nos corredores, quase infinitos, poucos colaboradores, poucas vozes, mas muitos quadros e fotografias, ou não fosse Isaac Andic – fundador da marca – um dos maiores coleccionadores de Espanha.

A imagem muda de forma radical quando se entra numa das salas. Seja na de costura, onde se fazem as primeiras provas, ou na de design. Aqui, um batalhão de 200 designers traduz para o papel as últimas tendências em “high-street comercial” – o posicionamento assumido pela Mango -, que serão depois replicadas em tecidos.

No total, no edifício mais recente, trabalham 650 pessoas, entre designers, costureiras, responsáveis pela compra de tecidos, analistas de tendências ou desenhadores de montras. Ah, e três modelos também. É que desde há alguns anos que a Mango entendeu fazer mais sentido ter três modelos residentes para poderem experimentar calças, vestidos, blusas e, mais ainda, apresentá-los e passá-los aos responsáveis das lojas franchisadas que a Barcelona se dirigem para escolher as colecções.

Só as montras são três ou quatro, que vão sendo testadas e alteradas até se chegar ao conceito adequado para a semana. E que passará a ser adoptado pelos milhares de pontos de venda da cadeia. Depois, há ainda as lojas protótipo, que servem também de exemplo a replicar nos 107 países.

Em frente, o edifício mais antigo e que testemunhou o crescimento da marca. No total, mais de mil colaboradores, entre responsáveis pela publicidade, RP, logística, design gráfico, Recursos Humanos ou lojas. E um showroom à medida dos seus lançamentos.

Cada um dos edifícios tem a sua própria cantina, onde se pode almoçar por três euros ou, simplesmente, aquecer o almoço trazido de casa (numa lancheira térmica devidamente fornecida pela Mango, para evitar que cada colaborador trouxesse uma diferente e pudesse mesmo cometer o erro de se passear com uma da concorrência!).

E não é tão difícil assim encontrar o fundador Isaac Andic num dos espaços. Porque gosta de estar perto dos colaboradores, de perceber problemas e encontrar respostas, de ouvir e partilhar, é com assiduidade que se senta entre eles. Seja a almoçar, na cantina, ou a partilhar um computador num open space com perto de 200 pessoas.

Mais ainda, instituiu um evento anual interno: “Se eu fosse presidente”. De que é que se trata? Uma vez por ano, Isaac Andic reúne-se com representantes dos diferentes departamentos para ouvir e colher conselhos. Pode demorar semanas! Mas foi destes encontros que já saíram resoluções relevantes para o grupo. Dentro de semanas, por exemplo, vai inaugurar num dos edifícios uma biblioteca onde pontuarão revistas e livros de moda, design ou arquitectura, ao lado de elementos que contam a história de publicidade da marca.

Das peças de Istambul à marca própria

O que não é fácil é encontrar documentários ou fotos do fundador da Mango. À semelhança do seu concorrente Amancio Ortega (Inditex), Isaac Andic raramente aparece em público. Prefere acompanhar o seu negócio, e quando, uma vez por outra, acede a uma palestra é apenas para explicar pontos que fizeram da Mango um caso de sucesso: como a velocidade e, claro, a entrega ao trabalho!

A história da Mango remonta a 1983, quando Isaac Andic e o irmão começaram a trazer peças de roupa do seu país natal, Turquia, e da Índia, para venderem a amigos e conhecidos. As suas escolhas e as suas vendas rapidamente ganharam adeptos, pelo combinação de design de moda com preços acessíveis. De tal forma, que a ideia para a abertura de uma loja não tardou.

Aconteceria em 1983, em Barcelona, num espaço onde se misturavam jeans, produtos multimarca e peças compradas em Istambul. Espaço este que se alterou por completo num ano. O que os dois irmãos perceberam foi que tinham que desenhar um conceito de loja, com uma marca e uma proposta. A primeira loja Mango abriu portas em 1984, na catalã Paseo de Gracia – depois de o nome da marca ter sido escolhido após uma viagem à América Latina. No ano seguinte rumava a Valência e, em 1992, iniciava a sua internacionalização, com a abertura de duas lojas em Portugal.

Em 1988 a marca melhorou o seu sistema de stock e definiu o seu conceito, design, qualidade e preço, de forma a preparar-se para as exigências do mercado e expansão internacional, cujo sucesso, aliás, a levou a abrir lojas em todo o mundo.

Alicerçada no sistema de franchising, a internacionalização catapultou o nome da Mango para todas as latitudes e, após a longa sombra da Inditex, levou-a até ao patamar de segundo maior exportador têxtil. Aqui, foi determinante o sistema de cálculo exaustivo do número, com o desenvolvimento da cadeia a assentar na aplicação do Just in time, um sistema de gestão que permitiu o ajuste de stocks com base na procura.

Hoje, a empresa tem perto de 2500 lojas em mais de 100 países e vendas superiores a 1.200 milhões de euros.

Um dos maiores segredos? Isaac Andic nem hesita: as pessoas! E defende: «Quem faz os deveres de casa tem melhores resultados. O fundador, de resto, é o primeiro a dar o exemplo. Confessa que está sempre a pensar na Mango, qualquer ideia que colha, qualquer tendência que perceba – e que faça sentido -, aplica-a na Mango. Foi o que aconteceu quando começou a desenhar a expansão do grupo a que preside.

Como sempre quis pensar num sistema em que uns “empurravam os outros”, entendeu que esta cadeia só estaria bem alinhada se a Mango adoptasse e implementasse o elo da remuneração variável. Assim o fez. Além da remuneração mensal, os responsáveis de loja nos diferentes mercados onde está presente ganham ainda um fee variável em função dos resultados. «O saldo é sempre melhor, mesmo que saia mais caro à empresa», garante, blinhando: «Há que criar um sistema que se auto-alimente.»

Depois, há outros quadrantes que têm sido pedra de toque no alinhamento do grupo. A velocidade e a vontade de trabalhar! «É o que marca a diferença entre as empresas que têm sucesso e as que se mantêm iguais desde há 30 anos», justifica, perante as audiências que o ouvem em raros momentos.

Hoje, a Mango, além de ser uma das campeãs mundiais de vendas de roupa, também é uma empresa promotora de eventos relacionados com o design de moda, como o El Botón, que oferece o maior prémio da moda do mundo para novos talentos – 300 mil euros – e que, além de chamar a si uma enorme projecção mediática, tem ainda vindo a contar com nomes como Jean Paul Gaultier no júri.

El Hangar Design Centre é outra das iniciativas da marca, e que se distingue como o maior centro de design da Europa. Além da Mango, o grupo opera sob a marca “MNG” – ditada pelo facto do nome já estar registado em alguns mercados – ou “MNG by Mango”, e não há muito lançou uma marca exclusiva para roupa de homem chamada “HE”.

O online é outra das cerejas no topo do bolo e que tem vindo a ajudar ao crescimento. As vendas online da empresa, em 2010, atingiram os 21 milhões de euros (os resultados de 2011 ainda não tinham sido divulgados à data do fecho desta edição). Uma mão-cheia de pequenos pormenores e atenções que levaram Isaac Andic a juntar-se recentemente à lista de bilionários da revista “Forbes”, com activos estimados em cerca de 2.000 milhões de dólares. E que lhe permite figurar no Top dos maiores coleccionadores de arte contemporânea.

Não estranhe, por isso, se, ao entrar na casa-mãe do grupo, pensar que está a passar as portas de uma galeria. Quase todas as semanas as obras mudam e rodam, acreditando o fundador da Mango que a criatividade da pintura e da fotografia pode alimentar a da moda…!

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