A edição portuguesa da Esquire chegou esta segunda‑feira às bancas através da editora Lighthouse Publishing, marcando um novo capítulo no segmento das revistas masculinas em Portugal. O lançamento, liderado por José Santana, representa simultaneamente uma continuidade e uma reinvenção, com a Esquire a suceder diretamente à GQ Portugal, mas com uma ambição editorial renovada e uma visão clara sobre o papel do print em 2026.
“No fundo, não deixa de ser uma substituição direta”, admite José Santana, diretor da nova publicação, tendo em conta que a GQ – que era editada em Portugal também pela Lighthouse Publishing – deixou de ser publicada e que, curiosamente, a sua primeira edição de 2026 teria também chegado às bancas em março. Mas, para José Santana, a mudança é mais profunda do que uma simples troca de título, representando uma “evolução do caminho” e do que José Santana “pretendia em termos editoriais”.
Num momento em que o digital domina o consumo de conteúdos, o lançamento de uma nova revista impressa pode parecer um movimento arriscado ou contracorrente, mas José Santana rejeita essa leitura e enquadra a aposta num reposicionamento mais amplo do papel enquanto produto premium.
“O papel não morreu, tem vindo a transformar-se. As revistas que sobrevivem hoje são objetos de elevada qualidade, quase peças de coleção”, afirma o diretor da nova publicação, apontando que se tem assistido a uma “redescoberta” do físico por parte das novas gerações, à semelhança do que acontece com o vinil ou a fotografia analógica.

A componente de coleção é, aliás, um dos fatores que podem impulsionar o sucesso da Esquire, tendo em conta que “há um apelo especial em começar a acompanhar uma revista desde o número um”, nota o diretor.
José Santana reconhece as dificuldades do mercado editorial português, mas identifica sinais de mudança. “As pessoas estão mais a voltar ao papel do que há quatro anos. Mas é um nicho, e um nicho exigente”, afirma, acrescentando que, para sobreviver, as revistas têm de oferecer algo que o digital não proporciona, como profundidade, surpresa e uma experiência imersiva. “Uma revista permite descobrir temas que não estávamos à procura nem à espera. Essa é a sua magia, virar a página e sermos confrontados com algo que não esperávamos”, acrescenta.
A própria Esquire, fundada em 1933 nos Estados Unidos, continua a expandir-se internacionalmente, com novos lançamentos previstos também noutras geografias, como em França. “Nascer em Portugal em 2026 é um sinal claro da vitalidade do print”, sublinha.
Com o seu primeiro número lançado esta segunda-feira, a publicação terá uma periodicidade bimestral, com seis edições por ano, numa opção que, segundo José Santana, responde à necessidade de dar mais tempo ao leitor. “Por incrível que pareça, toda a inovação tecnológica não nos deu mais tempo. Na verdade, sentimos sempre que não temos tempo. O que nos faz mais sentido é ter a revista mais tempo em banca e dar mais tempo ao leitor para ler”, explica à Marketeer.
Em termos editoriais, a Esquire Portugal posiciona-se como uma revista de lifestyle com forte componente cultural, diferenciando-se ligeiramente da GQ, tradicionalmente mais centrada na moda. “Costuma dizer-se que a Esquire é uma revista de lifestyle com moda, enquanto a GQ é uma revista de moda com lifestyle. É um pouco essa a diferença”, resume o diretor.

A publicação dirige-se maioritariamente a um público masculino, mas sem exclusividade, até porque “uma revista de qualidade, com bons textos, não tem género”. Entre os temas abordados estarão cultura, saúde física e mental ou moda, com entrevistas e reportagens a darem espaço tanto a figuras consagradas como a novos talentos.
A edição de estreia distingue-se por não apresentar uma figura de capa, optando antes por uma abordagem mais “conceptual”, apresentando a revista e a sua história, naquela que é uma exceção num projeto que, futuramente, deverá alternar entre personalidades nacionais e internacionais na capa, com o objetivo de captar a atenção do público e valorizar o talento português.
Mas apesar da centralidade do papel, a estratégia da Esquire Portugal passa por um modelo integrado, que inclui presença digital, redes sociais, vídeo e eventos, funcionando o digital como complemento da edição impressa. Entre as iniciativas previstas estão conteúdos exclusivos acessíveis através de QR codes na revista, bem como versões em vídeo de entrevistas.
“Hoje uma revista é um ecossistema”, afirma José Santana. “O leitor pode escolher: ler em papel, ver no telemóvel ou fazer ambos. É uma experiência 360º”, acrescenta, avançando ainda a intenção de lançar prémios para distinguir os homens que se destacaram ao longo do ano, seja a nível artístico, científico, etc.
A edição portuguesa da revista pretende refletir a realidade local, sendo que a integração na rede internacional da Esquire também não é um impeditivo nem um fator de limitação para uma forte adaptação ao contexto nacional. “Há sempre diferenças entre países, mas o DNA mantém-se: a procura do que é ser homem hoje em dia”, refere o diretor, acrescentando que a liberdade editorial é significativa, desde que se respeite a identidade da publicação.
Sem avançar metas ou objetivos concretos de vendas, José Santana prefere focar-se na qualidade do produto, acreditando que se o trabalho for bem feito, o resultado virá atrás, sendo que a médio prazo, o objetivo passa por tornar a Esquire Portugal numa referência internacional e um elemento presente nas estantes dos leitores. “Gostava de a ver na coleção das pessoas e de ser considerada uma das melhores edições do mundo”, afirma.
Mas mais do que isso, José Santana acredita que o lançamento pode contribuir para revitalizar o setor, defendendo a ideia de que as revistas não competem entre si, mas que se reforçam mutuamente. “Não sei porque achamos sempre em Portugal que as revistas competem umas com as outras. Quanto mais força um título tiver, mais força os outros também têm. Uma pessoa que se apaixone com a leitura de uma revista, inevitavelmente vai comprar outras revistas também para ler”, diz.
A nível pessoal, o diretor reconhece que “é sempre uma adrenalina começar algo do zero”. “E eu preciso de acordar apaixonado pelo que faço, é o que me faz sentido, e a Esquire é precisamente isso que significa para mim agora”, conclui.














