Há 12 anos nascia em Portugal, pelas mãos de Bárbara Barroso, o projecto MoneyLab, uma escola de literacia financeira, que tem como objectivo ajudar famílias e empresários a gerir património e a criar riqueza.
Especialista em finanças pessoais, consultora, palestrante internacional e comentadora na área de economia, tem vindo a ensinar quais as melhores escolhas tendo em conta o perfil da pessoa e/ou empresa.
Aborda temas relacionados com investimentos, mercado imobiliário e estratégias financeiras, para um segmento mais entendedor destas matérias, mas também consegue simplificar para públicos menos letrados nesses temas.
Acredita que a literacia financeira é um dos pilares fundamentais para a construção de um futuro mais estável e próspero, além de defender ser essencial democratizar o acesso ao conhecimento financeiro e capacitar as pessoas a tomarem decisões mais informadas e estratégicas sobre o seu dinheiro.
A Marketeer esteve à conversa com Bárbara Barroso, fundadora do MoneyLab e do Podcast MoneyBar. Acompanhe os temas que vão da literacia financeira ao próprio modelo de negócio subjacente ao MoneyLab.
Nestes 12 anos de actividade, quais foram os momentos mais determinantes para o MoneyLab?
Houve vários momentos-chave, mas destacaria três. O primeiro foi a criação do projecto, numa altura em que a literacia financeira ainda não estava na agenda pública como está hoje. O segundo foi a consolidação da formação online, que nos permitiu escalar e chegar a mais pessoas em todo o País e fora dele. E o terceiro foi a validação do impacto através da comunidade que fomos construindo. Quando começamos a ver mudanças reais na vida das pessoas, percebemos que não estávamos apenas a criar conteúdos, estávamos a transformar comportamentos.
O modelo de negócio do MoneyLab mudou ao longo do tempo? Que linhas de receita se revelaram mais resilientes e quais tiveram de ser abandonadas ou reformuladas?
Sim, o modelo foi evoluindo ao longo do tempo, acompanhando a maturidade do projecto e também as necessidades do mercado. Desde cedo percebemos que a formação teria um papel central, não só pelo impacto que gera, mas também pela sua capacidade de chegar a mais pessoas de forma consistente.
Hoje, a formação é claramente o core e revelou-se a linha mais resiliente, precisamente pela sua escalabilidade e capacidade de adaptação. Ao longo do percurso, fomos fazendo ajustes naturais, sempre com o objectivo de garantir alinhamento com a nossa visão e com aquilo que acreditamos ser o maior valor para quem nos acompanha. O foco nunca deixou de ser a qualidade e o impacto real na vida das pessoas.
Portugal continua abaixo da média europeia em literacia financeira. Do ponto de vista empresarial, qual é hoje o maior entrave à criação de soluções escaláveis nesta área: falta de procura, falta de políticas públicas ou falta de investimento privado?
Diria que o maior entrave é a combinação entre falta de políticas estruturais e alguma desvalorização histórica do tema. A procura existe, e tem vindo a crescer, mas muitas vezes ainda é reativa, surge quando há um problema. Falta uma abordagem mais preventiva e integrada. Sem um enquadramento consistente ao nível das políticas públicas e sem um investimento mais estruturado, a escala torna-se mais difícil. Ainda assim, vejo uma evolução positiva, sobretudo no sector privado.
Quando trabalha com famílias e empresários, que erros financeiros estruturais identifica de forma recorrente e que revelam uma falha sistémica do País, mais do que falhas individuais?
O padrão é claro. Falta de planeamento, ausência de estratégia e decisões baseadas em emoção ou percepção. Muitas pessoas não têm sequer uma visão clara dos seus números, do seu património ou dos seus objectivos. Isto não é uma falha individual, é o reflexo de um sistema que não ensinou estas competências desde cedo.
Outro ponto crítico é a falta de diversificação, com decisões muitas vezes concentradas em poucos activos, o que pode aumentar o risco e limitar o potencial de crescimento ao longo do tempo.
A literacia financeira está a tornar-se um mercado comercial por si só. Onde termina a missão social e começa o negócio? E como se evita que a formação financeira se transforme numa ‘commodity’ pouco rigorosa?
A missão e o negócio não são incompatíveis, desde que exista integridade. A literacia financeira tem uma dimensão social muito forte, mas também exige profissionalismo, estrutura e sustentabilidade. O risco de banalização existe, sobretudo num contexto onde qualquer pessoa pode falar sobre finanças. A diferenciação está no rigor, na experiência e na capacidade de gerar impacto real.
O MoneyLab tem uma abordagem lúdica e pedagógica. Como se mede, de forma objectiva, o impacto real dessa metodologia? Existem métricas próprias que usam para avaliar mudança de comportamento financeiro?
Medimos impacto de várias formas. Desde indicadores quantitativos, como taxa de conclusão dos programas, implementação de estratégias financeiras e evolução de património, até indicadores qualitativos, como mudança de comportamento, confiança na tomada de decisão e melhoria na relação com o dinheiro. O verdadeiro indicador de sucesso é quando vemos consistência nas decisões ao longo do tempo.
Há crescente pressão para incluir educação financeira no ensino básico. Se tivesse poder executivo, que três medidas concretas implementaria no sistema educativo já no próximo ano lectivo?
Primeiro, integrar a literacia financeira como disciplina prática e contínua, e não apenas como tema transversal. Segundo, formar professores com competências específicas nesta área, porque não basta ter o tema no currículo, é preciso saber ensiná-lo. Terceiro, criar ligação entre teoria e prática, com simulações reais de gestão de dinheiro, orçamento e investimento.
Nos últimos anos, o interesse por investimentos aumentou, muitas vezes sem literacia mínima. Como vê o papel do MoneyLab num ecossistema onde influencers financeiros, corretoras e plataformas digitais moldam comportamentos de forma desregulada?
Vivemos num contexto onde o acesso à informação nunca foi tão grande, mas isso não significa melhor decisão. O papel do MoneyLab é precisamente trazer clareza, estrutura e pensamento crítico. Não competimos com o ruído, contrastamos com ele. O nosso foco é ajudar as pessoas a perceber o que estão a fazer, e não apenas a seguir tendências.
O podcast MoneyBar tem recebido nomes de peso. Que temas ou visões divergentes mais a desafiaram e influenciaram na forma como pensa a evolução do projecto?
O MoneyBar tem-se afirmado como um espaço de referência onde diferentes vozes relevantes se encontram para discutir dinheiro, economia e investimento com profundidade. É naturalmente gratificante ver o podcast reconhecido como um hub que atrai figuras de diferentes áreas e geografias.
O contacto com estas perspectivas diversas tem sido extremamente enriquecedor. Mais do que respostas fechadas, trazem-nos novas perguntas e novos ângulos de análise. Permitem-nos ampliar horizontes e perceber como diferentes dimensões se interligam.
Isso tem influenciado a evolução do projecto no sentido de uma abordagem mais integrada, onde o dinheiro deixa de ser visto de forma isolada e passa a ser entendido no contexto mais amplo das decisões, do comportamento e do próprio posicionamento das pessoas ao longo da vida.
Qual será o futuro da literacia financeira em Portugal: mais institucional (via Estado), mais corporativo (empresas a investir em formação dos colaboradores) ou mais individual (conteúdos pagos, cursos, subscrições)? Onde posiciona o MoneyLab nesse cenário?
Acredito que será um modelo híbrido. Haverá uma maior presença institucional, com o Estado a assumir um papel mais activo, mas também um crescimento da oferta privada e corporativa. As empresas começam a perceber que a saúde financeira dos colaboradores impacta directamente a produtividade e o bem-estar. Ao mesmo tempo, continuará a haver uma procura individual por soluções práticas e acessíveis.
O MoneyLab posiciona-se exactamente nesse cruzamento. Entre educação, formação e transformação. Mais do que acompanhar essa evolução, queremos liderá-la.
Texto de Maria João Lima
*A jornalista escreve segundo o Antigo Acordo Ortográfico














