Pode ser-se influenciador sem estar no digital?

O final do programa da 13.ª Conferência Marketeer prometia um combate de titãs opondo Ana Garcia Martins (influenciadora também conhecida como “A Pipoca Mais Doce”) a Miguel Sousa Tavares (jornalista, comentador e escritor), como moderação de Pedro Pinto, subdirector de informação da TVI. E quem esteve presente no Centro de Congressos do Estoril não saiu defraudado com os argumentos que foram esgrimidos do lado da influenciadora digital e do outro lado, o do influenciador nos meios tradicionais.

Respondendo ao mote da conferência que questionava “Quando valem os influenciadores?”, Ana Garcia Martins defende que o valor depende do influenciador e de quanto a marca está disposta a pagar. «Depende do tipo de parceria e da relação com a marca.»

E se dúvida houvesse de que os influenciadores têm valor, a cara por detrás do blog “A Pipoca Mais Doce” lembra que a publicidade está a fugir dos meios tradicionais e a ir para o digital. «Umas marcas apanharam o comboio mais cedo do que outras.» Mas, adverte, «é uma realidade recente e não conseguimos prever para onde se vai encaminhar» e o certo é que «estamos a entrar na massificação e as pessoas já se começam a sentir invadidas». Ainda assim, a influenciadora não acha que seja possível ser um bom influenciador sem estar no digital.

No seu modo de falar sem floreados, Miguel Sousa Tavares não hesita: «A Ana representa um mundo onde não estou e não quero estar, nem na vida pessoal nem profissional.» O jornalista defende que está demasiado ocupado a viver para fazer essas coisas. «Os influenciadores demoram mais tempo a contar a vida do que a vivê-la», opina o também escritor, que encara o jornalismo e a escrita como uma missão. «Não estou a ver o Ministério da Cultura grega a patrocinar-me», diz arrancando uma gargalhada à audiência. Em tom mais sério, garante que o facto de a publicidade se deslocar para o digital faz sofrer o jornalismo. Mas acredita que aí os culpados são também aqueles que se dedicam a fazer publicidade já que – refere – a incapacidade de fazer publicidade bem feita leva as marcas ao digital. «Temos muito má publicidade em Portugal», assegura, confessando que tem o sonho de quando deixar o jornalismo ir fazer publicidade. «Uma vez fui a um festival de publicidade com peças de publicidade muito bem-feitas, com textos muito bem escritos», diz.

Provocando a sua interlocutora, Miguel Sousa Tavares pergunta-lhe quantos seguidores tem ao que Ana Garcia Martins responde “quase 350 mil”. «350 mil pessoas a segui-la? Eu se tivesse uma pessoa já estava preocupado», garante. E conta que há uns dias esteve na praia e entreteve-se a observar um grupo de jovens junto à água a tirar fotografias umas às outras e que, terminada a sessão, foram para debaixo do chapéu publicar as fotos e verificar com frequência quantos likes tinham. «Até se esqueceram dos motivos de irem à praia. É uma adição.»

A influenciadora lembra que há muita pressão nas redes sociais e que o facto de o Instagram ter já implementado em alguns países a abolição da visualização do número de likes tem como objectivo, precisamente, a redução da pressão e a promoção de conteúdos de maior qualidade. A verdade, diz, é que há muita mimetização no Instagram. «Produtores e consumidores de conteúdos, todos temos de mudar a nossa forma de estar nas redes sociais.»

Juntando mais achas na fogueira, Pedro Pinto provoca: «Não é por ter um milhão de seguidores que é uma boa influência.» Daí que A Pipoca Mais Doce garanta que tenta envolver as pessoas em causas cívicas.

Garantindo que nem tudo são rosas e que não andam de festa em festa, Ana Garcia Martins lembra que quando criou o seu blog foi porque percebeu que no jornal onde trabalhava não podia escrever sobre o que queria e como queria. «Pareceu-me uma boa ideia para partilhar as parvoíces que me apetecesse. Nunca imaginei que poderia viver disso.» Mas se esta influenciadora – pela idade que tem – sabe o que é viver sem internet, há muitas outras que agora estão a começar e que têm a ilusão de que tudo é glamoroso.

«As pessoas vendem-se nas redes sociais por aquilo que querem parecer ser. As redes sociais são a ilusão de que não há solidão. A vida tem felicidade, mas também tem tristeza e solidão. Isso não se vê com as redes sociais», acrescenta Miguel Sousa Tavares, garantindo que nunca teve uma rede social por ter imaginado desde logo que era uma maneira de enganar a vida. «Continuo a achar que a melhor rede social é um grupo de amigos à mesa de um café. Os sapatos e o champô distraem as pessoas do essencial da vida.»

Aliás, na opinião do jornalista, as eleições de políticos como Trump e Bolsonaro são produto das redes sociais. «Há votos manipulados, as pessoas deixam-se manipular. Nunca George Orwell imaginou que as ovelhas seriam vigiadas pelo big brother por sua própria vontade!»

Mas num aspecto os dois influenciadores estão de acordo: devia haver formação nas escolas para os mais novos, que nasceram com os ecrãs, terem ferramentas para lidar com este mundo. Até porque «há o perigo da má educação e do insulto a coberto do anonimato», lembra Miguel Sousa Tavares. E Ana Garcia Martins acrescenta: «Nem toda a gente merece ter voz. Às vezes, é má educação pura e dura, um saco de pancada. Se estivessem cara a cara não diriam aquilo.»

Texto de Maria João Lima

Foto de Paulo Alexandrino

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