O regresso do Paraguai a um Campeonato do Mundo, 16 anos depois, deveria ser motivo de celebração unânime. No entanto, a apresentação da nova camisola oficial da seleção abriu uma fratura inesperada entre adeptos e marcas, ao ser amplamente criticada nas redes sociais por alegada falta de identidade nacional.
Foi neste contexto que surgiu uma das campanhas mais invulgares do momento. A marca paraguaia Billy Smash, em parceria com a agência El Creativo, apresentou uma camisola alternativa que incorpora simbolicamente sangue do antigo internacional Salvador Cabañas — uma figura incontornável do futebol paraguaio — como expressão de um alegado “ADN nacional”.
A iniciativa nasce diretamente da reação dos adeptos. Nos dias que se seguiram à revelação do equipamento oficial, multiplicaram-se comentários, memes e vídeos, sobretudo no TikTok, onde se questionava o afastamento do design face aos símbolos tradicionais do país. A frase “tem a terra vermelha, mas não a nossa identidade” acabou por sintetizar o descontentamento e servir de ponto de partida para a campanha.
Mais do que um gesto provocador, o projeto constrói-se sobre uma narrativa de memória coletiva. A camisola recupera referências históricas da seleção paraguaia, incluindo as quatro faixas vermelhas do equipamento utilizado no Mundial de 1930 e detalhes inspirados em participações posteriores, como França 1998 e África do Sul 2010.
Neste enquadramento, a utilização simbólica do sangue de Cabañas — cuja carreira mantém forte ligação emocional tanto no Paraguai como no México — surge como elemento de autenticidade, transformando a peça num objeto que procura transcender o estatuto de simples merchandising desportivo.
O episódio evidencia uma tensão crescente no futebol contemporâneo: o equilíbrio entre a uniformização global dos equipamentos, muitas vezes orientada por critérios comerciais, e a expectativa dos adeptos por representações fiéis da identidade cultural.
A resposta da Billy Smash mostra como marcas fora do circuito oficial podem ocupar esse espaço, apropriando-se de narrativas emocionais que escapam à lógica tradicional do patrocínio. Ao fazê-lo, a campanha não se limita a propor uma alternativa estética, mas ensaia uma reflexão mais ampla sobre pertença, memória e representação no desporto.












