De protagonistas a participantes: como a comunicação das marcas nas redes sociais mudou entre 2016 e 2026

Notícias
Rafael Ascensão
16/01/2026
11:30
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16/01/2026
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De protagonistas a participantes: como a comunicação das marcas nas redes sociais mudou entre 2016 e 2026

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Com o arrancar do ano surgiu uma trend nas redes sociais que compara imagens, hábitos e referências de 2016 com as de 2026. E se essa trend fosse aplicada à comunicação das marcas nas redes sociais, que diferenças mostraria? A resposta está longe de ser linear, entre continuidades estruturais pautadas por transformações profundas na forma da comunicação e no papel das diferentes plataformas. Descubra o retrato traçado pelos especialistas ouvidos pela Marketeer.

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Neste espaço de uma década, Bruno Oliveira, formador de marketing digital, vê uma mudança de cenário “radicalmente diferente”. Isto porque, em 2016, as marcas eram protagonistas, com os utilizadores a seguirem entusiasticamente as suas marcas favoritas e com estas a comunicarem de forma controlada, previsível e “higiénica”. “Muito do conteúdo era uma extensão ou declinação de campanhas de televisão e materiais de ponto de venda. A cultura do meme começava a emergir nas marcas mais disruptivas, mas o tom era ainda institucional”, recorda o também head of digital da Sumol+Compal.

Bruno Oliveira, formador de marketing digital e head of digital da Sumol+Compal

No entanto, em 2026, as marcas “deixaram de ser os principais alimentadores do feed para se tornarem participantes num ecossistema dominado por criadores e conteúdo gerado por utilizadores”. Neste novo cenário, a Geração Z, em particular, desenvolveu uma “sensibilidade apurada para identificar e rejeitar o que considera ‘bullshit de marca’, comunicação vazia, sem autoridade genuína sobre os temas que aborda”, acrescenta Bruno Oliveira.

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Esta perspetiva parece ser partilhada por Catarina Sanches, que considera que a maior alteração nesta década está relacionada com o lugar de onde as marcas falam. “Em 2016, as marcas falavam de fora: observavam a cultura, traduziam-na e publicavam. Existia uma certa ‘distância segura’ entre as marcas e as comunidades”. Já em 2026, as marcas “são pressionadas a falar a partir de dentro. Já não chega comentar a cultura: é preciso habitá-la. A linguagem tem de se aproximar das conversas e dos gestos do quotidiano, porque as pessoas procuram menos discurso e mais presença”, considera a formadora e consultora na área de social media e marketing.

A comunicação deixou assim de ser “aspiracional e distante” para se tornar “relacional e imperfeita – sempre de propósito, naturalmente)”. “Se a primeira metade desta década ficou marcada pela chamada ‘era da autenticidade’, estamos agora na era da ‘proximidade real’: as marcas precisam de saber quando falar, quando ouvir, e também quando não aparecer”, aponta.

Catarina Sanches vê também alterações proporcionadas pelas próprias plataformas, uma vez que as redes sociais “deixaram de ser ‘apenas’ um canal para chegar a muitas pessoas a um custo relativamente baixo”, sendo hoje uma “experiência contínua, pouco comparável com o papel mais limitado” que tinham em 2016. “Estão presentes em todas as esferas da vida das pessoas, como consumidoras e utilizadoras, e atrevo-me a dizer que também em demasia no seu dia-a-dia”, diz a consultora na área de social media e marketing.

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Catarina Sanches, formadora e consultora na área de social media e marketing. Foto: Lisbon Digital School

Paulo Rossas, chief innovation officer da Lisbon Digital School, que entende que “pouco ou nada” mudou na forma de comunicar e na linguagem das marcas na última década — pois “todas continuam a fazer exatamente as mesmas coisas e a copiarem-se umas às outras” — também defende que o que mudou foram as redes.

“Depois do boom de 2016-2021 do Instagram onde fizemos todos o mesmo, desde comprar gostos falsos e seguidores falsos a giveaways que poluíram as nossas comunidades com pessoas que não queriam falar connosco e sim ter o prémio, fomos mais para o Tiktok e agora Linkedin”, diz.

Em termos de comunicação, as marcas fizeram essencialmente as mesmas coisas durante dez anos, entende Paulo Rossas, sendo que o que mudou verdadeiramente foi o investimento em paid social.

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“Em 2016 davam-se os primeiros passos neste modelo de audiências, onde as marcas pagavam por uma audiência específica e isso foi sendo melhorado nestes 10 anos, até chegarmos a estes modelos de IA, onde agora temos mega plataformas que medem e criam audiências e fazem tudo de forma automática e gerida por machine learning, totalmente focadas em negócio e geração de leads”, diz.

Do estático ao vídeo vertical

Além disso, também mudaram os formatos, pois se há 10 anos as imagens eram o conteúdo mais utilizado, a preferência recai agora sobre o vídeo vertical, com [Instagram] Reels, [YouTube] Shorts e Tiktoks, aponta Paulo Rossas.

A opinião é partilhada por Bruno Oliveira, que refere uma “mudança estrutural no formato”, onde o conteúdo “maioritariamente estático” em 2016 perdeu o papel central para o vídeo em 2026, onde existe “um comportamento em scroll contínuo e em que os primeiros três segundos são centrais para a marca”.

“O TikTok foi central na forma como consumimos conteúdo, a capacidade de gerar dependência através de um algoritmo eficaz acabou por forçar todas as outras plataformas a adaptar-se. O que começou uma plataforma de ‘dancinhas’, acaba por ser a plataforma com mais dependência, impactando a forma como consumimos conteúdo social em 2026”, diz o formador de marketing digital, referindo que o YouTube se mantém como exceção, mais próximo de uma lógica televisiva do que de social feed.

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Paulo Rossas sublinha ainda o facto de os influenciadores se terem tornado parceiros [e até a cara] das marcas nesta última década, sendo que os mesmos se profissionalizaram primeiro do que os social media managers, community managers e social media strategists.

“Em termos de diferença real, não existe muita diferença entre o que se fazia em 2016 e o que se faz agora em 2026. A área não se profissionalizou. Não olhamos para os dados para aprender o que realmente resulta. Não criamos conteúdo exclusivo. As marcas estão todas a seguir a mesma linha, que é a linha da segurança”, aponta.

Paulo Rossas, chief innovation officer da Lisbon Digital School.

Em 2016 as campanhas com influenciadores existiam, mas eram pontuais e concentradas em creators de grande dimensão, corrobora Bruno Oliveira, sendo que uma década depois os inflenciadores e criadores de conteúdo deixaram de ser contratados para campanhas isoladas para se tornarem parceiros estratégicos. Mas as diferenças não ficam por aí, diz, acrescentando que há dez anos o sucesso se media em seguidores — sendo que o crescimento rápido da base de fãs era o principal indicador de performance — que o Facebook e o Instagram eram os canais centrais, e que havia uma “forte dependência” do alcance orgânico, “ainda relevante na altura”.

Mas, em 2026, “as prioridades inverteram-se”. O conteúdo é agora orientado para utilidade, contexto e intenção, com “personalização em escala, apoiada por inteligência artificial”, que permite comunicar de forma relevante para segmentos cada vez mais granulares, sem perder eficiência operacional.

“Em paralelo, cresce o investimento em comunidades proprietárias e ambientes fechados, onde as marcas controlam a relação sem depender dos algoritmos das plataformas. A produção de conteúdos é nativa por plataforma, com linguagem específica para cada contexto, com as marcas que insistem em replicar o mesmo conteúdo a pagarem o preço em irrelevância”, diz Bruno Oliveira.

“A integração entre redes sociais, dados, CRM e comércio é cada vez mais fluida, transformando o social media num canal de negócio e não apenas de notoriedade, ou então, quando falamos em grande consumo, são canais relevante para construção de comunidade”, acrescenta ainda.

Catarina Sanches considera ainda que se está a assistir ao “regresso em força de comunidades que procuram ligações reais”, com grupos fechados, chats e lugares “onde o envolvimento é mais profundo e onde o ‘like’ perde grande parte daquele que já era, na verdade, um valor essencialmente simbólico”.




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