Por Alexandra Betâmio de Almeida, directora de Qualidade e Sustentabilidade da Federação Portuguesa de Golfe
A gestão sustentável dos campos de golfe, em particular no domínio da eficiência hídrica, tem registado uma evolução significativa, posicionando o setor como tendo um contributo relevante para a resposta aos desafios ambientais contemporâneos. Num contexto europeu – e particularmente português – marcado pela crescente escassez de água, pela maior frequência de eventos climáticos extremos e pela necessidade de restaurar ecossistemas degradados, o golfe deve ser enquadrado como parte integrante da solução.
Em Portugal, o stress hídrico constitui um desafio estrutural. De acordo com a Agência Portuguesa do Ambiente, o índice médio anual de escassez hídrica (WEI+) situa-se em cerca de 34%, refletindo uma pressão significativa sobre os recursos hídricos, com agravamento sazonal e incidência mais acentuada nas regiões do Sul, onde os valores podem ultrapassar 60-70%. Este contexto exige uma gestão cada vez mais eficiente, integrada e baseada em evidência.
Neste enquadramento, é essencial assegurar uma leitura proporcional do uso da água. O setor do golfe apresenta um peso residual, geralmente inferior a 1% à escala da bacia hidrográfica, não sendo identificado como uma pressão significativa no contexto global de utilização do recurso.
Paralelamente, o setor assume uma relevância económica crescente. Um estudo da NOVA School of Business and Economics, desenvolvido para o Conselho Nacional da Indústria do Golfe e divulgado pela Forbes Portugal, demonstra que a indústria do golfe gerou um impacto económico de 760,5 milhões de euros entre 2014 e 2024, correspondente a uma média anual de 69 milhões de euros, abrangendo turismo, imobiliário e construção. Este impacto traduz-se ainda em 407,9 milhões de euros de Valor Acrescentado Bruto, 70,2 milhões de receita fiscal e cerca de 810 empregos anuais.
O setor tem igualmente evidenciado capacidade de adaptação, através da implementação de medidas de eficiência hídrica e da redução de consumos em contextos de escassez. Entre as principais práticas destacam-se a otimização das áreas regadas, a utilização de espécies mais resilientes, a integração de sistemas de monitorização e o recurso crescente a águas residuais tratadas, em alinhamento com os instrumentos nacionais e europeus de gestão sustentável da água.
Não obstante, as projeções futuras reforçam a necessidade de adaptação contínua. O World Resources Institute projeta níveis elevados de stress hídrico em Portugal até 2040, o que exigirá o reforço de soluções como a reutilização de água, o armazenamento, a dessalinização e a inovação tecnológica. Neste contexto, o setor do golfe pode posicionar-se como um parceiro relevante na transição hídrica, em articulação com entidades públicas e stakeholders tecnológicos.
Importa igualmente considerar a dimensão da perceção pública. Apesar do escrutínio associado ao uso da água, os campos de golfe operam, de forma crescente, sob rigorosos regimes de gestão e monitorização, com incorporação significativa de fontes não potáveis e tecnologias de controlo avançadas. Adicionalmente, os campos de golfe desempenham um papel relevante na provisão de serviços dos ecossistemas. Em contexto urbano e periurbano, podem funcionar como corredores verdes, contribuindo para a conectividade ecológica, a conservação da biodiversidade e a regulação microclimática. Estes espaços promovem ainda a infiltração e retenção de água, a melhoria da qualidade do ar e o sequestro de carbono, reforçando a sua função enquanto infraestruturas verdes.
Neste contexto, e em alinhamento com as prioridades europeias em matéria de resiliência hídrica e restauração da natureza, o setor do golfe pode assumir um papel enquanto infraestrutura verde multifuncional, contribuindo para a regulação dos sistemas hídricos, a mitigação de riscos naturais e a valorização dos serviços de ecossistema.
Em síntese, o golfe deve ser entendido como um utilizador responsável da água que, quando enquadrado por boas práticas de gestão e planeamento territorial, pode gerar valor líquido positivo nas bacias hidrográficas, contribuindo simultaneamente para os objetivos ambientais e económicos de Portugal.














