A gastronomia portuguesa ganhou recentemente uma nova estrela: Rafaela Ferreira, distinguida como “Chef Revelação 2025”. Apaixonada pelo prazer de comer bem, Rafaela transformou essa paixão numa carreira marcada por exigência, rigor e autenticidade. Com experiências enriquecedoras em estágios no Hotel Casa da Ínsua e no restaurante estrelado Feitoria, aprendeu a importância da técnica, da organização e da valorização dos produtores locais.
Por Sandra M. Pinto
Hoje, à frente da cozinha do restaurante Exuberante, Rafaela alia conforto, sabor e inovação, conquistando tanto clientes quanto a crítica especializada. Nesta entrevista, partilha o seu percurso, o estilo de cozinha que a define, a forma como lidera a sua equipa e como construiu uma marca pessoal sólida no panorama gastronómico nacional.
Pode contar-nos como surgiu a paixão pela cozinha e o que a motivou a seguir esta carreira?
Acho que a paixão pela cozinha foi uma feliz consequência da paixão que tenho por comer bem.
Durante os seus estágios no Hotel Casa da Ínsua e no restaurante Feitoria, quais foram os principais desafios que enfrentou e as maiores aprendizagens?
Os desafios foram os mesmos: conseguir adaptar-me e ter maturidade para enfrentar uma cozinha a sério, exigência, pressão e tudo o que envolve a profissão. As aprendizagens foram muito diferentes, na Casa da Ínsua participei na preparação e produção de serviços grandes para 200/300 pessoas e isso foi muito importante para eu conseguir ganhar organização, método e resistência. Trabalhar para esse volume obriga-nos a planear bem e a antecipar problemas. No Feitoria, um restaurante estrelado, aprendi muito a nível de rigor, perfecionismo, muitas técnicas novas, método e consistência.
Trabalhar ao lado de um chef com estrela Michelin, como o André Cruz, influenciou a sua forma de cozinhar? De que maneira?
Claro! E muito. Trabalhar ao lado do chef André não só influenciou como cozinho, mas também como vejo e valorizo os produtores com que trabalhamos. O Chef André respeita muito a tradição, a qualidade do produto e a relação com o produtor e sem dúvida que trago esses princípios sempre comigo.
Ao assumir a liderança da cozinha do Exuberante, quais foram os maiores desafios que encontrou?
Abrir um restaurante, dentro de um hotel, e começar a pensar nele ainda em fase de obra foi muito desafiante. Acho que esse foi mesmo um dos maiores desafios: gerir expectativas, resolver problemas que iam surgindo e, ao mesmo tempo, manter a visão clara do que queria que o restaurante fosse desde o primeiro dia. Foi um processo muito desafiante, porque tudo estava a nascer ao mesmo tempo: conceito, equipa, carta, identidade e ao mesmo tempo lidar diariamente com os imprevistos próprios de uma obra.
Como descreveria o seu estilo de cozinha e a identidade que pretende transmitir aos clientes do Exuberante?
A cozinha que fazemos no exuberante é uma cozinha direta, de conforto… sem filtros. Bom produto, comida gulosa e pessoas felizes à mesa.
De que forma lidera e inspira a sua equipa na cozinha?
Lidero pelo exemplo. Gosto de estar presente, de trabalhar lado a lado com a equipa e de mostrar, na prática, o nível de exigência que procuro. Acredito que a coerência é fundamental: não posso pedir rigor, compromisso e entrega se não os der primeiro.
O selo de restaurante “Recomendado” pelo Guia Repsol em 2025 representa um reconhecimento importante. Qual foi a sensação ao receber esta distinção tão pouco tempo após assumir a cozinha?
Foi muito bom! Foi sentir que ainda tínhamos (e temos!) muito caminho a percorrer, mas que estávamos na direção certa.
Hoje é reconhecida não só como chef, mas também como uma “marca” no panorama gastronómico. Como define a sua imagem profissional?
Acho que a minha imagem profissional está assente em 4 pilares muito importantes: autenticidade, proximidade, profissionalismo, consistência. Autenticidade, porque é o que realmente nos diferencia uns dos outros. Proximidade, porque acredito numa liderança presente, acessível e humana e também nas relações com os colegas de profissão. Profissionalismo, porque levo muito a sério a responsabilidade de representar um restaurante, uma equipa e um projeto. Isso reflete-se no rigor, na preparação e na forma como encaro cada serviço. E consistência, porque mais importante do que momentos pontuais é manter o nível todos os dias.
De que forma construiu a sua identidade enquanto chef e líder de cozinha? Há algum traço que considera essencial na sua “marca”?
A minha identidade enquanto chef e líder foi-se construindo ao longo dos anos ainda antes de ser chef. Foi-se construindo em casa com os meus pais como exemplo, com os chefes que tive, com as cozinhas onde passei e claro pelos desafios que fui aceitando. Como se diz em inglês “It takes a village to raise a child” e para mim para nos consolidarmos enquanto líderes também. Diria que o traço essencial da minha “marca” é a autenticidade.
Até que ponto é importante para si gerir a sua presença nas redes sociais e comunicação com o público?
As redes sociais são cada vez mais uma ferramenta de valor para partilhar o que fazemos e criar proximidade com quem nos segue.
Confesso que não sou tão assídua quanto deveria nas publicações, mas gosto de alimentar a minha página não só enquanto chef do Exuberante, mas também enquanto pessoa. Gosto de partilhar o que andamos a fazer de novo no Exuberante, fornecedores que visito, mas também as minhas férias na neve, aquele restaurante novo muito bom que fui na folga, um poema que me marcou…
Considera que os prémios e reconhecimentos, como o “Chef Revelação 2025”, influenciam a sua notoriedade e estratégias de marketing pessoal?
Claro que sim. Prémios são um excelente indicador de confiança para o consumidor e isso agrega muito muito valor para a minha carreira e para o meu posicionamento.
Acredita que a história pessoal e o percurso de um chef são importantes para cativar clientes e fãs?
Sim. Quer pelas experiências quer pelas conexões. Saberem de onde viemos, o que somos, o que nos motiva ou seja associar uma “pessoa real” à imagem do chef cria uma conexão e empatia e, para mim, é fundamental. Se não somos só seres humanos que cozinham coisas.
Como recebeu a notícia de ter sido distinguida como “Chef Revelação 2025”? Qual é o significado desta distinção para si?
Foi uma grande emoção para ser sincera. Ver reconhecido o trabalho que tenho feito nos últimos anos e que estou a consolidar agora no Exuberante com a minha equipa foi muito especial.
Sente que este reconhecimento muda a sua visão sobre o futuro ou a forma como encara a cozinha?
Não. Este prémio traz-me mais confiança. Mas a visão sobre o futuro e a cozinha que fazemos mantem-se sólida.
Que objetivos de posicionamento e crescimento tem para si nos próximos anos?
Neste momento concentro-me em consolidar o trabalho que tenho feito no Exuberante. Os desafios e objetivos para o futuro são evoluir sem perder a identidade que me define.
Que conselho daria a outros jovens chefs sobre construir uma marca pessoal forte e reconhecível no mercado gastronómico nacional?
Eu acredito realmente que serem autênticos é o fator chave. Somos todos diferentes e , para mim, é aí que mora o ouro. Assumir com autenticidade aquilo que somos e em que acreditamos, quer enquanto pessoas quer enquanto profissionais será sempre o nosso maior diferencial. Somos pessoas para pessoas.












