Quem o encontra na prateleira do seu hipermercado habitual vê “apenas” mais um azeite, mas a história que está por detrás do Azeite Virgem Extra Sustentável Continente tem muito mais para contar. É 100% português, produzido pela Herdade da Figueirinha (membro do Clube de Produtores Continente), e espelha o compromisso com práticas agrícolas sustentáveis.
A expressão-chave para contar esta narrativa é “economia circular”, e para o entender na plenitude rumámos a Beja para ver de perto aquilo que está a ser feito na Herdade da Figueirinha. Filipe Cameirinha Ramos, director-geral da herdade, começou por partilhar, de forma despretensiosa, que tudo começou quando o seu avô comprou a herdade, em 1998, quase como que um projecto imobiliário que tinha pouco mais do que a casa de família. «Só que, entretanto, apaixonámo-nos os dois por isto», confessa, contando que arranjaram estradas, fizeram furos, «chegámos a ter 55 furos a bombar água», e plantaram as primeiras vinhas e oliveiras (em 2001), às quais se foi juntando mais área plantada progressivamente.
Mas esqueceram-se de um pormenor: não havia capacidade de vinificação na região. «Quase que obrigatoriamente tivemos que fazer a adega», diz, explicando os investimentos. E em 2006 deparam-se com a necessidade de outro investimento. «Íamos ter a primeira produção de azeitona e também não havia ninguém a quem a entregar. Então fizemos o lagar.»
A linha de recepção de azeitona começou por receber 5 toneladas por hora, fazendo a limpeza e lavagem das mesmas. Actualmente, e depois de diversas ampliações, já está preparada para receber 70 toneladas por hora. Dentro do lagar, os números também impressionam: se nas primeiras extracções a capacidade estava no limite de 25 toneladas por dia, hoje conseguem 400 toneladas de azeite em primeira extracção e 600 toneladas em segunda.
Os números não ficam por aqui ou não fosse Filipe Cameirinha Ramos gestor de formação. «A produção média mundial de azeite por hectare são 180 quilos. Em Espanha produz-se entre 400 e 500 quilos, em média por hectare. Aqui, no ano passado, fechámos com 2600 quilos por hectare. E não foi o recorde. Já tivemos 3300 quilos de azeite por hectare.» Além disso, sublinha, somos o país do mundo que produz mais azeite extra virgem (90 a 95% da produção). «Produzimos muito e com excelente qualidade.»
Um produto, de resto, que o único consumível que usa no processo de produção é água. «Não há corantes, conservantes ou aditivos. É 100% sumo de azeitona. A ideia é não estragar o trabalho feito no campo. Ter a azeitona o mais sã possível e trabalhar rapidamente para fazer compassos de espera muito curtos», explica. Mas importa não esquecer que uma azeitona tem 12 a 17% de azeite e 10% de caroço. Isto significa, sublinha o gestor, que «cerca de 80% do que o lagar produz é bagaço».

Como no lagar da Herdade da Figueirinha são processadas as azeitonas de outros produtores da região, a quantidade de bagaço aumenta. Se até determinada altura este bagaço (visto como subproduto) era encaminhado para as indústrias especializadas extractoras, o que dava algum rendimento aos produtores, com o crescimento do número de lagares (mantendo-se o mesmo número de três extractores na região), essa fonte de rendimento deixou de existir, passando a ser mais um custo para resolver a questão do bagaço. «Quando uma das extractoras avariou e deixou de ter capacidade para receber bagaço, os produtores ficaram sem ter onde o entregar.»
Deu-se a coincidência de uma equipa do Clube de Produtores do Continente ter ido à Herdade da Figueirinha fazer uma prova de azeites e Filipe Cameirinha Ramos manifestar a sua preocupação. Em conversa com Mónica Sobreiro (do Clube de Produtores Continente) surgiu a ideia da compostagem. «Não inventámos a compostagem, nem sequer a compostagem do bagaço de azeitona porque a EDIA [Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva] já tinha feito um caminho muito interessante», sublinha o gestor. E Mónica Sobreiro acrescenta: «É uma retro-inovação. Desde a Mesopotâmia que se faz compostagem. Mas havia que provar às pessoas do século XXI que isto sempre foi feito e que não tem prejuízo para as populações nem para os solos. Pelo contrário.»
Na zona da Herdade da Figueirinha reservada à compostagem o que se vê, para onde quer que se olhe, são enormes pilhas dinâmicas. «Gosto de trazer as pessoas aqui porque isto não é um projecto de marketing. É um projecto real. Não foi feito com intenção de vender, mas sim de fazer sentido», salienta Filipe Cameirinha Ramos. Mas confessa que não sabia se ia dar certo. Ainda assim, tem investido ali, em maquinaria, meio milhão de euros. «E, claro, tenho uma guerra comprada com as extractoras. Nunca mais vou poder entregar um quilo de bagaço que seja.» Com os resultados do salto de fé e do investimento à vista, hoje, depois dos testes feitos, têm já autorização para vender o composto.
A receita, neste caso, da compostagem não é segredo. Na Figueirinha têm o bagaço, o engaço das uvas e as folhas. Há ainda o amendoal, que foi arrancado, e chegam também, através do Clube de Produtores do Continente, polpas de fruta. «Temos camionagem própria e vamos a outras empresas recolher.» Quando chega a altura fazem as pilhas. «Este é um processo completamente natural. Fazemos a receita, estudamos a relação dos vários ingredientes. Entra em processo de fermentação.» Durante o processo a única coisa que fazem é regar e para isso usam as águas residuais (as águas ruças da produção do azeite passam a ter um reaproveitamento).
Mónica Sobreiro conta que neste caso em específico da Herdade da Figueirinha, vão identificando os ingredientes que se podem juntar dos produtores geograficamente perto da compostagem. Quanto mais ingredientes tiver a pilha de compostagem, mais rica fica, assegura.
O director-geral da herdade não tem dúvidas de que estão a semear para colher. E explica que estão a corrigir erros do passado, em particular as práticas agrícolas dos últimos 100 anos. «Fazia-se pousio porque as terras estavam esgotadas. O composto faz repor a matéria orgânica dos solos. Tem todos os nutrientes que existem. É o que dá vida ao solo, que se torna rico e fértil. É o que se chama de agricultura regenerativa.» Além de que, acrescenta Mónica Sobreiro, «quanto mais matéria orgânica temos no solo, menos necessidade de água há, porque consegue ficar retida. Acaba por haver poupança de água». Ou seja, é uma solução que é sustentável económica, social e ambientalmente.
Aposta na produção nacional
Mas este caminho pela sustentabilidade, como muitos dos trabalhos em que o Clube e Produtores do Continente se envolve, leva muitos anos, arrancando, amiúde, antes mesmo de haver legislação. «Preparamo-nos para quando chegar a legislação. Tem sido esse o caminho», sublinha Ondina Afonso, presidente do Clube de Produtores Continente (CPC).
Lembrando que o CPC foi fundado em 1998 e que a ideia da sua criação foi do próprio Belmiro de Azevedo, Ondina Afonso sublinha que este clube é um acelerador de conhecimento e capacitador destes produtores. Na sua génese esteve a decisão de começarem a identificar potenciais agricultores para ajudarem a crescer com o Continente. «É mais do que comprar produto. É sermos parceiros e levar ao nosso cliente o melhor de Portugal.»
Começou nas frutas e legumes, depois entraram as carnes com a produção animal e todas as outras categorias de frescos e aquilo a que agora chamam, numa linguagem interna, de alimentar, que tem a ver com mel, compotas, azeite… «[Belmiro de Azevedo] foi sempre uma pessoa visionária e nessa área também o foi. Continua a ser um caso de estudo em fóruns europeus», garante a presidente do CPC.
No âmbito do seu compromisso com a produção nacional, o CPC registou um volume de compras de 650 milhões de euros em 2025 (281 mil toneladas de produtos de origem nacional). Os números comparam com os de 2024, em que tinha já sido atingido um recorde de 624 milhões de euros de compras à produção nacional correspondentes a 270 toneladas.
Contribuindo para a estabilidade económica e a competitividade dos produtores, o CPC valorizou de forma estruturada 366 produtores de norte a sul do País e Madeira, garantindo a presença consistente de produtos de origem nacional em todas as lojas Continente, nas principais categorias.
Com forte peso nos produtos frescos e em áreas estratégicas para o consumo das famílias, a padaria assume a maior representatividade destas compras, com 33%, seguindo-se lacticínios, com 29%. Destacam-se ainda as categorias de talho (23%), charcutaria e queijos (23%) e vinhos e espirituosas (21%).
O CPC tem apostado no conhecimento, na inovação e na sustentabilidade, desenvolvendo iniciativas de formação e capacitação das melhores práticas produtivas, promovendo a biodiversidade e incentivando a utilização de matérias-primas certificadas de origem sustentável.
«Enquanto Clube tiramos ao produtor uma parte do investimento que pudesse ter em formação. Nós assumimos esses custos, fazemos a formação, a capacitação e depois os produtores fazem a sua parte», remata Ondina Afonso.
Este artigo faz parte da edição de maio (n.º 358) da Marketeer












