Jornal i entra “na guerra” dos semanários

É já amanhã que o i lança a B.I.. Um novo suplemento com foco nas pessoas – aliás, no olhar de um entrevistado – na cultura e lifestyle. A aposta é acompanhada pela reestruturação do caderno principal ao sábado, numa tentativa de “entrar no jogo” dos semanários. E continuar a inverter a queda de vendas.

Chama-se B.I e é o novo suplemento de fim-de-semana do i. Um reforço ao sábado que é acompanhado por uma reformulação profunda da edição de fim-de-semana, a qual passa a assumir contornos de um semanário, conforme conta o director do jornal Luís Rosa. «A nossa edição de sábado sempre foi uma edição muito forte. Ao sábado vendemos, e sempre foi uma questão histórica do jornal, mais do dobro do que vendemos à segunda ou terça-feira. Vamos reforçar essa aposta na edição de sábado apostando num produto diferenciado face àqueles que os diários apresentam nesse dia. Somos um diário, os nossos concorrentes directos são os diários, mas ao sábado queremos também lutar com os semanários.» As mudanças, revela, incluem um enfoque na contextualização e em dossiers alargados sobre os grandes temas da semana.

A sair ao sábado, a B.I. apresenta-se como uma nova publicação generalista com enfoque nas áreas de cultura e lifestyle, com um traço identitário vincado: a cada semana, a revista terá como foco o olhar de uma personalidade, que abrirá o número com uma entrevista alargada. A entrevistada do primeiro número é a apresentadora de televisão Fátima Lopes, numa entrevista de vida a sair já amanhã.

A publicação, que substituirá o anterior suplemento LiV, conta com projecto gráfico criado pelo departamento de design do jornal liderado por Ana Soares e terá como coordenadora editorial a jornalista Ana Kotowicz. «A maquete final da B.I. é um trabalho fantástico que honra a inovação gráfica que sempre caracterizou o i», frisa Luís Rosa.

Em entrevista à Marketeer, Luís Rosa antecipa então as novidades na edição de sábado, revela os planos da futura reformulação do online, a ser implementada até ao final do segundo trimestre de 2015, e faz um balanço dos seis meses de liderança do jornal depois de, em Setembro, ter substituído Eduardo Oliveira e Silva.

O i já teve anteriormente revistas de fim-de-semana como a Nós e a Índex. Porquê a criação da B.I. neste momento?

A B.I. nasce da necessidade de termos um novo suplemento de fim-de-semana porque achamos que o suplemento anterior, o Liv, já tinha terminado o seu ciclo de vida. É um suplemento que já tinha, salvo erro, três anos e pouco. Era um conceito editorial muito redutor, concentrava-se apenas em livros e viagens. A B.I. tem um primeiro objectivo claro de ser um magazine generalista que tem como enfoque editorial as áreas de cultura e de lifestyle. Por outro lado, o conceito da B.I. assenta em pessoas. Queremos contar as histórias da semana, as nossas histórias sempre a partir de uma pessoa, do olhar de um protagonista. O conceito traduz-se, em termos práticos, numa capa que vai partir da entrevista de fundo a um protagonista da área cultural ou de entretenimento. A entrevista abrirá a B.I.. Segue-se uma segunda parte que assentará em dez histórias, dez temas, dez pessoas, em que contaremos sempre uma história a partir do protagonista. Haverá uma parte mais ligada ao lifestyle, uma espécie de selecção de roteiro de fim-de-semana, em que teremos não só a oferta cultural disponível nas principais cidades, como programas específicos para a família dentro e fora de portas e conteúdos editoriais mais virados para essa área. A B.I. também pretende ter um enfoque predominantemente feminino em algumas partes, apesar de não ser um produto exclusivamente feminino, com conteúdos de consumo mais virados para as mulheres. Interessa-nos atingir este público porque parece-nos um público importante para o i.  A estreia da B.I. vai também levar a uma mudança de preço na edição de fim-de-semana do i a partir de 14 de Fevereiro: o aumento para 1,20 euros. O aumento de preço tem como compensação o facto de a edição de fim-de-semana do i passar a ter mais 16 páginas, num total de 96 páginas. Esse total de páginas resulta de uma soma das 56 páginas do caderno principal mais 40 páginas da B.I. A alteração de preço verifica-se apenas ao sábado. Entre segunda-feira e sexta-feira o jornal vai continuar a custar 1 euro.

Há jornalistas alocados especificamente para a B.I.?

A nossa redacção de 40 jornalistas é uma redacção que está a produzir de forma muito eficiente e com uma produtividade muito elevada para todos os produtos que nós temos, seja para o primeiro caderno, seja para a B.I., seja para o online. A nossa ideia é ter sempre um conjunto de jornalistas multidisciplinares. Não temos neste momento uma equipa específica porque não precisamos de ter. Temos uma redacção que nos permite produzir estes produtos sem acréscimo de custos.

Qual o objectivo deste novo posicionamento ao sábado?

Vamos estrear um novo conceito editorial da edição de fim-de-semana na edição de amanhã. Queremos produzir uma edição especial ao fim-de-semana. Em primeiro lugar, queremos apostar num dossiê forte para a abertura do jornal que seja um assunto da semana ou que seja uma aposta editorial sobre um tema que não está na agenda. Serão 10 a 15 páginas que abrirão o jornal de sábado de forma especial e surpreendente para aos leitores. Em segundo lugar, explicar os principais assuntos da semana aos leitores, contextualizando e explicando o que aconteceu durante a semana. A ideia central passa pela necessidade que os leitores sentem em serem contextualizados sobre os principais assuntos da agenda. Os jornalistas têm de ser cada vez mais um farol, um guia para o leitor no mar de informação que está ao seu dispor. Ao sábado vamos apostar na informação de contexto. Em suma, queremos criar as ferramentas editoriais necessárias para concorrer com os diários e os semanários que são publicados ao sábado.

Haverá também mudanças de rubricas e cronistas?

Na edição de sábado a nossa grande aposta vai ser o dossier. Vamos pôr três jornalistas a trabalhar de forma a apresentar toda a informação disponível sobre um tema que poderia ser tanto o Charlie Hebdo, como poderia ser o caso José Sócrates. [O objectivo é] pegar num tema e marcar uma posição editorial sobre esse tema e ter uma edição muito forte sobre esse tema. Essa é a grande aposta. Sobre cronistas, reformulamos a opinião há algum tempo mas vamos deixar para uma segunda fase uma remodelação mais profunda.

Fazendo um balanço destes seis meses de nova direcção, o que mudou desde que assumiu a liderança?

Na opinião da direcção actual, o jornal carecia de uma clarificação editorial. Nós pretendemos construir uma linha editorial coerente, consistente, plural, que respeite a matriz editorial do i, que respeite a história do i. O i sempre se caracterizou pelo pluralismo político e obviamente que a nossa linha editorial respeita essa história. Em segundo lugar, sentimos necessidade de ter um produto muito mais focado e estruturado. Precisávamos de focar o jornal nos temas e nas áreas que nos interessam mais e nos quais nós entendemos que podemos ter de facto informação que possa ser uma mais-valia para o leitor. A nossa linha editorial apoia-se em três pilares. Em primeiro lugar, o jornalismo de investigação, uma aposta que já vem de trás. Hoje em dia podemos dizer que o jornalismo de investigação é um valor da marca i. O caso BES, no qual nós tivémos muito sucesso, não só reforçou a nossa credibilidade como alavancou as nossas vendas. Por outro lado, a utilidade. Temos uma grande preocupação em ter informação útil para os nossos leitores. Nós conhecemos a nossa audiência, sabemos que a nossa audiência é essencialmente urbana e o nosso produto é um produto urbano. Temos de produzir informação útil para esse público.

Por último, a proximidade. A secção Mais, que é uma das mais-valias do jornal desde o início, tem uma informação útil e de proximidade, seja a nível de lifestyle, de qualidade de vida na cidade, ambiente, transportes. Para além destes três pilares, tentamos ter uma aposta muito grande na diferenciação do nosso produto. Quando falamos do i falamos de um jornal diferente dos outros, a começar pelo grafismo. Precisamos também de ter uma linha editorial que aposte nessa diferenciação também em termos de conteúdos. Não podemos tratar os temas que acabámos de ver na televisão no dia anterior, mas sim outros temas que façam as pessoas perceber que o i tem conteúdos que os outros não têm. Essa diferenciação da marca é uma grande aposta desta direcção e acho que estamos a consegui-lo face aos resultados que já conseguimos obter.

Os últimos dados da APCT de Janeiro a Outubro revelam que o i tem uma circulação paga de cerca de 4 mil exemplares diários. Qual é o vosso objectivo em termos de vendas nos próximos meses?

Os números que darei são números que têm como base a VASP e que dizem respeito ao último trimestre de 2014 e a Janeiro. Podemos afirmar que conseguimos inverter o ciclo de queda de vendas do jornal. Em termos homólogos, em Outubro subimos as vendas em papel em 11%, em Novembro, subimos 5% e, em Dezembro, subimos 4%. Em Janeiro vamos subir mais de 20%. São números claramente positivos em venda em papel. Demonstram que conseguimos inverter a tendência de descida do jornal. O i mudou e o i está a crescer e está a crescer com números sustentados, que assentam numa maior qualidade editorial do produto, numa maior diferenciação face à concorrência. No online, em Outubro, numa comparação de mês a mês, subimos 26% face a Setembro, em Novembro subimos 10% e em Janeiro subimos 40%. Em Dezembro, que tradicionalmente é um mês em que tem sempre uma pequena descida, descemos 12% face a Novembro.

Quisemos primeiro reestruturar o jornal, estabilizar a linha editorial no papel, encontrar um novo caminho para a edição de sábado e estabilizá-lo. Encerrado este ciclo do papel, vamos dedicar-nos ao online e tentar traduzir esta diferenciação também aí. Para 2015, os nossos objectivos serão sempre melhorar as vendas em termos homólogos, tentar ter uma melhoria clara destes números como tivemos no último trimestre de 2014 e continuar a apostar nesse crescimento do jornal, seja na edição em papel seja na audiência do online.

Ponderam rentabilizar o online? Quais são os vossos planos para a plataforma?

Em primeiro lugar, antes de cobrarmos seja o que for, precisamos de ter massa crítica. Neste momento, a nossa prioridade é aumentar a audiência do online. Em Janeiro, atingimos um patamar que já tínhamos atingido em Fevereiro do ano passado, de 3 milhões de visitas por mês, e entendemos que esse patamar pode ser potenciado. Acreditamos que no online podemos claramente potenciar a nossa audiência. O i tem um produto que também é diferenciado no online, mas menos porque é muito difícil transmitir os valores de inovação gráfica que o papel tem no online. Os produtos online exigem um grande investimento em termos de tecnologia e em termos de recursos humanos, e é necessário que os produtos sejam claramente diferentes dos produtos em papel. O modelo editorial que existe em Portugal, grosso modo, continua a ser uma mera exportação dos conteúdos que produzimos no papel para o online. A experiência do Observador, por exemplo, demonstra que não pode ser assim. O online tem de ter um tratamento muito específico.

Temos que pensar, quer no site como nas plataformas móveis do i, em produtos diferenciadores face ao papel e em relação àquilo que existe em termos de oferta online neste momento.

Mas há um horizonte temporal para essa reformulação ser feita?

Prevemos que até ao final do segundo trimestre de 2015 podemos estar em condições de apresentar esses novos produtos e essa nova estratégia.

Está previsto algum tipo de sinergia com o jornal Sol?

Só posso falar obviamente pela direcção do i e não posso falar pela administração da Newshold, mas parece-me que a intenção, como existe em todos os grupos de comunicação social, é que existam sinergias ao nível de serviços de apoio de redacção. Em termos editoriais, parece-me mais complicado porque as marcas são claramente diferentes e dirigem-se a públicos diferentes. É intenção da empresa manter a identidade e diferenciação de cada marca. A nível de sinergias de serviços de apoio, como existem em outros grupos, estamos a trabalhar nesse sentido e quando tivermos novidades anunciaremos ao mercado.

Texto de Pedro Carreira Garcia

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