Depois de mais de um mês da entrada em vigor do Volta, o sistema de depósito e reembolso de embalagens continua a dividir opiniões. Perante dúvidas práticas, críticas nas redes sociais e alguma resistência inicial dos consumidores, a SDR Portugal garante, contudo, que o arranque está a cumprir os objetivos previstos e sublinha que Portugal está apenas a atravessar a inevitável fase de adaptação que outros países já viveram antes de transformar a devolução de garrafas e latas num gesto rotineiro.
“Estamos a assistir ao início de uma mudança comportamental”, resume Lia Oliveira, diretora de marketing e comunicação da SDR Portugal/Volta, ao fazer o balanço das primeiras semanas do sistema, que arrancou oficialmente a 10 de Abril. A responsável admite que o processo implica “um período de adaptação”, mas sublinha que os primeiros indicadores são positivos, apontando que mais de um milhão de embalagens já foram devolvidas através da rede Volta em “pouco mais de um mês”, o que equivale a cerca de 5% das embalagens colocadas no mercado neste arranque.
“Sendo um sistema que está ainda numa fase inicial de implementação, estes números dão-nos confiança relativamente ao envolvimento dos consumidores à medida que mais embalagens Volta chegam ao mercado“, diz.
O desafio, reconhece, é de grande dimensão, sendo que a implementação do sistema impacta 10,7 milhões de consumidores, cerca de 30 milhões de turistas por ano e quase 95 mil operadores económicos. Mas, ainda assim, a SDR Portugal considera ter conseguido arrancar com uma infraestrutura robusta, composta por cerca de 2.500 pontos Volta distribuídos pelo país, número que deverá chegar aos 3.000 nos próximos meses. A isto juntam-se ainda 50 quiosques Volta previstos para 38 municípios.
A complexidade operacional ajuda também a explicar parte das críticas que rapidamente inundaram as redes sociais desde os primeiros dias de funcionamento. Entre consumidores confusos sobre que embalagens podem ser devolvidas, dúvidas relativas ao reembolso ou reclamações sobre a coexistência temporária de embalagens com e sem símbolo Volta, a SDR Portugal reconhece que o período de transição – que termina a 9 de agosto – está longe de ser simples.
Ainda assim, Lia Oliveira relativiza a contestação, apontando que não têm sido registadas apenas críticas. “Pelo contrário, temos recebido muitas reações positivas e apoio por parte de muitos consumidores, que valorizam o facto de finalmente existir um mecanismo simples e direto para garantir que estas embalagens regressam efetivamente ao ciclo”, diz.
“Muitos, inclusivamente, falam sobre experiências que já tiveram no estrangeiro, em países com sistemas de depósito e reembolso implementados. Nas redes sociais encontramos críticas, mas também encontramos muita curiosidade e uma participação ativa dos consumidores quando percebem que o sistema afinal não é complicado e que é bastante intuitivo“, acrescenta.
“As pessoas querem respostas rápidas, linguagem clara e exemplos concretos”
A SDR Portugal admite, porém, que esta primeira fase obrigou a reforçar o esforço pedagógico. “Quando estamos perante uma mudança de hábitos desta dimensão, as pessoas querem respostas rápidas, linguagem clara e exemplos concretos”, explica Lia Oliveira, sublinhando o papel central da comunicação na implementação do sistema.
“Procuramos manter uma comunicação próxima com os cidadãos que nos acompanham e interagem nas redes sociais, respondendo às questões que são colocadas nas páginas da Volta e da SDR Portugal. Queremos que as pessoas se sintam informadas, clarificadas e empoderadas para utilizar o sistema no dia a dia“, afirma.
Depois de uma primeira vaga mais focada na notoriedade e no reconhecimento da marca Volta, a estratégia entrou depois numa segunda fase, mais prática e explicativa, sendo que a campanha protagonizada por Vasco Palmeirim e Inês Lopes Gonçalves teve precisamente esse objetivo de simplificar um sistema potencialmente complexo e aproximá-lo dos consumidores através do humor e da familiaridade.
Sobre esta campanha em específico, Lia Oliveira faz um balanço é muito positivo porque conseguimos explicar um sistema novo de forma “leve, próxima e acessível”, refere a diretora de marketing e comunicação, acrescentando que o Vasco Palmeirim e a Inês Lopes Gonçalves “ajudaram muito a humanizar a mensagem e a aproximá-la das pessoas através do humor e da simplicidade“.
“A campanha tinha o objetivo claro de mostrar que este é um gesto simples, com impacto real, e que qualquer pessoa consegue integrar facilmente no dia a dia. E sentimos que isso foi conseguido. A notoriedade da marca Volta cresceu muito rapidamente e hoje já existe um reconhecimento significativo do símbolo e do conceito“, diz também.
A comunicação tornou-se, aliás, uma das principais prioridades nesta fase inicial, estando a SDR Portugal a reforçar conteúdos explicativos, presença digital, comunicação nos pontos de recolha e respostas diretas aos consumidores, numa tentativa de reduzir fricções e dissipar dúvidas. Para Lia Oliveira, o maior desafio para o sucesso da Volta nesta fase não passa por problemas técnicos nem por resistência cultural estrutural, mas sobretudo por “continuar a garantir informação clara e proximidade com os consumidores“.
“Os portugueses têm demonstrado, nas situações mais variadas, uma enorme capacidade de adaptação quando percebem o propósito das medidas. Sabemos que as mudanças trazem desconforto e geram dúvidas, mas também sabemos que estamos focados e disponíveis para clarificar, apoiar e incentivar a participação de todos”, defende.
A convicção da SDR Portugal apoia-se também na experiência internacional, com a responsável a indicar que países como Irlanda, Áustria, Eslováquia ou Lituânia enfrentaram resistências semelhantes nas primeiras semanas, antes de atingirem taxas de recolha superiores a 90%. “Existe uma evidência muito sólida de que os consumidores se adaptam rapidamente quando o sistema se torna parte da rotina”, sustenta Lia Oliveira.
No centro da narrativa da SDR Portugal está igualmente a tentativa de contrariar uma das críticas mais frequentes feitas nas últimas semanas: a ideia de que o sistema penaliza quem já reciclava regularmente. A responsável rejeita essa leitura, com Lia Oliveira a sublinhar que para os consumidores que já reciclavam regularmente, a Volta “não vem substituir o esforço de quem já fazia reciclagem, nem pretende penalizar estas pessoas; vem precisamente potenciar esse comportamento e garantir maior eficiência ambiental”.
“Este sistema permite recolher embalagens com elevada pureza e rastreabilidade, tornando possível a reciclagem ‘garrafa a garrafa’ e ‘lata a lata’. Ou seja, permite transformar novamente embalagens em novas embalagens, reduzindo a necessidade de recurso a matéria-prima virgem. A participação destes cidadãos é essencial para cumprir as metas ambientais, sendo que desempenham também um papel importante na influência positiva dos comportamentos da restante população”, acrescenta.
E a ambição é elevada, pois Portugal terá de atingir uma taxa de recolha seletiva de 90% até 2029, cumprindo metas europeias progressivamente mais exigentes: 40% já este ano, 80% em 2027 e 85% em 2028. Até lá, a SDR Portugal sabe que continuará sob escrutínio, sobretudo numa altura em que, por exemplo, a marca Água das Caldas de Penacova lançou uma nova embalagem de 3,1 litros, litragem que permite que a mesma não seja abrangida pela taxa de 10 cêntimos de depósito, o gerou um debate intenso e fez furor nas redes sociais.
O administrador e um dos fundadores da marca garantiu no entanto à Marketeer que o objetivo não foi “contornar” mas sim “responder ao mercado”. Segundo garante Urbano Marques, a nova embalagem “não foi pensada para contornar nada”, garante, mas apenas para “oferecer mais um produto ao mercado”.
Perante o caso, e questionada pela Marketeer, a SDR Portugal, entidade gestora do sistema Volta diz apenas que “respeita a liberdade comercial dos operadores, mas mantém como princípio – e recomendação – a promoção de soluções alinhadas com os objetivos do sistema em vigor”.
“Quanto maior for o número de embalagens encaminhadas para a Volta, mais plenamente Portugal cumprirá as exigentes metas a que está obrigado. A SDR Portugal, enquanto entidade gestora responsável pela implementação do Sistema de Depósito e Reembolso, segue comprometida com a sua missão de contribuir para o aumento da recolha seletiva de embalagens de bebidas de uso único e para a criação de uma verdadeira economia circular em Portugal, contando com o apoio de todos para o cumprimento deste desígnio nacional”, acrescenta.














