Gabriel Bernardino (ASF): “Precisamos de aumentar a resiliência face a fenómenos extremos que serão cada vez mais frequentes”

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28/07/2026
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Gabriel Bernardino (ASF): “Precisamos de aumentar a resiliência face a fenómenos extremos que serão cada vez mais frequentes”

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O “comboio de tempestades” (cujo evento mais severo foi a tempestade Kristin) provocou perdas globais estimadas atualmente em cerca de 5,3 mil milhões de euros, dos quais apenas 26% se encontram cobertas pelo setor segurador, revelando uma significativa lacuna de proteção na sociedade portuguesa. Os dados são da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF) que divulgou um relatório que analisa o papel desempenhado pelo setor segurador durante esta crise, identificando as principais lições aprendidas e apresentando recomendações destinadas a reforçar a preparação para futuros eventos extremos.

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No âmbito segurador, este evento originou 218 mil sinistros e 1,4 mil milhões de euros de perdas seguras, constituindo um dos maiores testes alguma vez enfrentados pelo setor. Mais de 99% dos sinistros já foram objeto de peritagem, cerca de 85% dos processos já se encontram encerrados e as seguradoras já indemnizaram mais de 80% dos prejuízos estimados no segmento da habitação, onde se concentrou a maioria das participações. A ASF salienta que estes resultados comparam favoravelmente com os observados em eventos catastróficos semelhantes registados noutros países.

“O relatório mostra que o setor segurador português respondeu de forma globalmente robusta ao teste mais exigente da sua história recente. Mas mostra também que Portugal continua a ter uma grande insuficiência de proteção: apenas 26% dos prejuízos provocados por estas tempestades estavam cobertos por seguros. Esta é uma vulnerabilidade económica e social que o país não pode ignorar. Precisamos de aumentar a resiliência das famílias, das empresas e da economia portuguesa face a fenómenos extremos que serão cada vez mais frequentes”, comenta Gabriel Bernardino, presidente da ASF.

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Como já vem sendo falado, a principal recomendação de natureza estrutural que a ASF propõe é a criação de um Sistema Nacional de Proteção contra Catástrofes Naturais, assente numa lógica de responsabilidade partilhada entre cidadãos, empresas, setor segurador, resseguradores internacionais e Estado. “Um sistema desta natureza contribuirá para reduzir a atual lacuna de proteção face aos riscos de catástrofes naturais e para reforçar a resiliência económica e social do país perante os impactos crescentes das alterações climáticas”, sublinha a ASF.

O relatório destaca ainda a resiliência financeira do setor, salientando que aproximadamente 91% das perdas seguras foram suportadas pelo mercado internacional de resseguro, demonstrando a eficácia do modelo de gestão de risco do setor segurador português.

Segundo a ASF, a análise permitiu retirar lições para o futuro. Ao nível da avaliação do risco, o evento evidenciou a necessidade de reforçar a adaptação e resiliência de edifícios e infraestruturas face a fenómenos meteorológicos extremos cada vez mais frequentes e severos. Do ponto de vista operacional, ficou demonstrada a capacidade do setor segurador para mobilizar recursos extraordinários e adaptar procedimentos em contexto de crise. Contudo, ficou igualmente patente a necessidade de reforçar a capacidade de resposta perante volumes excecionais de sinistros, nomeadamente através do reforço da capacidade de peritagem em situações excecionais, da aceleração da digitalização dos processos de regularização e da consolidação de mecanismos de adiantamento aos lesados.

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Entre os desafios identificados destacam-se os sinistros empresariais de maior dimensão e complexidade. Estes processos apresentam tempos de regularização mais longos devido à complexidade da avaliação dos danos materiais e das perdas de exploração. Ainda assim, uma parte significativa das empresas afetadas já recebeu adiantamentos de indemnização, contribuindo para apoiar a recuperação da atividade económica enquanto prossegue a  quantificação integral dos prejuízos.

O relatório identifica algum desalinhamento entre as expectativas dos consumidores segurados e o âmbito efetivo da proteção contratada, bem como oportunidades de melhoria na fundamentação de algumas decisões de regularização. Isto porque uma parte significativa das situações reportadas esteve associada à incompreensão de exclusões e limitações das apólices. Entre os temas que suscitaram maior conflitualidade destacam-se as exclusões relacionadas com infiltrações, alegada falta de manutenção, danos em elementos exteriores dos edifícios e situações de subseguro.

A ASF considera ainda ser essencial promover uma maior simplicidade e clareza dos contratos de seguro, uma melhor explicação das coberturas, exclusões e limitações. O relatório recomenda igualmente o reforço da fundamentação das decisões de regularização, a disponibilização dos relatórios de peritagem aos segurados e o desenvolvimento de iniciativas de literacia sobre risco e seguro, contribuindo para uma melhor compreensão da proteção contratada e para o reforço da confiança no processo de regularização de sinistros.

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O relatório conclui que fenómenos meteorológicos extremos deixaram de poder ser encarados como acontecimentos excecionais. Entre as medidas recomendadas destacam-se o reforço dos planos de resposta a catástrofes, a realização de exercícios de simulação, a revisão dos modelos de avaliação de risco climático, o recurso mais intensivo a ferramentas de georreferenciação, a definição de indicadores específicos para contextos de crise e o reforço da capacidade operacional para responder a um elevado volume de sinistros em períodos curtos de tempo.




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