Dores nas costas nas crianças. A necessidade urgente de uma postura correcta

Por Luís Teixeira | Médico ortopedista do Spine Center

“De pequenino se torce o pepino”, costuma dizer-se. E quando falamos de dores nas costas este ditado faz muito sentido. É na infância que se devem promover bons hábitos posturais, a fim de prevenir problemas futuros na coluna vertebral e cervical

A fase escolar é marcada por transformações significativas a nível motor e psicossocial na vida das crianças e adolescentes, pelo que é importante que os pais estejam atentos às queixas dos filhos e que intervenham na sua correcção postural, a fim de criar bons hábitos preventivos. Sensibilizar a população mais jovem a promover hábitos saudáveis e uma postura vigilante em relação à coluna é indispensável.

Como surgem as dores nas costas nas crianças?

As dores nas costas nas crianças podem ser provocadas por inúmeros factores, sendo os principais relacionados com uma má postura à secretária ou à mesa, um excesso de carga no transporte das mochilas, falta de exercícios de fortalecimento dos músculos da coluna vertebral e um aumento dos hábitos sedentários (muitas horas sentados), obesidade, assim como o excesso de tempo passado em tablets ou smartphones. Também algumas lesões ou quedas podem acabar por gerar dores lombares nas crianças.

E qual a idade mais comum?

De acordo com um estudo publicado no jornal científico “American Journal of Neuroradiology”, cerca de 50% das crianças terão sentido alguma dor nas costas até aos 15 anos. Mas geralmente, antes dos 5 anos, será difícil que o seu filho sinta algum desconforto na coluna, uma vez que a sua estrutura muscular ainda não sofreu um grande desgaste. Eu diria que a partir dos 7 anos deve existir uma maior vigilância por parte dos pais a este nível.

Causas de dores nas costas:

Peso das mochilas

Há cerca de um ano a associação sem fins lucrativos Spine Matters realizou um estudo numa escola em Lisboa, que apontou alguns resultados preocupantes: 1/3 das crianças em idade escolar tem dores nas costas mas não vai ao médico. Com uma amostra de 110 alunos entre o 1.º e o 9.º ano de escolaridade, a investigação revelou que 37% dos inquiridos sofrem de dores nas costas, mas que apesar disso apenas 3% consultaram um médico a esse propósito. A investigação demonstrou ainda que é no 7.º ano que se encontra a maior carga transportada, com uma média de sete livros por aluno.

Estes dados, embora de uma fase preliminar de um estudo, são importantes, pois espelham as consequências de uma carga desadequada e contínua durante o período escolar, numa fase de crescimento de crianças e adolescentes. Muitos alunos suportam 15% ou mais do que o seu peso corporal, em mochilas desadequadas, afectando os ângulos dos ombros, pescoço, tronco e membros inferiores, assim como a postura de forma global ao provocar uma curvatura anormal nas costas.

Uma das situações mais alarmantes que apurámos foi a desvalorização das dores nas costas destes alunos. Quando inquiridos sobre as cadeiras, tempo passado à secretária ou locais de estudo, não foi relacionada nenhuma percentagem significativa de casos em que sentem dor nesses momentos. No entanto, em relação às mochilas que usam, existe uma ligação imediata e a reacção é comunicada aos pais em 71% dos casos. Contudo, e apesar de ser uma realidade constante, não são consultados especialistas para auxiliar e travar a situação.

Dicas para os pais:

Pese as mochilas dos seus filhos antes de saírem de casa. Se a carga exceder 15% do seu próprio peso, então é necessário retirar carga. Esta é uma recomendação que deve ser respeitada de forma rigorosa, gerindo o horário da criança de forma o mais atenta possível. Por exemplo, sempre que não necessários, os livros devem ficar na escola, nos cacifos. Pese regularmente a mochila e incentive o seu filho a organizar e planear os materiais necessários para cada dia de escola.

Corrija os seus filhos se a mochila estiver a ser transportada com as alças muito soltas: quando se encontra já perto do fim das costas, a pressão causada na coluna é muito elevada. Todas as mochilas devem ter as alças apertadas e justas para que não haja oscilação de peso.

Se a escola tiver escadas, prefira uma mochila com duas alças largas, bem adaptada ao tamanho da criança, com um encosto maleável e divisórias que ajudem na distribuição do peso. As malas de rodinhas nem sempre são boas alternativas, pois podem sobrecarregar um único braço. Se for o caso, ensine o seu filho a alternar os lados do transporte.

Pescoço de “SMS”

O tempo passado nos smartphones (com o pescoço curvado) e em jogos de computador é muito superior ao que seria desejado, em particular nas crianças. Para além dos riscos de acidentes, explicados pela concentração quase exclusiva num ecrã, remetendo para segundo plano o mundo real, já há muito que são conhecidos os perigos do “pescoço de SMS”. Os estudos realizados na área revelaram que a força e peso exercidos no pescoço a olhar para o telemóvel correspondem a uma pressão extrema para esta zona, que pode conduzir a um desgaste precoce e a alterações degenerativas. Ao longo do dia, na consulta regular das redes sociais, ou no envio de mensagens, o tempo despendido é preocupante e francamente prejudicial.

Dicas para os pais:

O dispositivo não deve estar ao nível dos olhos. Procure que os seus filhos olhem para o telemóvel ou tablet sem inclinarem a cabeça. Não permita que apoiem estes dispositivos no colo.

Faça movimentos com o pescoço para a esquerda e para a direita tocando com o ouvido no ombro de ambos os lados, para aliviar a tensão na região cervical.

Limite o uso dos aparelhos e institua pausas obrigatórias de relaxamento muscular, que podem ser acompanhadas de alongamentos.

Postura à secretária

As crianças e os adolescentes têm uma grande tendência para desenvolver retracções musculares, devido ao tempo em que permanecem sentadas. É, por isso, muito importante, que os pais se certifiquem de que a postura dos seus filhos, quando estão sentados, é a mais adequada e que os ensinem desde cedo a corrigir os seus hábitos.

Dicas para os pais:

Verifique se tem uma cadeira confortável com um apoio lateral (nos braços) e que acompanhe as costas, mantendo-as rectas, mas não em demasia. Isto é, a cadeira não deve ser rígida, mas sim móvel, e ajustável para que as costas tenham uma posição direita, porém natural. Esta deve ainda ter um assento regulável, de forma a que os pés fiquem apoiados no chão, num ângulo de 90 graus. A mesa deve ter espaço suficiente para as pernas.

Incentive as pausas a cada 40 minutos. Uma pequena caminhada é importante para aliviar as tensões de uma postura repetida, bem como alongamentos. Além disso, a hidratação é fundamental.

Exercício físico

Desde os primeiros anos de vida, que a criança deve aprender a “olhar” pela sua postura. Aprender a apanhar algo do chão, por exemplo, dobrando-se de joelhos em vez de curvar as costas, ou a manter a coluna recta com as coxas paralelas ao chão, quando estiver sentada. É por isso que a prática de actividade física surge como algo importante nesta aprendizagem, sobretudo para fortalecer os impactos e os músculos, e como garantia de uma melhor mobilidade e agilidade no futuro. No que toca a desportos mais adequados, os aquáticos são sempre uma boa ideia, uma vez que a ausência de impacto nas articulações permite uma liberdade de movimento e normalidade na respiração e circulação, que são benéficas.

O colchão

Apesar de menos frequentes, as dores causadas por uma má postura durante o sono podem surgir. Pelo que uma almofada adequada (e ortopédica), assim como um bom colchão, devem ser considerados. Verifique se a almofada está bem colocada, deitando a criança de lado e identificando se deixa o pescoço, a cabeça e a coluna alinhados.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº4 de Junho de 2018.

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