O Imovirtual acaba de integrar o ChatGPT como ferramenta de pesquisa em linguagem natural, oferecendo uma forma mais intuitiva e contextual de procurar imóveis. Para falar sobre esta inovação e os impactos da inteligência artificial na experiência dos utilizadores e na estratégia da plataforma, conversámos com Sylvia Bozzo, Marketing Manager do Imovirtual.
Por Sandra M. Pinto
Em entrevista, Sylvia Bozzo explica como esta integração transforma a forma como os portugueses descobrem imóveis, personaliza a interação digital e cria novas oportunidades para anúncios e comunicação online.
O Imovirtual é o primeiro portal imobiliário português a integrar-se com o ChatGPT. Qual foi a motivação por detrás desta iniciativa e como se encaixa na estratégia geral da plataforma?
A forma como os utilizadores procuram informação está a mudar — e começa também fora dos canais tradicionais, nomeadamente em interfaces de inteligência artificial. Para o Imovirtual, esta integração enquadra-se numa estratégia mais ampla de garantir que o portal está presente nos novos pontos de entrada da jornada de quem procura casa e garantir que os anúncios continuam a ser descobertos nesses novos contextos. Ao integrar o ChatGPT, estamos a abrir um novo canal de contacto e a reforçar a visibilidade do portal num ecossistema digital em transformação.
Como surgiu a ideia de permitir pesquisas de imóveis através de linguagem natural, e de que forma esta tecnologia se diferencia das soluções de pesquisa tradicionais?
Precisamente da forma como os utilizadores naturalmente pensam e comunicam. Quando alguém procura casa, não pensa somente em filtros ou categorias — pensa em cenários, preferências e necessidades que descreve de forma espontânea. A pesquisa em linguagem natural permite aproximar a tecnologia dessa lógica. Em vez de obrigar o utilizador a adaptar-se a um sistema de filtros predefinidos, é o sistema que passa a interpretar aquilo que o utilizador diz de forma fluida e contextual. Do ponto de vista do marketing e da experiência digital, isto representa uma mudança relevante: a descoberta deixa de ser apenas funcional e passa a ser mais próxima de uma interação.
De que forma a pesquisa em linguagem natural transforma a experiência do utilizador e a jornada de pesquisa ou compra de imóveis?
A pesquisa em linguagem natural transforma sobretudo a fase inicial da jornada — o momento de descoberta. É nessa fase que os utilizadores muitas vezes ainda não têm critérios totalmente definidos e procuram explorar opções de forma mais aberta. Ao permitir iniciar a pesquisa através de uma conversa, a experiência torna-se mais intuitiva e menos estruturada, o que reduz a fricção inicial e facilita a entrada no processo. O utilizador deixa de ter de “traduzir” aquilo que procura para filtros e passa a poder expressá-lo diretamente. Isto não substitui a busca tradicional que continua a ser essencial numa fase mais avançada da decisão, mas complementa-a, criando um novo ponto de contacto mais alinhado com os comportamentos digitais emergentes.
Que oportunidades surgem para personalizar a experiência do utilizador e tornar o contacto com a plataforma mais relevante e intuitivo?
Essa personalização não se limita apenas à procura do imóvel em si. Permite também integrar informação relevante que está à volta da decisão, como valores de mercado, localização, características do bairro, acessos, proximidade a serviços ou outros fatores que influenciam a escolha de uma casa. Isto abre espaço para uma experiência mais contextual e informada, em que o portal deixa de apresentar apenas resultados e passa a apoiar o utilizador na compreensão do contexto em que esses imóveis se inserem. Do ponto de vista do marketing digital, isto representa uma mudança relevante: passamos de uma lógica mais estática, baseada em filtros e segmentações pré-definidas, para uma lógica mais dinâmica, onde a relevância é construída ao longo da interação.
Esta integração altera a forma como os anúncios e produtos do Imovirtual são comunicados e descobertos online?
Ao nível da descoberta, sim. Esta integração introduz um novo canal através do qual os anúncios podem ser encontrados, complementando os canais tradicionais, como motores de busca, acesso direto ao portal ou campanhas digitais. Isto permite ampliar os resultados apresentados, uma vez que, num sistema de filtros mais fechado, alguns imóveis poderiam não ser exibidos. Neste contexto, a pesquisa conversacional pode aumentar a visibilidade dos anúncios e criar mais oportunidades de exposição para os anunciantes.
Como os anunciantes e imobiliárias podem otimizar os seus anúncios para se destacarem dentro deste novo ecossistema de interfaces conversacionais?
A forma como os anúncios são publicados ganha ainda mais relevância. Isto significa que descrições detalhadas, com informação concreta sobre localização, características e atributos do imóvel como elevador e terraço e zona envolvente — como proximidade a serviços, transportes ou escolas — tornam-se ainda mais importantes. Por outro lado, também é relevante pensar na forma como os utilizadores expressam as suas necessidades e não apenas como o anunciante quer vender o imóvel. Do ponto de vista estratégico, isto reforça uma tendência mais ampla no marketing digital: a importância de conteúdos ricos, informativos e orientados para a intenção do utilizador.
Que métricas ou indicadores vão ser acompanhados para medir o impacto desta inovação na visibilidade e performance dos anúncios?
Nesta fase, o foco está em acompanhar indicadores que nos permitam perceber o papel desta integração na geração de descoberta e na qualidade do tráfego. Estamos particularmente atentos a métricas como o volume de interações, o acesso ao portal através deste canal e o comportamento dos utilizadores após essa interação — nomeadamente níveis de engagement, tempo de permanência e ações como contactos ou favoritos. Do ponto de vista estratégico, esta integração será avaliada como um novo canal no topo do funil, complementando outras fontes de tráfego e contribuindo para uma visão mais abrangente da jornada do utilizador.
A integração com o ChatGPT cria novas oportunidades para monetização, formatos de publicidade ou promoções dentro do Imovirtual?
Nesta fase, o foco está sobretudo na experiência do utilizador e na exploração do potencial deste novo canal. Para já, não prevemos a introdução de modelos de monetização ou novos formatos de publicidade associados a esta integração. É também importante reforçar que a experiência se mantém consistente com o funcionamento habitual: após a pesquisa, os utilizadores são encaminhados para o portal do Imovirtual, onde continuam o seu percurso e seguem o fluxo de contacto com os anunciantes.
Que papel acredita que a inteligência artificial terá na construção de confiança e relevância das marcas em marketplaces digitais?
A inteligência artificial terá um papel cada vez mais relevante na forma como a confiança e a relevância são construídas no ambiente digital. À medida que os utilizadores recorrem a estas interfaces para explorar opções e tomar decisões, a forma como a informação é apresentada — e a sua adequação à intenção do utilizador — torna-se um fator crítico. Marcas e plataformas que consigam oferecer experiências mais contextuais, consistentes e alinhadas com aquilo que o utilizador procura tendem a gerar maior confiança, porque reduzem a fricção e aumentam a perceção de utilidade. Neste contexto, a relevância deixa de ser apenas uma questão de visibilidade e passa a ser uma questão de adequação: estar presente no momento certo, com a resposta certa.
Esta evolução sugere que outras plataformas digitais terão de repensar as suas estratégias de marketing e descoberta de produtos? Como vê este futuro?
Sim, acredito que, à medida que a inteligência artificial começa a assumir um papel mais ativo na forma como os utilizadores encontram informação, isso obriga as marcas a repensar progressivamente as suas estratégias de marketing. Vemos, por exemplo, a tendência de zero-click search, em que o tráfego pode não acontecer nesse momento, porque a resposta é fornecida diretamente ao utilizador. Isso pode traduzir-se numa diminuição do tráfego para os sites, o que faz com que a visibilidade e a presença da marca voltem a assumir um papel central como KPIs. No fundo, esta evolução altera a forma como o marketing é pensado e executado, exigindo uma maior adaptação a novos contextos de descoberta e interação.
Na sua perspetiva, como o marketing em marketplaces vai evoluir à medida que interfaces de IA se tornam cada vez mais comuns?
Nos marketplaces, os anunciantes são os principais criadores de conteúdo, o que representa um desafio, já que exige um trabalho contínuo de educação, suporte e relacionamento por parte das plataformas. Ao mesmo tempo, o próprio marketplace pode — e deve — continuar a investir em conteúdos relevantes relacionados com a sua categoria. Num exemplo prático: uma agência imobiliária pode partilhar informação sobre uma determinada zona, mas o portal pode ampliar essa visibilidade ao apresentar, por exemplo, um panorama de preços médios dessa região. Para além do conteúdo, é também responsabilidade dos marketplaces investir em formas de atrair público e garantir a sua relevância ao longo da jornada. No final, é este trabalho conjunto que faz a diferença, criando uma relação win-win: o anunciante gera contactos e a marca reforça a sua eficácia e proposta de valor.
Que conselhos daria a empresas que queiram explorar interfaces conversacionais para melhorar a sua visibilidade, relevância e relacionamento com os clientes?
O primeiro passo é perceber as necessidades dos seus clientes, que variam de acordo com o nicho de mercado em que estão inseridas. É importante mapear os pontos de contacto e avaliar onde — e se — uma solução de inteligência artificial pode realmente acrescentar valor. Se for para melhorar efetivamente a experiência, então faz sentido avançar, mas não apenas porque é uma tendência ou porque todos o estão a fazer. Para isso, será essencial contar com o suporte de uma equipa técnica, que permita encontrar a melhor solução — seja ao nível de integrações com sistemas existentes, definição de tom de voz ou questões de privacidade. O conteúdo, como já falámos, continua a ser central. A marca deve estar estruturada para ir além de uma lógica transacional, assumindo um papel de facilitador ao longo de todo o processo.
Que competências e abordagens estratégicas os profissionais de marketing devem desenvolver para se adaptarem a este novo contexto digital mediado por inteligência artificial?
Diria que um mix de competências de estratega, criativo, analítico e muita curiosidade para aprender e evoluir. Acho que também cabe ao Marketing promover essa educação interna junto das equipas de outras áreas. Com tudo mais coeso e alinhado, torna-se mais fácil pensar de forma conjunta em soluções para os clientes. Estes, como sempre, devem estar no centro de tudo. Estamos a passar por uma das grandes transformações tecnológicas, que vai mudar a forma de trabalhar e a forma como as marcas se posicionam. Ser profissional de Marketing neste momento é, a meu ver, muito entusiasmante e deve ser encarado como tal — não numa lógica de ameaça ou substituição por máquinas, mas como uma oportunidade de evolução.
Que impacto espera que esta integração tenha na forma como os portugueses pesquisam imóveis e interagem com plataformas online?
Esta integração tem potencial para tornar a experiência de pesquisa mais intuitiva e mais alinhada com a forma como os utilizadores naturalmente pensam quando procuram casa. Sabemos que este é um processo exigente, especialmente num mercado marcado por um desequilíbrio entre oferta e procura. Nesse contexto, é fundamental que os utilizadores se sintam mais informados e confiantes ao longo da sua decisão. Ao permitir uma pesquisa mais natural e contextual, esta abordagem pode facilitar a fase inicial de descoberta e ajudar a clarificar necessidades, tornando o processo mais acessível e eficiente. Ao mesmo tempo, é importante sublinhar que este é um esforço conjunto. Cabe a todos os intervenientes — banca, agências imobiliárias e portais — contribuir para simplificar esta jornada e apoiar os utilizadores ao longo de todo o processo.
Para além da inovação tecnológica, qual é a mensagem central que gostaria de transmitir sobre marketing, estratégia e evolução digital com esta iniciativa?
A principal mensagem é que as marcas devem ser inovadoras e sair da sua zona de conforto, mas de forma consciente e estratégica. Mais do que seguir tendências, é essencial perceber se as soluções adotadas são realmente relevantes para os seus clientes. A inteligência artificial veio para ficar e o marketing tem um papel central neste processo — não só na sua aplicação, mas também na forma como educa internamente as organizações e trabalha em conjunto com outras equipas para desenvolver soluções com impacto real.
Hoje, características como curiosidade, inteligência emocional, vontade de aprender e abertura ao novo são fundamentais para qualquer profissional. Ao mesmo tempo, os consumidores estão cada vez mais exigentes e seguem jornadas menos lineares, o que obriga as marcas a adaptarem-se e a repensarem continuamente a forma como se posicionam e comunicam. Este contexto cria um desafio, mas também uma oportunidade clara: sair da zona de conforto para construir experiências mais relevantes e alinhadas com as expectativas reais dos utilizadores.














