A ByourChange, agência de marketing, assume publicamente o posicionamento “não somos para todos. É isso que nos torna certos para ti”. Em 2026, o critério ganhou um novo capítulo: a agência não aceita clientes que a procuram para produzir volume ao preço de uma ferramenta de inteligência artificial, nem os que querem conteúdo sem nunca decidir o que a marca tem para dizer. Cresceu mais de 100% nos últimos dois anos a fazê-lo.
“Este ano tornou-se muito claro para quem somos e para quem não somos. Qualquer empresa consegue gerar um mês de conteúdo numa tarde. Se o que o cliente quer é isso, não precisa de nós e nós não queremos ser isso. O problema é que o resultado está à vista: os feeds ficaram todos iguais, e o público já reconhece à primeira leitura o que foi feito sem ninguém a pensar por trás”, afirma Diogo Leal, fundador e CEO da ByourChange.
O que os consumidores já perceberam
Os dados dão razão à leitura. Um estudo da Klaviyo com oito mil consumidores em oito países, publicado no final de 2025, mostra que 32% dizem confiar menos numa marca quando o uso de inteligência artificial é óbvio ou mal executado, contra apenas 7% que confiam mais. Cerca de um em cada cinco encontra este tipo de conteúdo, a que se convencionou chamar “AI slop”, todas as semanas. Portugal não está na amostra, mas a agência garante que a realidade nacional não é diferente.
“O conteúdo genérico ficou gratuito, e o que fica gratuito deixa de ter valor. Isto obrigou as agências a responder a uma pergunta que muitas evitavam: se produzir já não é o trabalho, qual é o trabalho? A resposta é ter uma posição. Saber o que a marca pensa, o que recusa, para quem existe e porque deve ser escolhida. Isso a IA não inventa, porque não vive dentro da empresa”, explica o fundador.
Para quem a ByourChange não é
A agência descreve com precisão os pedidos que recusa. O empresário que chega a pedir “só uns posts” e a comparar preços de pacotes, porque a decisão vai ser sobre volume, e volume é o que a IA tornou gratuito. A empresa que vê o marketing como última esperança para um negócio mal estruturado, porque nenhum conteúdo resolve isso. O cliente que quer saltar a fase de posicionamento e ir direto à execução, porque o resultado é ruído com mais qualidade. E, desde este ano, quem procura uma agência com a expectativa de que a IA faça tudo mais barato.
“Se o cliente quer substituir-nos por uma ferramenta, deve fazê-lo. Vai poupar dinheiro e vai receber exatamente o mesmo que toda a gente. Nós não competimos com isso. Competimos por marcas que querem ser reconhecidas quando alguém passa o dedo pelo feed, e isso exige alguém que conheça o negócio por dentro, tenha critério e assuma a decisão”, diz Diogo Leal.
Para quem é
O outro lado do posicionamento é o que a agência considera a sua razão de existir. “É precisamente por não sermos para todos que somos certos para quem trabalha connosco. Procuramos empresas que valorizam posicionamento, exigência e crescimento a longo prazo, e que aceitam começar pela pergunta mais difícil: porque é que alguém deve escolher esta marca? Com essas, funcionamos como extensão da equipa interna. Sem essa base, não vale a pena começar.”
O contexto português mostra o tamanho do problema. Segundo o estudo “Desafios dos Departamentos de Marketing em Portugal”, publicado em janeiro, 31% das empresas não têm plano de marketing formal, número que sobe para 44% nas pequenas empresas, e só 21% das equipas usam IA com frequência. “A maioria das empresas ainda nem produz em massa e já tem o problema anterior: não sabe o que quer dizer. Dar-lhes uma ferramenta sem lhes dar uma posição é acelerar o ruído”, comenta Diogo Leal.
Como a agência usa IA sem que se note
A ByourChange não esconde que usa inteligência artificial todos os dias, em toda a equipa. A diferença, diz, está em duas regras internas. A primeira é nunca fazer um pedido solto a uma ferramenta: cada uma é treinada com a metodologia da agência, trabalhada há anos, e recebe o cliente por inteiro, do posicionamento ao histórico do que já foi dito e do que nunca deve ser dito. A segunda é não aceitar tudo o que sai. “Um hook que soa a IA vai para o lixo. Uma frase que qualquer agência assinaria também. A IA propõe, a equipa decide. Ser exímio a usar IA hoje é obrigatório; deixar que ela decida é o que faz os conteúdos parecerem todos iguais.”
A agência trabalha sem freelancers, com equipa interna dedicada a cada cliente, e defende que é essa continuidade que permite ter contexto para dar às ferramentas. “Uma IA sem contexto produz o mesmo para toda a gente. Uma equipa que acompanha o mesmo cliente há dois anos tem contexto que nenhuma ferramenta tem. Juntar as duas coisas é o trabalho.”
O que custa dizer não
Cada recusa é faturação que não entra, e a agência admite o desconforto. “Há semanas em que recusamos mais do que aceitamos. Mas cada cliente desalinhado que aceitássemos ia consumir a equipa, baixar a qualidade do trabalho dos outros e sair na mesma. Crescer com os clientes certos é mais lento e é a única forma de crescer que se aguenta”, diz Diogo Leal.
O fundador acredita que a decisão vai deixar de ser opcional para o setor. “Durante anos uma agência podia viver de produzir. Agora o que sobra para vender é posição, método e critério, e critério começa por escolher com quem se trabalha. As agências que continuam a aceitar tudo vão competir pelo preço com uma ferramenta. As outras vão ter de dizer em voz alta para quem são e para quem não são. Nós já dissemos.”
A ByourChange é uma agência de marketing estratégico do Porto, fundada por Diogo Leal, que trabalha branding e posicionamento, gestão estratégica de redes sociais e websites e landing pages.












