A disputa sobre quem deve controlar a visibilidade dos conteúdos nas redes sociais está a ganhar uma nova dimensão (de confronto), depois de a administração de Donald Trump ter acusado o Governo britânico de estar a abrir a porta à “censura” com a proposta que pretende dar maior destaque a meios de comunicação tradicionais, como a BBC e a ITV, nos algoritmos das plataformas digitais.
A intervenção de Washington surge depois de o Governo do Reino Unido ter avançado com propostas para que plataformas como o YouTube deem maior proeminência a conteúdos considerados de confiança, numa altura em que uma parte crescente do consumo de informação acontece fora dos meios de comunicação tradicionais, refere o The Guardian. O Executivo britânico admite avançar para legislação caso as plataformas não adotem voluntariamente estas medidas.
A administração norte-americana considera que a proposta pode ter consequências para a forma como os algoritmos determinam aquilo que os utilizadores veem. Numa posição divulgada pela Embaixada dos EUA em Londres, Washington argumenta que obrigar plataformas a promover determinados meios de comunicação pode transformar-se num mecanismo de “censura baseada no ponto de vista” e prejudicar jornalistas independentes ou meios com visões minoritárias.
O argumento norte-americano vai mais longe, com os EUA a dizerem que uma intervenção deste género poderia criar um precedente para outros governos aumentarem o controlo sobre os conteúdos online. A administração Trump fala ainda no risco de “censura extraterritorial” sobre conteúdos produzidos por cidadãos norte-americanos.
Do lado britânico, a proposta é apresentada com outro objetivo, nomeadamente o de combater a desinformação e garantir maior presença de conteúdos considerados credíveis, mas também proteger o papel dos meios de serviço público num ecossistema em que as plataformas digitais concentram cada vez mais audiência e investimento publicitário. O departamento britânico para os media, cultura e desporto (Department for Culture, Media and Sport) diz defender a liberdade de expressão e a concorrência e garante que qualquer medida deverá salvaguardar esses princípios.
A discussão coloca, assim, em cima da mesa a questão de quem deve decidir o que merece maior alcance na internet. Hoje, essa decisão é sobretudo determinada pelos sistemas de recomendação das próprias plataformas, que selecionam e ordenam conteúdos com base em diferentes sinais de comportamento e relevância.
A questão que agora opõe Londres e Washington, acrescenta uma tónica à discussão, sobre até onde pode ir a regulação das plataformas sem transformar a gestão da visibilidade online numa decisão política. Para as redes sociais e para os meios de comunicação, a resposta poderá determinar não apenas quem aparece primeiro num feed, mas também quem consegue disputar a atenção do público na próxima fase da internet.












